Melody ´Jazz´ Gardot

Diz a lenda que Melody Gardot foi atropelada enquanto andava de bicicleta, em 2003, acidente que fez dela um quase vegetal. Terapia: música. Para ela, para nós.



 Melody

Confesso o meu preconceito em relação às cantoras de jazz mais jovens. Quando comecei a ouvir jazz gostava de tudo o que se fizesse acompanhar por um saxofone ou um contrabaixo afinadinhos. Depois a minha descoberta subiu em direcção ao início do século XX, as senhoras convergiram e começaram a tomar conta de mim. Ouvir jazz é uma aprendizagem de liberdade.

Não sei ao certo quando é que a minha escolha de vozes começou a afunilar e, sem contradição, a minha liberdade foi crescendo. Aconteceu à medida que fui ouvindo mais discos. O que também parece contraditório: como é que o aumento das possibilidades faz escolher cada vez mais e cada vez menos? Diana Krall foi a primeira que deixei de conseguir ouvir. Lisa Ekdahl é engraçada, mas consigo passar um ano sem me lembrar que existe. Da Norah Jones só me lembro quando o nome se atravessa nos resultados relacionados das pesquisas que faço sobre as outras. Madeleine Peyroux, Lyambiko e Cassandra Wilson são as que mais regressam ao som dos meus dias.

Ah, mas acabo por ouvir tudo (obrigada, gerentes de supermercado e DJs de elevador). Até a Krall, sem urticária. Mas ouvi-la, a ela ou a um dos outros ódiozinhos ou indiferenças célebres, acaba sempre de forma abrupta: eu, com a sensação de ter ido procurar a minha casa na rua errada, uma rua parecida, com casas parecidas, mas errada, a pôr a tocar um disco da Ella Fitzgerald ou da Sarah Vaughan assim que posso - e a ouvi-lo morta de fome. Como se antes me tivessem dado a comer morangos que, não obstante a cor e a promessa de sumo, eram, afinal, frutas de plástico para decorar cozinhas.

Melody Gardot é interessante por ter 24 anos, três anos de carreira, uma voz bonita e dois discos e meio que consigo ouvir seguidos, repetidos, sem me lembrar de outros discos nem de outras vozes.



São Reino

é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas.
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