A revolução do Irã não será televisionada

Pela primeira vez na história, a internet é o lugar privilegiado para o acompanhamento de um processo político e cultural. Tendo a rede como o único modo de ser noticiado sem censuras ou sanções, os conflitos no Irã estão convergindo estudantes, imprensa e cidadão de todo o mundo em torno de uma única causa: o direito a liberdade.



2009_184000_iran1.jpg

O filme “A revolução não será televisionada” é considerado por muitos uma das melhores obras já feitas sobre a ascensão do regime chavista na Venezuela, se não por sua imparcialidade, sem dúvidas pela contundente forma como o documentário fala do outro lado da chegada de Hugo Chaves ao poder, sobre processos que nem a própria população venezuelana conseguiu acompanhar, muito menos o restante do mundo.

Golpes de estado que acontecem da noite para o dia, ajuda humanitária impedida de chegar ao destino, torturas e execuções, contestadores desaparecidos entre outras tantas obscuridades políticas multiplicaram-se extraordinariamente durante o século XX; governos da Argentina à China, passando por Cuba, Libéria e Myamar, valeram-se constantemente da facilidade de controle dos meios de comunicação como rádios, jornais e televisão para preservarem seus governos de intervenções externas e suprimir descontentamentos internos.

A fragilidade do que hoje chamamos meios de comunicação tradicionais reside nas mesmas bases que os fizeram canais confiáveis de informação. A centralização de notícias e opiniões nas mãos de profissionais sempre nos garantiu, ou nos fez pensar em garantias de que as informações recebidas eram fruto de um trabalho de coleta, seleção e reportagem, feito por pessoas cujo único comprometimento era com a verdade.

Continuamos relativamente seguros da integridade e confiabilidade da imprensa, mas hoje nossa postura se mostra bem mais consciente das distorções que uma notícia pode sofrer até chegar ao papel e das grandes manobras políticas que podem se esconder entre nas omissões e anúncios excessivos.

Esta semana, suspeitas de fraude nas eleições levaram milhares de jovens iranianos para às ruas em protesto contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, quem governa o país desde 2005 sob o apoio do sistema islâmico que governa o país desde 1979. Se até a última segunda-feira o Irã podia ser considerado aos olhos do mundo um país a caminho da democracia, a denúncia, seguida da violenta reação contra os manifestantes, nos desengana. Ou as violências.

2009_184001_iran2.jpg

Diplomatas vêm sendo advertidos sobre não abrirem muito a boca em seus países, correspondentes internacionais trabalham sob constante vigilância, os Basij, a milícia islãmica, distribuem fogo aberto entre as pessoas e levam embora os hospitalizados, levam para ninguém sabe direito aonde. Estimam-se mais de 100 feridos em meio à impossibilidade de serem contabilizados. Enquanto esse artigo era fechado, uma jovem fora baleada, a décima pessoa morta nos conflitos; acabo de assistir aos últimos segundos de vida dela no You Tube.

Os primeiros rumores sobre o que acontecia no Irã não estavam em nenhum canal de TV, nem nas rádios. Horas depois, 1 milhão de pessoas estavam nas ruas exigindo a recontagem dos votos impulsionados pelas declarações de Mir Houssen Mousavi sobre a suposta fraude na eleição. Enquanto a imprensa tradicional se decidia entre transmitir ou não as notícias na segunda-feira, por falta de material ou por negligência mesmo, o Twitter exibia atualizações sobre o assunto em uma média indeterminada de mensagens por minuto.

No momento, o Twitter é o principal canal de comunicação e divulgação (em diversos idiomas) dos acontecimentos. Hashtags (palavras antecedidas por “#” usadas para etiquetar os assuntos e facilitar sua busca) foram rapidamente definidas e organizadas para convergir notícias e avisos sobre o assunto (a principal delas é #iranelection, que funciona também no You Tube, Flickr e Facebook) e, embora o acesso à internet tenha sido cortado pelo governo, proxies burlam os filtros de segurança. A própria imprensa presente no conflito tem se valido dessas ferramentas quando possível, já que foram proibidos de fazer reportagens no local.

2009_184002_iran3.jpg

Todos estão apreensivos sobre os rumos desses conflitos, o maior desde a revolução iraniana de 79 que levou Ayatollah Khomeini ao poder. Eles já tem sido chamado de nova revolução, a verdade é que já extrapolou mesmo a revolta contra a eleição; tem dado vazão a diversos outros descontentamentos da população como os direitos da mulher e os abusos do governo teocrático, ou seja, nada sinaliza para pacificações, nem mesmo o anúncio da recontagem aleatória de 10% dos votos.

O furor do povo iraniano, o modo como nos fazem perceber que lutam por algo que não é o desejo somente daquela nação. Temos sido convidados ao engajamento. Cyberwar e cyberativismo podem soar como coisas bem tolas, até desrespeitosas, mas significam que, não importa a distância ou se estamos usando véus ou cruzes ou nada, liberdade é uma palavra que todos compreendemos mesmo sem saber exatamente o que é. Isso move as republicações, traduções e re-twitts, isso me move a escrever esse artigo e partilhar uma opinião de que só as múltiplas vozes podem dizer a verdade.

2009_184003_iran4.jpg

2009_184004_iran5.jpg

2009_184005_iran6.jpg

2009_184006_iran7.jpg

2009_184008_iran9.jpg

2009_184007_iran8.jpg

priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x2
 
Site Meter