
Jovens com seus telefones celulares, aparelhos de som, distraídos, conversando entre si, arrogantes, divertidos, ingênuos e mordazes ao mesmo tempo. Eventualmente fazem algumas anotações, eventualmente olham com curiosa atenção para quem está ali à frente; o foco é um professor, talvez também algum desespero.
Um dos exemplos mais contundentes do estilo Documentário Ficcional, “Entre os muros da escola” (Entre les Murs”) nos leva para o micromundo de uma escola nos subúrbios franceses, apresentando a tênue relação orquestrada quando o choque de gerações e o cultural passam a integrar o mesmo metro quadrado.
Ganhador da Palma Dor e indicado ao Oscar desse ano, o filme de Laurence Cantet conta um pouco do cotidiano de uma sala de aula e seus arredores durante todo um ano letivo. Há a apresentação dos novos professores, alguns conselhos dos que estão em vias de se aposentarem, a coordenação docente, as reuniões, as leituras... Mas trata-se de uma escola especial: formada por filhos de imigrantes e franceses pobres, a classe de “Entre les murs” é colorida, multiétnica e multilíngüe, com africanos, asiáticos, europeus e latinos vindos das mais diversas partes de sua região (os meninos africanos, por exemplo, nada têm de brothers). Tudo acontece ao mesmo tempo e é capturado por uma incômoda câmera que nos coloca por ali, onipresente.
“Entre les murs” é o mundo de François Bégaudeau, professor de Literatura e romancista quem escreveu protagoniza o filme. Certamente o maior mérito da história está na abertura de Bégaudeau, que e propõe a expor suas visões da sala de aula e suas reações diante dela de um modo terrivelmente humano, cheio de falhas e desnudado de hipocrisias. Mas o escopo é maior do que as observações recolhidas por ele. O filme traz, para além da pedagogia, questões relativas à imigração as dificuldades enfrentadas pelo país na tentativa de conter os choques inevitáveis.

Aliás, é nesse ângulo que Entre os Muros se torna universal. Se a França sofre para digerir comunidades tão diferentes, em diferentes níveis, esse é um problema que assola escolas de todo o mundo, mesmo as abastadas. As diversas identidades e comunidades contemporâneas, inevitavelmente, se reproduzem nas escolas e os conflitos que nascem daí são os mesmos no Brasil, nos Estados Unidos, Canadá ou Itália. Alunos e professores de todo mundo se aproximam pela sala de aula do professor François Marins.
O resultado é um filme sensível e incômodo que nada se parece com seus semelhantes de vinte anos atrás, aqueles onde impera a fórmula do professor inspirado que salva seus alunos rebeldes. Seguindo as atuais reflexões do cinema, Entre les Murs escancara a falta de perspectivas e esperanças, ou, ao menos, de soluções imediatas para problemas que parecem nos ultrapassar. Seu gosto final está mais para No Country for old Man do que para “Dangerous Minds”. Mas o amargor vale a pena.




9 comentários
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messias
eu vi! eu vi! muito bom! muito bom!
Vitor!
Liberdade, igualdade e fraternidade.
Fernando Miranda
Excelente filme, assisti recentemente, recomendo a todos que querem entender porque o mundo está se tornando o que é hoje. Sem uma boa educação de base, não se forma cidadãos, se forma marginais.
jessica
pra ser cincera eu vi o filme mais não entendi muito não.
koveiro
caramba meu empolguei com sua crítica Priscilla verei esse filme concerteza.
A escola hoje em dia deveria ser mais atraente, mas cada dia ela só afasta mais os alunos.
Soraya Queiroz
Como acadêmica de Letras e estudante do curso de extensão em francês, fui agraciada duas vezes pelo filme. Já vi um pouco desta realidade no meu estágio de observação com alunos do Ensino Médio. A falta de respeito impera e vai além dos muros da Escola.
Giovanna Rufini
Assisti ao filme e gostei muito.Mostra o professor mais próximo de mim (professora) não daquele eternamente idealizado.
No contexto do filme, trata-se de uma escola que atende imigrantes.Mas ela é tão próxima da nossa escola pública, que fiquei com a impressão que nossos alunos são estrangeiros dentro de suas próprias escolas.
Rodrigo
Pois é Giovanna, é exatamente esse o problema que esse ótimo filme mostra. Não é uma escola pra imigrantes, é uma França que passa por muito problemas relacionados diversidade de etnias e credos, educação decadente, criação de guetos (já que o mercado não absorve trabalhadores mais), envelhecimento da população que já não sustenta sua previdência privada etc. Se você viu semelhança com o Brasil, está certa, mas o problema é maior. Há semelhança com muitos lugares do mundo. A tal globalização nos uniu nos avanços modernos, mas também nas deficiências. O que é comum aqui, é em vários países.
Pedro Rigueira
Que grande filme. Confesso que quando comecei a vê-lo estava à espera de mais do mesmo: como dizes e bem, do professor que salva os alunos. Mas não. Fiquei surpreendido com a enorme proximidade que o filme estabelece com uma realidade que podia ser a minha. O épico do quotidiano ( que tenho de comparar com Almodóvar) numa linguagem muito própria.
Adorei.
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