Lobo e Odyr: Copacabana de sombras e sombras

Nascido das mãos, trânsitos, caos e obscuridades de Lobo e Odyr, o álbum Copacabana, lançado à semana passada no Rio de Janeiro, expõe os angustiantes, mas fascinantes contrastes de um dos bairros mais famosos do mundo. Um romance noir tropical cheio de tragédias por onde a heroína caminha sin perder la ternura jamás.


2009035006_copacabana7.jpg

A gente podia tomar uns chopps e ir dançar. Você já foi na Help?. Não, responde ele; Quer dizer... não pra dançar. A Discoteca Help já foi famosa por sua festa de réveillon de frente para a praia de Copacabana, com toda a queima de fogos em plena areia. Hoje pouco restou dos anos 90; a boate parece fora do lugar com aquela fachada aquadradada de tinta descascando, não lembrando em nada as modernas casas noturnas que se espalham em outras orlas da mesma Zona Sul. Ninguém parece se importar. As noites na Help hoje são tanto quanto ao mais quentes do que naquele tempo. Saem as mocinhas de mentido fino trato e entram os estrangeiros escoltados por mulheres que gravitam ao redor dos dólares, que voam das carteiras. Pasteurizados no meio deles, os chamados corajosos, aqueles que pagam para assistir ao espetáculo. A despeito do objetivo, todos dançam, há delírios, sexo, drogas e muito suor diluído enquanto a Avenida Atlântica segue até o amanhecer. Para os quadrinistas Odyr e Lobo, nada mais é que um jogo de sombras e sombras: Copacabana é sempre como a pista da Discoteca Help, o sol é que atrapalha a vista.

O álbum, publicado pela Desiderata, começou a ser concebido quando o declínio do legendário nightclub já gozava de muitas saúdes; dez anos atrás, Sandro Lobo chegava ao Rio de Janeiro vindo do Rio Grande do Sul e acabara se instalando no bairro, vagando pelas ruas durante as noites insones . Foi se alimentando das pessoas dali, das suas histórias, dos seus bons e maus modos. Os personagens iam aparecendo e as histórias se confundindo umas nas outras; os personagens iam se formando e as histórias se inventando a partir umas das outras. Depois de dois anos, das anotações e fictiones saiu o roteiro de Copacabana.

bd cidade copacabana drogas hq rio janeiro sexo

Os desenhos passaram por diversas mãos ao longo de sete anos até irem parar nas mãos de Odyr Bernardi, também egresso do Rio Grande do Sul, que, pelo serviço, acabou largando o bucólico bairro de Santa Teresa para ir ter com as agruras de Copacabana. Com Lobo a tira-colo, teve seus primeiros contatos com o calçadão, com as arquiteturas, viaturas e chopps ladeados por aqueles canteirinhos verdes. Fotografou tudo até começar a surgir a alma do álbum, àquela espécie de SinCity tropical.

Conheci os dois artistas num dia de azar e extrema sorte em que fui barrada na abertura da exposição de quadrinhos no Centro Cultural dos Correios, no Centro da cidade. Eles eu não sei se também tinham sido recusados ou se simplesmente estavam, como o Jaguar, mais a vontade com a brisa do que com o concorrido coquetel que rolava lá em cima. Orgulhosamente, no fim da noite, recolhi os desenhos de mim que Odyr tinha feito nuns guardanapos, os que ainda não tinham se afogado na cerveja da mesa. Eles se despediram convidando para uma esticada... na Help. Agradeci, recusei e fiquei coçando pela falta de coragem.

bd cidade copacabana drogas hq rio janeiro sexo

Era por lá que a preta Diana deles trabalha, ou melhor, batalha. Um ambiente nitidamente borrocado, com meninas no queijo, meninas nas cabines de strip, meninas na calçada com a bunda em meia-lua do lado de fora (destaque para a marca de biquini), bonecas para todo canto: os travestis estão reinando e precisam se alimentar, e precisam pagar o pó da noite. Nesse ínterim, bares, poodles com seus velhinhos na janela, cantadas baratas, cantadas caras e estupros, levam a protagonista, de cliente em cliente, para uma trama onde alguns golpes podem dar muito errado e quem é que vai ter de esconder os corpos? A despeito de tudo ela continua.

Diana transita por esse caos feito essas pessoas com luz própria; ela não precisa de cartões postais porque sozinha consegue colorir as ruas e vidas monocromáticas entre um Sílvio Santos na TV e outro. Copacabana é uma história sensível exposta a todo tipo de selvageria sexo, tiros e drogas. Trás o B side de um bairro invadido por contrastes, deslocado entre a beleza gloriosa e a fome de tudo.

bd cidade copacabana drogas hq rio janeiro sexo

bd cidade copacabana drogas hq rio janeiro sexo

bd cidade copacabana drogas hq rio janeiro sexo


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Priscilla santos