obvious

Melody ´Jazz´ Gardot

publicado em musica por | 17 comentários

Diz a lenda que Melody Gardot foi atropelada enquanto andava de bicicleta, em 2003, acidente que fez dela um quase vegetal. Terapia: música. Para ela, para nós.

 Melody

Confesso o meu preconceito em relação às cantoras de jazz mais jovens. Quando comecei a ouvir jazz gostava de tudo o que se fizesse acompanhar por um saxofone ou um contrabaixo afinadinhos. Depois a minha descoberta subiu em direcção ao início do século XX, as senhoras convergiram e começaram a tomar conta de mim. Ouvir jazz é uma aprendizagem de liberdade.

Não sei ao certo quando é que a minha escolha de vozes começou a afunilar e, sem contradição, a minha liberdade foi crescendo. Aconteceu à medida que fui ouvindo mais discos. O que também parece contraditório: como é que o aumento das possibilidades faz escolher cada vez mais e cada vez menos? Diana Krall foi a primeira que deixei de conseguir ouvir. Lisa Ekdahl é engraçada, mas consigo passar um ano sem me lembrar que existe. Da Norah Jones só me lembro quando o nome se atravessa nos resultados relacionados das pesquisas que faço sobre as outras. Madeleine Peyroux, Lyambiko e Cassandra Wilson são as que mais regressam ao som dos meus dias.

Ah, mas acabo por ouvir tudo (obrigada, gerentes de supermercado e DJs de elevador). Até a Krall, sem urticária. Mas ouvi-la, a ela ou a um dos outros ódiozinhos ou indiferenças célebres, acaba sempre de forma abrupta: eu, com a sensação de ter ido procurar a minha casa na rua errada, uma rua parecida, com casas parecidas, mas errada, a pôr a tocar um disco da Ella Fitzgerald ou da Sarah Vaughan assim que posso - e a ouvi-lo morta de fome. Como se antes me tivessem dado a comer morangos que, não obstante a cor e a promessa de sumo, eram, afinal, frutas de plástico para decorar cozinhas.

Melody Gardot é interessante por ter 24 anos, três anos de carreira, uma voz bonita e dois discos e meio que consigo ouvir seguidos, repetidos, sem me lembrar de outros discos nem de outras vozes.

 

São Reino é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Saiba como fazer parte da obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião da obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus

Ricardo

A musicalidade de Melody Gardot é uma coisa que encanta...

Shisuii

Ana Paula

Não conhecia, vou procurar ouvir. Das antigas, além da Ella, imbatível, eu amo a Billie Holliday e a Dinah Washington. Gosto muito também de ouvir a Doris Day, confesso que gosto mais dela cantando do que atuando.
Das contemporâneas, eu recomendo com muita força a Nana Mouskouri, ela é cantora lírica também, uma voz cristalina, redondinha, suave e potente ao mesmo tempo. Tenta o cd "Nana Swings".

Em tempo: eu amo esse blog, é dos meus favoritos sempre!

Marina

Fico pensando em ouvir JAZZ em LP, deve ser FABULOSO. amo Ella, Louis, Billie Holliday entre outras das antigas.. A experiencia auditiva faz com que escutemos menos.. vc tem toda razão. Adorei a materia. ficou muito boaaa

Luisana

Sempre achei a Diana Krall muito fria, não tem alma mesmo e é assim com muitas cantoras modernas de jazz. mas gostei dessa

Felipe José Cruz

Ela é paraplégica?

empilhadeira

Tambei sempre achei a Diana Krall muito fria,

Ana

Dayana

Excelente

Luciane

Fiquei curiosa depois de ler este post, daí baixei, à esmo, o "My One and Only Thrill". Já ouvi umas três vezes. Ela tem uma voz deliciosíssima, as melodias dão água na boca e as letras são liiiiiindas! Baixem (ou comprem rss) porque ela é boa mesmo!

anderson

muito bom o artigo

Natalina

Tem uma voz esquisita

Benedito de Almeida Petrocoquínio

Ela sabe cozinhar?

sao

Obrigada Ricardo, Dayana, Anderson :)

Ana Paula: também gosto de Billie, Dinah e Doris :)) E há pouco tempo, um amigo mostrou-me Helen Humes, da geração de Ella, muito interessante Helen Humes.

Marina: Jazz e Tom Waits. Ando muito tentada com o vinil.

Ana e Luisana: A Krall não é má de todo. Toca bem, escolhe bem os temas e tem uma voz bonitinha. Mas outras cantam e tocam melhor e a Krall não sobrevive à comparação. Esse foi o principal problema dela para mim.

Felipe e Benedito: Acho que a único problema provocado pelo atropelamento que Melody ainda tem é alguma falta de vista.

Luciane: Ainda bem que gostaste ;) Medoly Gardot já está na minha lista de presentes de Natal. Vou oferecer pelo menos um disco dela.

Natalina: Também me soa assim. E não linear, não óbvia. Gosto muito da dicção dela, também :)

Ferolla

muito, muito melhor foi seu texto, São.
não sei se semeou fácil, mas germinou bonito.

Camila Haase

Gostei da frase "Ouvir jazz é uma aprendizagem de liberdade", pois assim o é de facto. Nada melhor que o jazz para descobrir o mundo da musicalidade e a musicalidade do mundo :)

Conheci a Melanie Gardot aqui e fiquei fã.
Já comprei um CD dela que tenho ouvido assiduamente.
Agradeço ao Obvious pela descoberta.

sao

Ferolla: muito obrigada :) que elogio tão bonito :)
Camila: agora fiquei na dúvida se essa frase era do fim do primeiro parágrafo ou do princípio do segundo. o sentido será sempre esse, de qualquer forma. Até as orquestras clássicas, a afinar, soam a liberdade no início dos concertos.
Eugen: que bom! Gosto muito de pegar vícios :)

Kadija

Comprei o cd de Melody, ouvi, e fiz um esforço muito grande pra gostar. Acabei gostando de alguma coisa, mas ela não empolga, a música é muito linear, não achei nada muito sublime não.
Acho Diana uma grande musicista, mas a impressão é que ela popularizou demais o jazz e jazzificou demais o pop. Será que é isso?

Site Meter site statistics