Inimigos públicos

Estamos no ápice da Depressão, e os “inimigos públicos”, ladrões de bancos ou de trem, começam a dar lugar ao crime organizado. Ao mesmo tempo, a criação do Bureau de Investigação Federal unifica operações em todo os Estados Unidos. Não é difícil enxergar Inimigos Públicos como a história da gênese dos EUA que conhecemos hoje: um Estado corporativo e policial.


 Inimigos públicos

Melvin Purvis (Christian Bale) havia capturado Pretty Boy Floyd à moda antiga: com um balaço na barriga, depois de rápido duelo a céu aberto. Quando foi chamado por J. Edgar Hoover para ajudar a formar o FBI e prender John Dillinger, porém, Purvis ouviu que teria que adotar outros métodos de ação – os métodos da Era Moderna, nas palavras do chefe.

Esse conceito de era moderna, por mais amplo e genérico que pareça, percorre Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) o tempo inteiro, em dois aspectos principais: um temático, outro técnico.

O primeiro, temático: estamos no ápice da Depressão, e os “inimigos públicos” como Dillinger, ladrões de bancos ou de trem, começam a dar lugar ao crime organizado, como as máfias de apostas. Ao mesmo tempo, a criação do Bureau de Investigação Federal unifica operações em todo os Estados Unidos – e essa rede vasta de informações pressupõe “procedimentos” de interrogatório mais rígidos. Não é difícil enxergar Inimigos Públicos como a história da gênese dos EUA que conhecemos hoje: um Estado corporativo e policial.

Ao mesmo tempo, Inimigos Públicos é moderno em seu registro. Não é de hoje que o diretor Michael Mann abraça a captação digital de alta definição como uma opção estética, mas é a primeira vez que ele conta uma história de época sem usar película. (Ali se passa nos anos 70 e foi rodado parcialmente em digital, mas é um filme solar, não vale.) Inimigos Públicos depende demais das sombras para impor sua atmosfera, e desta vez não há a profusão de luzes de uma metrópole noturna dos anos 2000, como em Miami Vice, para ajudar.

Mann e seu diretor de fotografia, Dante Spinotti, desafiam então a capacidade de exposição de suas câmeras HD em ambientes de baixa luz. O resultado não é granulado nem turvo. Pelo contrário, o efeito expressionista alcançado em algumas cenas beira o maravilhamento: é fantasmagórico nos corredores de hotel onde cresce a silheta do chapéu de Purvis, e é catártico nos tiroteios noturnos. A submetralhadora de Baby Face Nelson descontrolada na cena da cabana, com a luz intermitente de seus disparos, parece um estroboscópio de danceteria.

 Inimigos públicos

Existe aquela coisa do crítico que fica elogiando a fotografia pra não dizer que o filme é uma merda, mas não é o caso aqui. Mann não está tentando fazer o Barry Lyndon dos nossos dias. Seus cacoetes de luz têm uma função narrativa muito bem definida: eliminar tudo o que há de supérfluo nos enquadramentos e isolar o que há de fundamental, ainda que seja apenas um meio sorriso de John Dillinger (em composição certeira de Johnny Depp). Já era assim quando Tom Cruise e Jamie Foxx se viram num duelo por uma Los Angeles deserta, em "Colateral". O duelo aqui só muda de contexto.

Ao final de uma projeção que pode ser insatisfatória para alguns (infelizmente não há nos grandes multiplexes do Brasil projetores digitais com resolução ideal para dar conta dos matizes do filme, ainda), o modernismo de Inimigos Públicos se encerra como qualquer obra moderna que se preze: assimilando o clássico, o passado. John Dillinger está sendo caçado nacionalmente, mas arruma tempo para ir ao cinema, assistir ao crepúsculo dos anti-heróis glamurizados em película daquela época que chegava ao fim.

Por Marcelo Hessel


deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
x1
Site Meter