18:30 microcontos para engarrafamentos

Com o novo livro Dezoito e Trinta, o curitibano residente em São Paulo, Samir Mesquita, explora mais uma vez sua literatura fast-food, cômica, trágica e ácida, agora indo descobrir as micro histórias escondidas sob os quilômetros de engarrafamentos que assolam o rush das grandes cidades


 18:30 microcontos para engarrafamentos

De acordo com estudos da prefeitura de São Paulo, 25% de seus habitantes gasta de uma a duas horas no trânsito enquanto 38% gasta até quatro horas. São mais de 7 milhões de pessoas tentando chegar ao mesmo tempo em algum lugar, geralmente sozinhas: cada veículo leva 1,5 pessoas, na média. Quem não quer privacidade em momentos assim? É possível que um paulistano que trabalhe de segunda a sexta e use um automóvel para chegar ao emprego, gaste, até os 35 anos, cerca de 2 anos e cinco meses em engarrafamentos.

Porque nenhum de nós quer perder tempo, mesmo aquele que parece não ter salvação, vão-se revistas folheadas, mantras, discografias, alongamento das pernas, mas... Os minutos estão ali correndo, embora a aparência seja de estagnação. Com o tempo, correm também as histórias, as reflexões e decisões; memórias que são irrefreáveis e eventos surpreendentes que não escolhem bem o lugar para acontecer. Pode ser ali no carro ao lado: um telefonema com a notícia mais desejada ou avisando sobre a morte da mãe, aquele emprego talvez não seja tão bom, ele nunca quis viver naquela cidade, que mal há dar em cima do seu amigo?, há muita miséria em todo lugar, há muito sexo oral em todo lugar, pode estar acontecendo a digestão de uma ressaca moral, alguém pode estar decidindo a receita para a janta.

É sobre as milhares de histórias que acontecem na efemeridade eterna dos grandes engarrafamentos que trata Dezoito e Trinta, novo livro do escritor Samir Mesquita. Curitibano radicado há 8 anos em São Paulo, o autor conhece intimamente a rotina do tráfego local – enfrentava o castigo das 3 horas de tráfego intenso antes de passar a trabalhar em casa.

Seguindo a proposta dos microcontos, que fizeram do seu primeiro trabalho, “Dois Palitos”, um sucesso e um fascínio, Samir Mesquita desenrola séries de pequenos grandes causos, tragédias íntimas e muita ironia para serem refletidos dentro e fora do horário de rush. Como seu antecessor, 18:30 não tem nada de convencional: os microcontos se espalham no mapa-pôster de um cruzamento (a escala é de 1/34), onde cada carrinho conta uma rápida história. A ideia surgiu depois de uma instalação no SESC São Paulo, cuja proposta era criar alguma forma inusitada de literatura: os carros de brinquedo enfileirados e engarrafados, dando carona aos contos, foi a matriz do projeto. Para a leitura, é necessário parar, tomar um espaço, se debruçar e fazer alguns equilíbrios; assim o corpo também é convidado e a leitura encontra novos níveis.

Interessado? Pois até para adquirir o livro os modos são incomuns. O livro não só está à venda, como está à troca! Sim, basta selecionar um livro da lista exposta no site do autor (uma obra de arte à parte, programado por Fabio Miki, com fotos de Raul Raichtaler) e enviar para ele que lá lhe chega o Dezoito e Trinta. O curioso escambo, segundo Samir Mesquita, pode, aparentemente, não servir muito ao bolso, mas, como ainda está possível pagar a gasolina com seu salário de redator publicitário ele está usando essa estratégia para investir na sua formação como escritor, profissão que pretende, em breve, se dedicar integralmente.

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Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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