Inimigos públicos

Publicado em cinema por speculum em 4 ago 2009 | 5 comentários

 Inimigos públicos

Melvin Purvis (Christian Bale) havia capturado Pretty Boy Floyd à moda antiga: com um balaço na barriga, depois de rápido duelo a céu aberto. Quando foi chamado por J. Edgar Hoover para ajudar a formar o FBI e prender John Dillinger, porém, Purvis ouviu que teria que adotar outros métodos de ação – os métodos da Era Moderna, nas palavras do chefe.

Esse conceito de era moderna, por mais amplo e genérico que pareça, percorre Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009) o tempo inteiro, em dois aspectos principais: um temático, outro técnico.

O primeiro, temático: estamos no ápice da Depressão, e os “inimigos públicos” como Dillinger, ladrões de bancos ou de trem, começam a dar lugar ao crime organizado, como as máfias de apostas. Ao mesmo tempo, a criação do Bureau de Investigação Federal unifica operações em todo os Estados Unidos – e essa rede vasta de informações pressupõe “procedimentos” de interrogatório mais rígidos. Não é difícil enxergar Inimigos Públicos como a história da gênese dos EUA que conhecemos hoje: um Estado corporativo e policial.

Ao mesmo tempo, Inimigos Públicos é moderno em seu registro. Não é de hoje que o diretor Michael Mann abraça a captação digital de alta definição como uma opção estética, mas é a primeira vez que ele conta uma história de época sem usar película. (Ali se passa nos anos 70 e foi rodado parcialmente em digital, mas é um filme solar, não vale.) Inimigos Públicos depende demais das sombras para impor sua atmosfera, e desta vez não há a profusão de luzes de uma metrópole noturna dos anos 2000, como em Miami Vice, para ajudar.

Mann e seu diretor de fotografia, Dante Spinotti, desafiam então a capacidade de exposição de suas câmeras HD em ambientes de baixa luz. O resultado não é granulado nem turvo. Pelo contrário, o efeito expressionista alcançado em algumas cenas beira o maravilhamento: é fantasmagórico nos corredores de hotel onde cresce a silheta do chapéu de Purvis, e é catártico nos tiroteios noturnos. A submetralhadora de Baby Face Nelson descontrolada na cena da cabana, com a luz intermitente de seus disparos, parece um estroboscópio de danceteria.

 Inimigos públicos

Existe aquela coisa do crítico que fica elogiando a fotografia pra não dizer que o filme é uma merda, mas não é o caso aqui. Mann não está tentando fazer o Barry Lyndon dos nossos dias. Seus cacoetes de luz têm uma função narrativa muito bem definida: eliminar tudo o que há de supérfluo nos enquadramentos e isolar o que há de fundamental, ainda que seja apenas um meio sorriso de John Dillinger (em composição certeira de Johnny Depp). Já era assim quando Tom Cruise e Jamie Foxx se viram num duelo por uma Los Angeles deserta, em "Colateral". O duelo aqui só muda de contexto.

Ao final de uma projeção que pode ser insatisfatória para alguns (infelizmente não há nos grandes multiplexes do Brasil projetores digitais com resolução ideal para dar conta dos matizes do filme, ainda), o modernismo de Inimigos Públicos se encerra como qualquer obra moderna que se preze: assimilando o clássico, o passado. John Dillinger está sendo caçado nacionalmente, mas arruma tempo para ir ao cinema, assistir ao crepúsculo dos anti-heróis glamurizados em película daquela época que chegava ao fim.

Por Marcelo Hessel

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5 comentários

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Excelente resenha. Eu fui ver o filme depois de ter lido aqui, e não poderia concordar mais.

Ana Paula em 6 de agosto de 2009

Adotei á ídeia!...

AURICELIO em 15 de agosto de 2009

Muito bom filme, nesse ano de Ressecção para mim um dos filmes que vão concorrer ao oscar em pelo menos duas categorias, fotografia e edição de som.
Mas eu acho que oq realmente faz o filme ser empolgante é o jeito desdemindo de John Dillinger, na pele de Johnny Deep.

Sparck em 1 de setembro de 2009

amei esse site ta otimo nota 11 nossa ese filme é muito bom
um show dw espetaculo o som tava uma maravilha e [JOHNNY DEPP] também.

Grazyella em 20 de setembro de 2009

na verdade, o filme não tem nada de modernista, é bem é pós-moderno no sentido que ele pega um estilo e faz uso de suas características mas de uma maneira nova. mann botou para foder nesse filme, onde além de tudo, a mise-en-scène do filme é trabalhada de uma maneira bem diferente do que se vê hoje em dia nos blockbusters normais. longa vida ao cinemão de mann!

andré em 25 de setembro de 2009

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