
Entre a carne e o espírito, a tão comedida esposa Severine só encontrava paz nas suas tardes como Belle de Jour. (Catherine Deneuveuve, 1967)
"Uma dama na sociedade, uma puta na cama" é uma frase que deveria se orgulhar de transitar por aí cheia de adesões mesmo sendo tão amoral. Ela consegue reunir num espaço curto litros de devassidão que, misturada a uma discreta malícia cria a espiritualidade ideal para que não seja apedrejada em praça pública. Claro, os protestos teriam sua razão de ser: durante séculos as mulheres tiveram como prioridade serem as esposas ideiais, sempre boazinhas e bem arrumadas, obedientes. Da porta para fora, finas e recatadas, capazes de engrandecer o homem que acompanham, serem bem vistas e publicamente virtuosas.
Quando o século XIX inventou a privacidade, o maior problema de todos era conter os desejos que apareciam agora que cada um tinha seu quarto, agora que os casais descobriam as quatro paredes; mas como a mocinha e depois a mulher poderia dar vazão às vontades e depois comparecer ao chá beneficente no clube de leitura? Sexo devia ser no escuro, limpo, de preferência com um crucifixo na cabeceira da cama para Deus assistir e bater palma: a reprodução estava garantida, a infelicidade íntima também. Mas, ao contrário delas, os maridos não ficavam no redirecionamento das energias para o crochê, o piano, ou os filhos. Eram nos bordéis que tradicionalmente começavam sua vida sexual, e era no bordel que iam fazer tudo o contrário do que recomendavam a igreja e a sociedade organizada.

O jovem aristocrata Armand enfrentaria tudo pelo amor da cobiçada cortesã Marguerite Gautier no romance de Alexandre Dumas. Tornado em ópera, filme e outras tantas adaptações A Dama das Camélias confunde-se com a história do próprio autor. (Greta Garbo em Camille, 1936)
A imaginação que temos dessas valentes profissionais do sexo é sempre alegre: muita música, espartilhos apertadíssimos e cigarros de piteira, todas as polonesas, brasileiras e argentinas - ali, invariavelmente, francesas - são galhofeiras, dispostas a praticamente tudo na cama, na noite, no álcool. Amigas sem frescuras. Mas quem é que vai apresentar a Rose Sofie pra mamãe?
Uma puta na sociedade, uma dama na cama
As mulheres de braços dados exigindo direitos iguais são só uma imagem de jornal frente à revolução mundial provocada por cada uma que desafiou pai, marido, filho e tias recalcadas em prol de um trabalho bem pago, de voto, de minissaia e de orgasmos. Múltiplos, por favor.
Mas a ideia das putas continua fascinando. Aquela coisa mítica de mulheres liberais, libertinas, que enfrentam os perigos mais absurdos, os amores mais platônicos sem deixar o rímel borrado estragar o charme. Qualquer menina que quisesse ser atriz, modelo ou cantora virava puta no disse me disse, era automático; é um gosto de corpo solto no mundo. Como não admirar? A despeito das ombreiras que transformaram mulheres em homens, elas permaneceram sempre na obrigação profissional de serem femininas, da escort mais cara à gordinha da Praça Tiradentes, sedução é pra pagar o almoço.

Gabriela Leite é ex-prostituta da Boca do Lixo em São Paulo, socióloga formada pela USP e idealizadora da potente grife DASPU: "eu não aguentava aquela vidinha de escritório, pegando ônibus..."
Hoje as mulheres percebem que queimar sutiãs não foi sentença de mudança de sexo, nem precisamos ser assexuadas. Uma puta na sociedade, uma dama na cama; ninguém precisa deixar de querer ser mãe, de gostar de cozinhar, de ser desejada. Não é questão de escolha, mas de trânsito, de poder andar e ser o que quiser, quando pintar vontade, quando precisar. Podem fumar e gargalhar alto feito uma pomba gira ou podem presidir reuniões tanto de cúpula quanto de cópula nas dominações e submissões - todas dignas. Aprendemos com as biscates reais e ficcionais, que mulher mesmo é isso, escolher todo dia ser pela ambigüidade.

Irremediavelmente atraída pelas casas de striptease no caminho de casa, a tímida telefonista Brook Busey tornou-se Diablo Cody. A dançarina, escritora e roteirista ganhadora do Oscar, certa vez teve o seio ferido durante um programa.

O Moulin Rouge habita o imaginário como um lugar onde o luxo e a solidão se misturam de modo febril ao can can, às cores, bebidas e cintas-liga.
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comments powered by DisqusThiago S, Rosa
E esta ambiguidade que faz a mulher ser especial.
Aline Barbosa
Senti como se cada linha deste texto fosse um discurso meu. Ele expressa bem a luta das mulheres que ainda são julgadas numa sociedade machista e preconceituosa.
Estou encantada com o que você escreveu, vou recomendar a todas as minhas amigas e aos amigos também, espero que eles entendam mais sobre toda essa temática.
Parabéns! Ficou muito bom
Abraços
Obs: desculpe se falei besteira ou viajei demais.
Rita
Maravilhoso, Priscilla! Só você para escrever assim. Um dos melhores artigos que já li aqui.
Parabéns! Beijos
Cláudio Martins
Seu coração pulsa na ponta dos dedos. Escreve divinamente. Obrigado por nos brindar com seus textos.
Vanda
Texto para ser lido por ambos os sexos e se poder ser por marido e mulher, namorado e namorada... este desenvolvimento de um tema que parece ser eternamente polémica deve ser exposto e reflectido sem tabus, na presença dos geradores do mesmo-os sexos "opostos". É um tema fascinante. Obrigado por o abordar!
claudia Sales
Bem escrito o texto, porém coloca a prostituição como se fosse uma maravilha. Já conversei com várias prostitutas e o universo delas não é nenhum conto de fadas. Como elas mesmo dizem, tem que ter estômago pra aguentar a profissão. A maior parte delas veio do interior e não conseguiu emprego. No desespero acabaram indo para as ruas ou bordéis. Um estudo feito na europa mostra o mesmo problema. Mulheres de países pobres que foram na ilusão de melhorar de vida com promessas de emprego e descobriram a cilada - têm seus documentos e sua liberdade confiscadas por redes de prostituição. Nas próprias palavras delas - vc tem que fingir que não está com nojo do cara que está sem roupa na sua frente. Triste destino, seja em casa ou na rua elas estão simplesmente servindo aos homens. Isso mostra o quanto as mulheres ainda têm que lutar pra ter um espaço digno na sociedade.
Elis
Isso soa como música aos
meus ouvidos!!!
Toda mulher dever ser "a dama"...
Ariane
Caramba!
Cada dia me surpreende mais!Coloquei o sit até nos meus favoritos :) -vou começar a frequentar mais e maaaais vezes!
-gostei muito do post!
Realmente nos mulheres devemos muito as prostitutas porque realmente não vale só queimar sutiã e tals. Durante um tempo fui fascinada pelo feminismo e ainda sou embora haja muitas e muitas feministas que não gostem de prostitutas!
EU AS ADIMIRO MUITO!!! Cara não da para imaginar a vida hoje... Se elas não tivessem tido aquela coragem naquele tempo de lutar contra qualquer um que se opusesse e terem lutado tanto pelo direito da mulher!
Mas as que exercem essa profissão hoje em dia nem sempre todos os casos podem ser vistos com esta beleza toda... E nem sempre antigamente também podia ver com esta beleza toda! Hoje em dia mulheres são usadas. Muitas das vezes não 'viram' prostitutas porque querem como disse a Claudia Sales mesmo! Mas as que vão e fazem o que fazem por vontade própria e não por serem obrigadas, usadas, iludidas ou por falta de condições de uma boa educação e censo... Pode ser visto com toda esta beleza sim!
silvioafonso
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Pois que o toques, se o queres.
Toque o com os lábios, com as
mãos, com teus olhos de miragem.
Toques com teu corpo o meu, se
não te dá medo porque o gozo
não é segredo que se guarde ou
se dê de troco.
Toques a minha pele com a ponta
de tua língua, teu dedo, teu mistério.
Por favor, não me leves a sério,
porque já é tarde, tenho pressa ou
medo desta peleja que lateja por
entre as minhas pernas como seta
de alerta, em riste a tua espera.
silvioafonso.
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Ive Negrini
Teu texto é mais ácido. Melhor. Vou te poupar de 'três pontinhos' já que escreve com exatidão e coerência. Escreve as certezas. Temos em comum um 'querer enforcar mútuo'. Mas você é talentosa e isso eu respeito. Gosto de gente como eu. Mulheres desaprovadas pelo Vaticano. Escreve muito bem e não dança. Mas tem uma pequena caixa de palavras que dão conta dessa 'falha' na tua construção artística. O artigo é ótimo. E esse é um bom entrave entre duas mulheres dignas e de poemas ordinários.
G.Birth
Gosto muito dos seus textos Priscila.Você deve ser uma mulher de se lhe tirar o chapéu.Esclarecida,consciente,frontal,inteligente e um ser humano fantástico.Muitos parabens por
todos os seus surpreendentes textos.Um seu leitor e admirador.Birth
silvioafonso
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Ariane, você ouviu o galo cantas e tem certeza do terreiro em que ele vive.
A mulher revolucionou os tempos, não com a queima do sutiã ou se prostituindo, mas gritando por um direito que era e é seu. Nós, os que paramos para ouvi-las em sua marcha, não fizemos mais do que a nossa obrigação e só ganhamos com isto, haja vista que a vida nas mãos destas pessoas ficou melhor e mais bonita.
Foi ótimo deixar que neste armário onde só os paletós e gravatas se amontoavam, as calcinhas surgissem como hífen e não como hiato.
Um beijo a todas as mulheres que somam todos os credos, todos as raças e todos os níveis intelectuais e sociais.
silvioafonso.
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Lu Monte
Cheguei por causa da brincadeira #biscatecamp no twitter e não sabia o que ia encontrar. Fui presenteada com esse texto lindo, um dos mais interessantes que já li sobre a mulher. Parabéns pelo ótimo poder de síntese (são tantas ideias que esse post renderia, facilmente, uma meia dúzia de outros) e obrigada por essa visão maravilhosa do que é ser mulher.
priscilla
Vinte mil vezes obrigada por todos os comentários!
Fiquei tão impressionada com a repercussão, os rumos e os debates pra onde o texto me levou (e mais um bocado de gente) que estou sem saber o que dizer.
Primeiro, me perdoem a demora em responder, a vida anda complicada por aqui (não aguento mais essa vidinha de ônibus hahaha) e, por conta disso, tem ficado complicado de dar um feedback decente.
Mas cá estou, vamos ver...
Obrigada pelos elogios ao texto. Comecei a escrever como um exercício, uma carta de intenções do Biscatecamp (esse mesmo que a Lu Monte disse aí em cima, que bueno que chegou por causa disso!). Mas percebi que ia ser legal repartir aqui no Obvious, mantendo a linguagem bizarra dele. Aí deu no que deu.
Achei que fossem me tacar pedra, sem brincadeira. Não pelo conteúdo, mas por algum roblema de comunicação sobre o próprio assunto. É complicado aparecer por aqui com a palavra "puta" em baixo do braço, não queria colocar a ideia a perder. Deu certo, uma surpresa. A receptividade de vocês me abriu um caminho novo no modo de escrever pra cá ou pra qualquer outro lugar. Me senti livre como há muito tempo não acontecia.
As pessoas são qualquer coisa. Como colocar limites? Como prever comportamentos? Como exigir uma linha reta? Com as mulheres a coisa é ainda mais complicada; os hormônios nos jogam pra tantos lugares, e todo histórico cultural é tão confuso que o resultado não podia ser muito diferente: caos maciço. Penso que só agora as mulheres conseguem aceitar melhor que oscilam e que não temos uma bandeira definida. Ou melhor, a única que me parece boa de ser defendida é a de livre acesso à quaisquer áreas da vida social, sendo respeitada pelo valor que agrega em cada uma delas.
Os homens héteros, os homens gays, as lésbicas, todos lucram. Cada gênero interfere no outro, quero dizer, o outro, o diferente, nos ajuda a entender melhor quem somos. A multiplicidade da mulher impõe conflitos fantásticos. Amadurecemos, aproveitamos e desejamos melhor.
Outro post? rs Fico por aqui muito feliz com as provocações e as comunicações. Vamos continuar trocando ideias. Um chá, um café. Fiquem a vontade pra emails priscilla.uerj@gmail.com.
Agradecimentos imensos
Prill
silvioafonso
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Prill, é um privilégio saber-me entre os
que receberam o carinho da sua atenção.
silvioafonso.
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oriane
Adorei o q escreveu,
vivi uma situação d libertação q me rendeu
alguns escritos...
de uma olhada caso tenha tempo...
www.projecaodemim.blogspot.com
abraços
Ana Paula Silva
Priscilla,
é muito bom ver gente inteligente postando coisas interessantes na internet. Eu respeito muito as prostitutas pois a vida delas não tem nada de fácil. E quem as apedreja é porque tem inveja de sua liberdade : elas são livres do que irão dizer ou pensar delas , não se prendem às convenções idiotas de gente que não paga as contas delas para se incomodar como que elas fazem. E além do mais a verdadeira prostituta é aquela que casa por interesse ou então dá o velho golpe da bariga - que pra mim é prostituição infantil ! Estas sim nos envergonham e muito !
G.Birth
Continua dando no vinte Priscilla e o prazer é todo nosso. Os seus comentários às nossas escrevinhações só reforçam o que pensamos sobre a clareza e frontalidade com que aborda os temas.Continue que eu espero.Obrigado.G.Birth
PS:parabens igualmente ao poeta Silvio Afonso.
silvioafonso
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G.Birth, quanto orgulho eu tenho em poder
amontoar as minhas letras no mesmo espaço
onde você debruça os seus conhecimentos.
Obrigado,
silvioafonso.
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Francisco J.B.Sá
Não gosto de falar só da mulher e de sua beleza,que é uma Criação Máxima da Natureza!
Gosto de flar do Amor do Homem e da Mulher,onde o nosso Universo se complementa e se expande até as Estrelas.
Vá adiante!
Silvioafonso
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Alguém disse nesta coluna que a ambiguidade
é o que faz a mulher especial. Eu concordo e
não concordo, uma vez que qualquer coisa ou
coisa alguma poderia mudá-la; o serpentear de
suas curvas, a inteligência, de uma forma ou
de outra, comprovada. Inclusive esse poder
de sedução é fora do que possamos imaginar.
Não há uma determinada razão para fazê-la
especial, pois todas as razões, são razão.
silvioafonso.
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Ulisses
Ambiguidade? Isso não tem importância nenhuma... Mulher não precisa ser analisada, mas, sim amada vorazmente com intensidade dos desejos primitivos... Mas, quem quiser se aventurar a ficar analisando as mulheres, com certeza tem um perfil de psicólogo, o meu perfil é muito simples: Macho que adora e ama as mulheres!!!!
Ronaldo José
Menina, gosto do seu jeito de escrever, és muito talentosa, direta e dimámica. Parabéns pelo artigo.
"BEIJOS NO SEU CORAÇÃO"
Silvioafonso
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A moça tem 21 órgãos, fora o perfil que
tira o fôlego e alucina, mas você beija o
coração. Seria opção pelo mau gosto ou
a fruta não tem o gosto que você gosta?
Desculpe a brincadeira, é só para saber
se o amigo é frequentador deste point ou
esteve, só, de passagem...
silvioafonso.
http://palhacopoeta.blogspot.com
.
G.Birth
Continuo seguindo com interesse óbvio, todos os
comentários (quase todos com sentido)mas não tenho qualquer dúvida sobre a capacidade de
quem os escreve, mas perdoem-me os demais,
o nosso caro amigo Silvio Afonso é por demais
evidente que fez das palavras a sua ferramenta
de trabalho.Ainda bem para que alguem como eu
continue a aprender o sentido da vida e a guardar os ensinamentos de quem sabe.Mesmo
com algumas soezes e despropositadas piadas de quem sómente do vazio se enche.Obrigado a
todos e continuarei sem qualquer dúvida a seguir
as V/postagens e comentários.Pronunciar-me-ei
só quando a minha opinião possa ajudar a esclarecer ou a clarificar alguns artigos mais controversos.Um abraço Gbirth
Monica
Deixei um comentário para este post e não saiu até agora...foi censurado??? rs...
silvioafonso
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G.Birth, você tem o dom da palavra como os
que impõem do alto de suas cátedras os seus
ensinamentos. Só por isso eu me vejo seu
aluno e admirador.
http://palhacopoeta.blogspot.com
.
eduzal
todos amamos, queremos ter nossa própria afrodite
moema
amei o artigo - nenhuma bajulação à prostituição, mas sim ao que simboliza - ou ao que literalmente siginifica: LIBERDADE!!!!
como mulher...em busca eterna por essa liberdade, há cada dia mais próxima..há cada dia mais distante...obrigada Priscila!
e Silvio...amo suas letras!!!!
Luiz Augusto A. Mesquita
"Madame Bovary sou eu",responde flaubert.Como Emma, ele sonhava com amores irreais e ansiava por uma existência mais plena..( O AUTOR E SUA OBRA)
obs: Tambem sou adorador de muitas ''cervejotas''.
Muito bos todas suas postagens.
Um Abraço.
Luiz Augusto.