A Índia de Anoop Negi: pessoas e arredores

“Você tem de ver aquele lugar algum dia, tenho certeza de que ficaria maravilhada” decreta o indiano Anoop Negi. Falava da cidade-ruína de Hampi, localizada no sudoeste da Índia e que abriga templos hindus do século XIV onde esteve clicando nos últimos tempos. Repartir o encantamento que certos lugares e certas pessoas lhe exercem parece algo inevitável para esse negociador da bolsa de valores que encontra na fotografia sua maior paixão.


20090210006anoop_negi.jpg Color me red. Carnaval de Tripunithra, uma cidade próxima de Cochin em Kerala, Índia.

Dois homens, cada um em uma extremidade da corda correm dentro de um rio, encharcados. Ao lado de dois imensos touros unidos por uma vara de madeira e mais cordas. Um terceiro está no meio da cena, escondido pela espuma de água que a corrida levanta. A poderosa imagem da corrida parece conter em si um universo inteiro cujo significado é misterioso para a maioria de nós. As tradições e a alma popular dos indianos, centro desse tal universo, é o que busca o olhar de Anoop Negi através da sua câmera. Nascido na Índia em meados dos 50’s, fotografa há mais de dez anos. Cruza o país nos revelando lugares, rituais e existências fantásticas, cheias de apuro etnográfico.

Com sua infinita gentileza, Anoop e eu conversamos um pouco sobre seu trabalho, internet e desafios: Se for ser uma paisagem ao ar livre, preciso esperar que elementos como iluminação, luz do sol, nuvens e hora do dia estejam todos ok. Fotografar pela manhã na Índia é um processo bem difícil, não só por causa do brilho brutal do sol, mas porque é muito quente.

Suas imagens de Goa são incríveis, faz algum anos que me apaixonei por esse lugar. O céu, o mar, a história. É um paraíso esquecido. A índia sempre preenche a imaginação... Estou em Goa atualmente. É um grande lugar, é um dos melhores destinos para férias por conta dos banhos de mar. Antes de lá, passei 3-4 anos em lugares como Cochin em Kerala, Calcutá, Bombay, Delhi, Bangalore etc. Acho que na maior parte da Índia, se pode dizer.

Me conte um pouco sobre como a fotografia entrou na sua vida, como você começou? O que te impulsiona às capturas...? Acho que isso teve a ver com a curiosidade a respeito de todas as coisas mecânicas e inventivas. Eu queria saber como funcionava e que resultados davam. Minhas fotografias não começaram porque vi imagens de devastação do planeta. Acho que li demais a revista Life, que trazia imagens dos eventos que aconteciam no mundo. Isso deve ter sido a janela da alma para o meu interesse pelo fotojornalismo.

Quando eu era jovem sonhava sempre em tirar fotos, mas a verdade é que esse tipo de sonho só se torna realidade quando você consegue juntar certa quantidade de dinheiro no bolso para comprar uma boa câmera. Aí você tem de esperar, até poder pôr as suas mãos em alguma coisa decente. Hoje em dia você encontra disponível nos mercados câmeras de todos os tipos, mas nos anos 80 e 90 na Índia não era assim.

O que motiva uma pessoa a capturar com uma câmera o que ela captura está sempre relacionado a quanto uma pode fazer com as ferramentas sob o seu comando e sua habilidade de extrair o melhor do seu talento, da sua criatividade e como desafia a situação em que está. Se uma dada situação impõe um desafio em termos de acessibilidade, oportunidade, a dificuldade em enfrentar aquilo fará da imagem que você fez recompensadora.

20090210001anoop_negi.jpg Portões do Paraíso em Marriot, Goa. Depois de um dia muito quente, a chuva dá novos tons ao céu.

E você consegue trabalhar com fotografia ou tem algum "emprego sério" para mantê-la? Recebe convites locais? Fotografia hoje em dia não consegue te sustentar como uma carreira. Meu trabalho regular é no mercado financeiro como negociador e investidor na bolsa de valores. Os custos são pagos por mim mesmo. Todas as minhas fotografias são feitas em viagens pessoais. A venda de fotos não gera um lucro capaz de sustentar as despesas que tenho nesse tipo de viagem. Eu, pessoalmente, não aceito convites de instituições que pedem por cobertura fotográfica. Ocasionalmente oferecem comissões para fotos comerciais, mas na maioria das vezes eles querem uma coisa que seja barata que não é exatamente o que eu gostaria de fazer.

A maior parte da sua atividade está no Flickr, você poderia comentar um par de coisas sobre o site? Por que fazer uso do Flickr? Prós... contras… O Flickr é um bom site para a vasta maioria de fotógrafos semi-profissionais e amadores. Um grande número de imagens inunda seus servidores todos os dias. Há por lá boas fotografias e há também fotos ruins. Se você as vê pode facilmente começar a dizer coisas boas ou coisas ruins, depois disso é um processo lógico aprender as técnicas e formatos e estilos envolvidos. Isso ajuda um fotografo iniciante a ter uma visão ampla do mundo da fotografia.

O lado contra é que isso não vai genuinamente ajudar um fotógrafo a desenvolver habilidades críticas; ele acaba tendo de confiar na sua própria experimentação e imitações. Como é construído em cima de uma apreciação mútua das fotos, o feedback que você deveria ter acaba não acontecendo, se torna “bata nas minhas costas que eu bato nas suas”.

Agora até mesmo os fotógrafos profissionais tem suas contas no Flickr e postam suas fotos não comissionadas. O Flickr agora é um modo de atingir uma vasta audiência e maior acesso. É semelhante a redes sociais como Facebook, Twitter etc., mas tendo somente a fotografia como meio de se conectar.

20090210005anoop_negi.jpg Maramady em Adoor, Kerala. A corrida de touros no festival que celebra a agricultura.

20090210004anoop_negi.jpg Um mergulhador em ação para pescar mexilhões.

20090210009anoop_negi.jpg Influência lusófona em um bar de Panjim: cores vibrantes são as mais comuns pelas paredes da cidade.

20090210002anoop_negi.jpg Praia de Goa, Natal de 2008.

20090210008anoop_negi.jpg Cruzando os céus. Circa, Kerala.

20090210003anoop_negi.jpg Invasão Russa em Goa


Priscilla santos

é adoradora de cervejas e colabora com a obvious.
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