Refúgio à beira-rio - leonard cohen

Todos conhecemos os perigos de partir, com toda a expectativa, em adoração a algo ou a alguém. Nos dias que antecederam 19 de Julho de 2008, num verão com poucas distrações a não ser as do frenesim de concertos e trabalho, as minhas mãos suavam expectantes. Ía ver pela primeira vez, e provavelmente última, o Deus da religião dos quebrados.


Leonard Cohen concerto

A fauna populacional no concerto de Leonard Cohen abrangia várias gerações, que ali se uniam com diferentes olhares e estímulos para o ver. Havia quem ali estivesse para ver um cantor de charme, estando prontos a entoar declarações de amor (totalmente subservientes) como "I'm your man", recordando momentos de sedução. Em relação a eles resta-nos a compaixão, pois dessas e outras canções, e dos momentos que estávamos prestes a assistir, havia tanto mais a retirar do que essa banalidade. Outros entravam agora, ainda de olhos meios fechados, na caverna de onde ecoavam as suas histórias.

O palco era imponente e negro, e no espírito luminoso daquele fim de tarde todos esperávamos a sua chegada. Cohen entrou palco adentro com a energia de um juvenil septuagenário, em trote. A energia que vinha de dentro dificilmente se traduzia em agilidade mas, para quem viveu atormentado, Cohen parecia ter finalmente encontrado o seu lugar. Tal como era o palco, vinha de negro, mas transbordava fulgor.

Depois da abertura com "Dance me till the end of Love" seguiram-se relatos de um mundo em declive: "I´ve seen the future, brother: It is murder". Ele fez futurismo para lá das portas trancadas. E nós orámos em reverência.

Fez-se acompanhar, derretido, por três jovens meninas, com vozes angelicais, que se ouviam suavemente por detrás da voz funda de Cohen, em quase todas as canções. Segundo Cohen eram elas quem entoava o mote da salvação: du ram dam dam du ram dam. Ele não se cansava de as incensar, tal como aos restantes membros da banda. Até na apresentação dos seus colaboradores a sua poesia se revelava. Um baterista, no mundo de Leonard Cohen, nunca poderia ser apenas isso, mas sim: um time keeper. Encontrou o refúgio nos pequenos deleites.

Leonard Cohen concerto

Apesar da grandeza do momento, por vezes, era difícil abstrair-me dos saxofones e guitarras exóticas que pareciam estragar a harmonia. E ficou a vontade de ouvir mais, e principalmente de o ouvir nos momentos em que foi mais genial. Ficaram de fora canções de amor e ódio. Restaram outras.

A generosidade revelada perante o público e os seus músicos fez conhecer um gigante cavalheiro, empunhando um chapéu que educadamente ia retirando a cada pausa, agradecendo infinitamente aos amigos que o tinham ido ver. Rendemo-nos. Para quem bastava vê-lo por breves momentos, e ouvi-lo proferir um verso sagrado, ficou uma missa inteira para recordar.

Agora podemos ouvir este mesmo espectáculo no CD/DVD ao vivo lançado pela Sony "Leonard Cohen - Live in London". Sem a magia proporcionada pela presença de Cohen as, por vezes incómodas, escolhas instrumentais pesam um pouco mais.

Inesperadamente, temos uma nova data para um concerto em Lisboa, desta vez no pavilhão atlântico, a 30 de Julho. À partida não será surpreendente, mas para quem não teve a oportunidade de estar no passeio marítimo de Algés o ano passado é com certeza a última oportunidade para ver Leonard Cohen.

Leonard Cohen concerto

Rita Cabral, Atol Magazine.


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