
O filme “A revolução não será televisionada” é considerado por muitos uma das melhores obras já feitas sobre a ascensão do regime chavista na Venezuela, se não por sua imparcialidade, sem dúvidas pela contundente forma como o documentário fala do outro lado da chegada de Hugo Chaves ao poder, sobre processos que nem a própria população venezuelana conseguiu acompanhar, muito menos o restante do mundo.
Golpes de estado que acontecem da noite para o dia, ajuda humanitária impedida de chegar ao destino, torturas e execuções, contestadores desaparecidos entre outras tantas obscuridades políticas multiplicaram-se extraordinariamente durante o século XX; governos da Argentina à China, passando por Cuba, Libéria e Myamar, valeram-se constantemente da facilidade de controle dos meios de comunicação como rádios, jornais e televisão para preservarem seus governos de intervenções externas e suprimir descontentamentos internos.
A fragilidade do que hoje chamamos meios de comunicação tradicionais reside nas mesmas bases que os fizeram canais confiáveis de informação. A centralização de notícias e opiniões nas mãos de profissionais sempre nos garantiu, ou nos fez pensar em garantias de que as informações recebidas eram fruto de um trabalho de coleta, seleção e reportagem, feito por pessoas cujo único comprometimento era com a verdade.
Continuamos relativamente seguros da integridade e confiabilidade da imprensa, mas hoje nossa postura se mostra bem mais consciente das distorções que uma notícia pode sofrer até chegar ao papel e das grandes manobras políticas que podem se esconder entre nas omissões e anúncios excessivos.
Esta semana, suspeitas de fraude nas eleições levaram milhares de jovens iranianos para às ruas em protesto contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, quem governa o país desde 2005 sob o apoio do sistema islâmico que governa o país desde 1979. Se até a última segunda-feira o Irã podia ser considerado aos olhos do mundo um país a caminho da democracia, a denúncia, seguida da violenta reação contra os manifestantes, nos desengana. Ou as violências.

Diplomatas vêm sendo advertidos sobre não abrirem muito a boca em seus países, correspondentes internacionais trabalham sob constante vigilância, os Basij, a milícia islãmica, distribuem fogo aberto entre as pessoas e levam embora os hospitalizados, levam para ninguém sabe direito aonde. Estimam-se mais de 100 feridos em meio à impossibilidade de serem contabilizados. Enquanto esse artigo era fechado, uma jovem fora baleada, a décima pessoa morta nos conflitos; acabo de assistir aos últimos segundos de vida dela no You Tube.
Os primeiros rumores sobre o que acontecia no Irã não estavam em nenhum canal de TV, nem nas rádios. Horas depois, 1 milhão de pessoas estavam nas ruas exigindo a recontagem dos votos impulsionados pelas declarações de Mir Houssen Mousavi sobre a suposta fraude na eleição. Enquanto a imprensa tradicional se decidia entre transmitir ou não as notícias na segunda-feira, por falta de material ou por negligência mesmo, o Twitter exibia atualizações sobre o assunto em uma média indeterminada de mensagens por minuto.
No momento, o Twitter é o principal canal de comunicação e divulgação (em diversos idiomas) dos acontecimentos. Hashtags (palavras antecedidas por “#” usadas para etiquetar os assuntos e facilitar sua busca) foram rapidamente definidas e organizadas para convergir notícias e avisos sobre o assunto (a principal delas é #iranelection, que funciona também no You Tube, Flickr e Facebook) e, embora o acesso à internet tenha sido cortado pelo governo, proxies burlam os filtros de segurança. A própria imprensa presente no conflito tem se valido dessas ferramentas quando possível, já que foram proibidos de fazer reportagens no local.

Todos estão apreensivos sobre os rumos desses conflitos, o maior desde a revolução iraniana de 79 que levou Ayatollah Khomeini ao poder. Eles já tem sido chamado de nova revolução, a verdade é que já extrapolou mesmo a revolta contra a eleição; tem dado vazão a diversos outros descontentamentos da população como os direitos da mulher e os abusos do governo teocrático, ou seja, nada sinaliza para pacificações, nem mesmo o anúncio da recontagem aleatória de 10% dos votos.
O furor do povo iraniano, o modo como nos fazem perceber que lutam por algo que não é o desejo somente daquela nação. Temos sido convidados ao engajamento. Cyberwar e cyberativismo podem soar como coisas bem tolas, até desrespeitosas, mas significam que, não importa a distância ou se estamos usando véus ou cruzes ou nada, liberdade é uma palavra que todos compreendemos mesmo sem saber exatamente o que é. Isso move as republicações, traduções e re-twitts, isso me move a escrever esse artigo e partilhar uma opinião de que só as múltiplas vozes podem dizer a verdade.






deixe o seu comentário
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião da obvious sobre as matérias em questão.
comments powered by DisqusLeandro Pereira
Essas fotos são todas actuais? Em particular as da policia, é que acho estranho o facto de os equipamentos da policia dizerem police, e nenhuma inscrição em árabe!
priscilla
Oi Leandro, sim, todas as fotos são atuais, capturadas durante essa semana por manifestantes e agências de notícias como a Reuters que se misturaram aos manifestantes (porque a imprensa está "proibida de sair de seus escritórios").
O vídeo é de ontem, sábado dia 20 de junho.
Fiquei com a mesma dúvida a respeito da polícia... certamente é alguma herança universalizante (pra que todos entendam) dá época em que as relações entre o Irã e a Inglaterra eram bem estreitas.
Fábio
Excelente artigo, um pouco mal escrito mas muito sentido
DuduMaroja
Acredito que temos que aproveitar esse tempo de expressão popular tão bem utilizado pelos iranianos, para exigir uma reforma política séria já! a começar evitando que político investigue politico! quem tem que investigar corrupção é a polícia federal!!
inclusive comecei a twittar com a tag #ReformaPoliticaJa mas infelismente meu twitter não pode ser considerado de expressão, então gostaria de deixar esse comentário para pedir para todos que puderem começar a gerar discução sobre isso!
acredito que pequenos protestos em varias cidades no Brasil ao mesmo tempo é a melhor maneira de mandar uma mensagem séria que queremos que a situação ridícula que se encontra a política do nosso pais!
Gaizke Inoan
Mais informações sobre o que acontece no Irã, neste blog excelente, o melhor em lingua portuguesa sobre o assunto!
http://tsavkko.blogspot.com/search/label/Ir%C3%A3
lylian
excelente artigo, obrigada, priscilla.
vou repetir aqui essa sua frase, muito especial:
"o modo como nos fazem perceber que lutam por algo que não é o desejo somente daquela nação"
IRÃO
Diz-se IRÃO.
Talibã da Brandoa
irã
nome masculino
Guiné-Bissau designação genérica de deus, protetor e castigador; espírito que aparece normalmente sob a forma de serpente mas que assume outras formas
(Do crioulo iran, «ídolo, espírito protetor», do timené an-iran, «jiboia muito grande»)
in infopedia.pt
lívia
Excelente artigo, as fotos foram de um caráter argumentativo impressionante. Senso crítico aguçado.
José Teles
Artigo que mexe connosco, fotos que falam por si. Presto-lhe uma homenagem no meu blog o estoiro da boiada.
Obrigado
José Teles
Maleb França
Só corrigindo um equívoco.
A primeira crise política a ser noticiada quase que exclusivamente pela Internet foi a queda da União Soviética (URSS). Na época todos os canais de comunicação foram cortados, menos o IRC. Então alguns raros "mirqueiros" da época noticiaram os acontecimentos.
Daniel Sant'ana
A luta continua.
Embora eu não entenda muito a situação do Irã, torço para que o pais consiga a liberdade desejada pelo povo e ñ pela mídia capitalista
Fernando Miranda
A internet pode ser muitas coisas. A melhor delas, é ser livre. Já vimos o estrago que o governo teocrático está provocando não só descaradamente no Irã, mas disfarçadamente no mundo inteiro. Sua crença não deveria passar da porta da sua morada. Se você impoem um lei maior, que visa o controle e não o bem estar de outrem, então, já desrespeita o maior mandamento: ama os outros como a tí mesmo.
Sorte para o Irã, porque a luta já começou.
Peter Zimmermann
Olá amigos
Lí este post quando foi divulgado mas, à epoca, não tinha muito o que dizer pois é uma realidade que desconheço.
Sim, desconheço, "cultura" de tele-jornal não é algo que me impressione desde que passei a conhecer algo de George Orwell. Mídia é sempre algo rasteiro, muito rápido, fast-food mesmo.
Daí fiquei vagando pela net.... Depois ganhei dois livros, A cidadde do sol (Khaled Hosseini) e A caminho de Cabul e Bagdá (James Burke).
Claro que não são compêndios sobre Islamismo, nem me pretendo ser especialista em tais assuntos, apenas desejo entender o ponto de vista destes que lá vivem, renegando (eu), ou tentando renegar, me higienizar, de toda idéia pré-estabelecida em minha mente, plantadas através de sensacionalismo, piadas "constitucionais", especialistas surgidos do dia para a noite, me isolar do ambiente que assola todos os nossos sentidos.
Portanto, não sendo eu um especialista, venho apenas deixar esta minha simples colaboração para aqueles que de espírito e mente livres buscam entender o que de tão longe muitos julgam.
Tolerância é ofensiva, compreensão é respeito. Esta ídéia não é minha mas a encampei como o norte de uma bússola.
Talvez um dia eu aqui retorne, e opine.
Até lá deixo um grande abraço para todos.
Peter Zimmermann (12 fevereiro 2010)