
O universo de um artista é sempre formada pelo conjunto das suas obsessões, pelos objetos recorrentes. Talvez por isso Steven Soderbergh, a despeito de uma obra considerável que conta com filmes de grande sucesso, não é o mais amado na lista dos cinéfilos. Uma das explicações é justamente a que aponta (ou acusa) Soderberg de não manter nenhuma aparente linearidade nas suas histórias, na escolha das produções, no modo como as trabalha. Sempre está salteando de conceitos, de estilos, tão difícil de ser identificado quanto sugere o título de “I’m not there”, produzido por ele, ou quanto os paradoxos quase inexistentes do Che Guevara que conjurou.
A não-linearidade se junta a críticas de tédio cinematográfico quando o assunto é seu novo filme The Girlfriend Experience. Depois da exaustão da ótima série Ocean’s Eleven e da maratona que foi gravar a biografia de Che junto com um obcecado Benício Del Toro, só o que se poderia esperar era um filme lento e sonolento, um filme de entressafra. É o que os críticos tem gostado de repetir. Para o autor, as razões são completamente alheias a esses argumentos, parecem ter outro foco que nada tem a ver com arte, mas com políticas e conservadorismos de uma indústria que sempre achou bonito ser conservadora: A [vodka] Grey Goose ia patrocinar a festa de lançamento do filme, e quando descobriram que Sasha fazia filmes adultos, eles desistiram, disse Soderbergh para a Rolling Stone Magazine.

Sasha Grey faz filmes adultos desde os 18 anos. Trata-se de uma das maiores estrela da indústria pornô – e isso diz pouco sobre ela. Sasha não se enquadra em nenhum dos clichês ou estereótipos de uma atriz de filmes adultos já visto até hoje.
Se a pornografia é transgressora, o é na mesma proporção em que faz questão de que as coisas permaneçam iguais. Claro, seu público consumidor principal não mudou, eles são homens e são héteros, o que significa dois minutos de sexo oral nela versus meia hora nele. Mas então ela aparece e os papéis subvertem. Sasha faz parte da categoria de atuação pornográfica conhecida como hard core e é, certamente, a única que consegue fazê-lo com terror e graça ao mesmo tempo. É rápida, voraz, enlouquecida, grita, bate apanha com homens, mulheres, vibradores e o que mais estiver em cena. É ela quem come. No fim de tudo, volta para casa confortável onde mora com o diretor de cinema independente Cinnamon, seu namorado há três anos, e cultiva música industrial alemã e filmes do Godard.

Sasha Grey é Chelsea - ou Cristine - a personagem principal de “The Girlfriend Experience, curiosamente a única atriz de verdade no elenco. O filme se passa durante a crise financeira de 2008, na cidade de Manhatan onde Chelsea trabalha como prostituta de alta classe. Para ela, a crise é apenas um assunto de que ouve muito falar, pela boca de seus próprios clientes bastante preocupados com o rumo das coisas, além de seu namorado que, trabalhando como personal training em uma academia, não consegue ganhar em um mês nem 10% do que ela arrecada em um único encontro. Para Chelsea a crise não existe e tudo indica que sua carreira verá um futuro promissor. Segue escalando degraus, de encontro em encontro, sem nenhuma aparente perda de dignidade, mas às custas de se tornar cada vez menos capaz de manter relacionamentos profundos.
Filmado em um estilo de câmera em movimento e bastante orgânico, o filme é tão frio, silencioso e contundente quanto o modo como Chelsea conduz sua vida. Talvez o excesso de improvisos faça a história parecer um tanto perdida, mas, positivamente, Grey é a estrela e executa seu papel com uma competência pela qual poucos devem ter torcido.
TGfE chega ao Brasil no dia 31 de Julho sob o título de "Confissões de uma Garota de Programa" e é um filme imperdível para quem quer conhecer mais sobre as experimentações de Steven Soderbergh e quer conehcer um pouco mais sobre a atriz pornô que pretende invadir o mainstream. Sem delicadezas, como é de seu feitio.


16 comentários
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HELLCIUS
EU VI O FILME É E MUITO BOM!!! DIFERENTE, E INTERESSANTE!!!
Diego A.
Soderbergh é doido.
(E eu adoro assistir a suas loucuras!)
Tiago
E eu a pensar que era o único surpreso pela positiva por este tão bom filme!!!:)
GONZO
Ver este filme foi como se tivesse falecido uma hora e meia mais cedo do que o previsto. Este filme é o exponencial máximo do tédio.
Este filme é um drama? porque? porque a Chelsie fez sexo com alguem que não tomava banho há 3 dias? Não vejo outra razão para o ser...
Detestei o filme tal como detesto a Sasha Grey. Ela é uma freak cujo os "muitos" fãs que tem são eles também fãs de alt porn. Com o aspecto de tenra idade que ela tem, não me admiro que mais tarde venha se a descobrir que ela fez como Krystal Steal, Traci Lords ou Alexander Quinn.
Mas por menos que goste dela, não posso deixar de admitir que ela é uma das poucas na industria para adultos que consegue representar algo mais do que a Katie Morgan fez em "Zack e Miri fizeram um porno".
Edson
Bem, vamos conferir, mas acho que o tema ficou datado depois da Bruna Surfistinha.
Cesar
Sasha Grey...
celso
nao é mau!
tajana
Ha ha, o pessoal com quem fui ver "A Secretária", do Soderbergh, achou que eu não batia bem por ter sugerido um filme que diziam ser 'sado-masoch' - na verdade, era, e para mim será sempre, uma história de amor. Não achei o filme espantoso, mas gostei precisamente de ele ter filmado uma história de amor com um 'substrato' que a maioria das pessoas acha que transforma tudo simplesmente numa qualquer perversão sexual. Acho que vou ver este, quando chegar a Portugal.
lucjons
ker receber a sua metragem
João
Não falem mal da menina. Ela é uma puta atriz! Ahah! Bom, as atuações dela nos pornôs são interessantes e cheias de energia. Parece que ela não está no ramo para brincadeira, apesar da carinha de menina. Quanto ao filme do Soderbergh, vou procurar na locadora hoje. Como diz o subtítulo, seria bom vê-lo na companhia de alguém que...
Luiz Fernando Santos
Me parece interessante no filme de Soderbergh é o fato de que paralelo à investigação da vida privada da garota em questão, a câmera não nos poupa também de observar a zona de desejo de seus clientes. Não o interesse carnal imediato, libidinoso, motivador dos encontros, mas algo menos óbvio, subjacente nas opções de consumo, de vida, de ostentação dos personagens e do profundo mal-estar que permeia tudo isso.
mark
Se é Soderbergh, vale a pena, se é Sasha Grey, tô dentro.
John Smith
Sasha é uma deusa. E é amiga do Billie Corgan, o Marcelo Tas do Smashing Pumpkings (dá uma googlada q vcs acham muita coisa sobre ela).
Menina inteligente e BAITA atriz.
Procurem a entrevista dela à Rolling Stone.
John Smith
Comercial da Virgin (não é sacangem não... é o selo inglês da gravadora EMI) em que ela atua com o Rob Ralford (Judas Priest):
http://whiplash.net/materias/news_860/112979-robhalford.html
É isso aí! A garota é Heavy Metal!
sidney costa
Faz tempo q não leio resenha sobre filmes com a desenvoltura e "envolvência" como as do seu texto.
Por isso, assisto de tudo, como cinéfilo de 5ª, de "a" a "z" e tiro minhas próprias conclusões. As, se eu tivesse descoberto vc, Priscilla, antes de tantas horas perdidas, em detrimento das poucas ganhas.
Parabéns pela fluência do estilo.
Tornei-me seu fã de carteirinha!
sidney
879
HMM ESTE FILME DEVE SER UMA SECA, HISTORIA SEM LINERIEDADE + TRAILER SEM HISTORIA = N ME APETECE VER. MAS A SACHA É UMA BOMBA
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