Beatles: Tudo que você precisa é amor (o dinheiro vem depois)

Neste nove de Setembro, os Beatles voltam à vida. Pela primeira vez, os velhos fãs terão os doze álbuns originais em versão remasterizada, em CD e DVD, repletos de extras, documentários etc. E, pela primeira vez, a nova geração terá os Beatles disponíveis onde interessa, nos videogames. O jogo "The Beatles: Rock Band" vem com 45 músicas para você tocar.


 Reedição dos álbuns dos Beatles

Os Beatles foram a primeira banda que eu amei. Foi em 1975. De lá para cá já gastei muito dinheiro e tempo com eles. É a marca mais valiosa da história do rock. A explicação é que eles tiveram impacto social maior e mais permanente que qualquer outro. Música não foi o ponto. Agora é. Neste nove de Setembro, os Beatles voltam à vida. Pela primeira vez, os velhos fãs terão os doze álbuns originais em versão remasterizada, em CD e DVD, repletos de extras, documentários etc.

E pela primeira vez, a nova geração terá os Beatles disponíveis onde interessa, nos videogames. O jogo The Beatles: Rock Band vem com 45 músicas para você tocar. As outras você comprará, futuramente, direto no site do game. Você toca os instrumentos, canta, faz harmonia, enquanto assiste versões animadas da banda em diferentes fases e cenários.

Vi ao vivo dia 2 de Junho na E3, em Los Angeles, em cabine fechada para a imprensa. Um colega testou com “Here Comes the Sun”. Quase subi e mandei “Taxman”, mas fiquei meio constrangido. Para anunciar a parada, Paul, Ringo, Yoko e Olivia, viúva de George, subiram ao palco da E3.

 Reedição dos álbuns dos Beatles

Giles Martin, filho de George, é o produtor do game. É coisa fina. É surpreendente. Porque a marca Beatles nunca foi bem gerenciada. A Apple Corps, que gerencia os negócios dos Beatles, é uma burocracia sem fim. Nunca atende os fãs. É apavorada com o mundo digital. E não aprova nada que não tenha o OK dos quatro Beatles ou seus herdeiros. A coisa só andou porque Dhani Harrison, fiho de George, é fã de games musicais, e vendeu o peixe para Paul, Ringo e Yoko. Não foi um business deal. Foi família.

Tudo virá embalado em uma megablitz de marketing, naturalmente. O timing é bizarro. Michael Jackson era dono de 50% dos direitos sobre as canções dos Beatles. Comprou porque era ótimo negócio. O negócio lhe valeu a amizade com Paul McCartney. Jackson ia faturar bonito agora. Não deu tempo, porque morreu de overdose. Enquanto isso, da banda que mais promoveu as drogas para o mundo, dois estão contando dinheiro, John morreu baleado e George de câncer.

O grande professor de Michael foi Berry Gordy, fundador da Motown e compositor do primeiro hit da gravadora. “Money (That’s What I Want)” é mais conhecida na versão dos Beatles, de 1963. “Seu amor me dá arrepios / mas não paga minhas contas… o dinheiro não traz tudo / para o que ele não traz, não tenho uso”.

Quatro anos depois, os fab four mudariam o papo para “All You Need is Love”. Que estará entre as primeiras canções disponíveis para download pago no game The Beatles: Rock Band. Com a receita doada para os Médicos Sem Fronteiras. Amor ou dinheiro? A letra de “All You Need is Love” dá a pista: “nothing you can say but you can learn how to play the game – it’s easy”.

Porque o século 21 deixa mais claro que nunca: se você faz com amor, as pessoas percebem. Se faz só pela grana, idem. Eu já tinha aprendido isso com Julius Schwarz.

Julius co-criou o primeiro fanzine do mundo, Time Traveller, em 1932. Foi agente literário de lendas como H.P. Lovecraft e Ray Bradbury. De 1944 a 1986, trabalhou na DC Comics. Foi responsável por sucessivas modernizações do conceito de super-herói nos anos 50, 60, 70, 80.

Vi uma vez de longe em San Diego, 96. Nem fui lá agradecer por tantas memórias boas. Que pateta que eu era. Se os gibis de super-herói têm um pai, mais do que Siegel & Shuster ou Bob Kane ou Stan Lee ou Jack Kirby ou quem você quiser, ele é Julius. Que não escrevia nem desenhava. Era editor. Ele nunca terá sua importância reconhecida. Julie mesmo dizia: “ninguém sabe direito o que faz um editor”.

Sem ele não existiria muito do que você reconhece hoje como cultura pop. E eu seria uma pessoa muito diferente do que sou e não estaria escrevendo isso e você não estaria lendo. Confio muito num lema que Julie revelou em sua autobiografia, Man of Two Worlds:

“Pegue uma coisa que você ama e conte para todo mundo sobre ela. Encontre outras pessoas que tem a mesma paixão, e juntos se dediquem a tornar essa coisa ainda melhor. No final, você vai ter muito mais do que você ama, para você e para poder compartilhar com o mundo.”

All You Need is Love. Pode até te render um dinheirinho, no final…

Por André Forastieri


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