Philippe Petit e o crime artístico do século XX

Há 25 anos, um equilibrista francês fez um passeio que ficou para a história de Nova Iorque. Philippe Petit caminhou sobre um cabo estendido entre o topo das duas Torres Gémeas. Que nome dar a isto?


 Philippe Petit e o crime artístico do século XX

Quando os nova-iorquinos levantaram o olhar e conseguiram ver lá em cima, a uma altura de 417m, um homem que caminhava por entre a névoa e sobre o vazio, consta que uns o chamaram anjo, e outros, louco. Philippe Petit, o jovem de 24 anos que a 7 de Agosto de 1974 levou a cabo um dos passeios mais arriscados de que há memória, explicou o seu acto de uma forma simples: "Não há um porquê. Quando vejo um sítio bonito para estender a minha corda, não consigo resistir."

Petit, um francês que fazia números de equilibrismo e malabarismo, caminhou sobre um cabo de aço que unia as duas Torres Gémeas de Nova Iorque (em fase final de construção) durante quase uma hora. Sem rede, sem cordão de segurança que o prendesse à vida. De um lado a outro, várias vezes. Sentou-se, deitou-se, saltou sobre o cabo, acenou a quem o olhava lá de baixo - e até falou com pássaros que passavam perto dele.

O golpe, que ficou conhecido como "o crime artístico do século XX", levou seis anos a preparar. Philippe e alguns amigos estudaram o edifício para perceber onde e como poderiam estender o cabo, e quais os problemas com que iriam defrontar-se; afinal, não havia qualquer possibilidade de fazer um ensaio. A oscilação do cabo àquela altitude, devido ao vento, era uma questão fundamental. Petit usou cartões de identificação falsos para, repetidas vezes, poder entrar no edifício e estudá-lo detalhadamente, bem como aos obstáculos de vigilância com que iria deparar-se. Para estender o cabo, decidiu-se pela utilização do antiquíssimo e elegante método do arco com flecha.

Finalmente, na manhã acordada, subiu ao piso 106, estendeu o cabo, pegou na vara de 9m que iria ajudá-lo a equilibrar-se e partiu. Como seria de esperar, os nova-iorquinos e as autoridades aperceberam-se do que se passava - que nome dar àquela coisa que estava ali a acontecer? A polícia veio e esperou (já que não podia ir ter com ele) que Philippe Petit regressasse ao ponto de onde partira. O equilibrista foi preso, julgado e condenado, por fim, a uma pena simbólica: fazer um espectáculo gratuito num jardim, para as crianças da cidade. Afinal, como se podem aplicar as leis do direito a um acto destes? As reportagens da época dão conta do espanto que tomou conta da cidade. Ao ver o vídeo acima, gostei particularmente do assombro e admiração do polícia que assistiu ao "crime", e que diz ter sido o espectáculo mais excitante que poderia ver. E o passeio de Petit teve uma outra consequência na vida da cidade: a de criar um laço afectivo dos habitantes com as torres, até então uma obra polémica e mal amada.

Pode haver anjos loucos? Creio que Philippe provou que sim - ainda que não fizesse talvez mais que dar resposta a um instinto. O seu passeio desenhou no céu de Nova Iorque a linha mais simples e mais terrivelmente bela: aquela que une no mesmo acto, num desejo irrecusável, sem rede, todo o peso da vida, toda a leveza da morte.


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