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Zeca Afonso: música e pátria

publicado em musica por | 27 comentários

O afecto que nos liga à música de intervenção em portugal parece-se com o afecto que nos liga à nossa família: fundamental, antigo, enraizado, de explicação quase impossível, é nele que nos nascem todas as forças.

 Zeca Afonso: música e pátria

Aprendi português na escola, mas a intimidade começou a forjar-se antes, nos discos de José Afonso. E nos de José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho, Chico Buarque. Mas primeiro, antes de eu saber dizer os nomes e distinguir uns dos outros, música em português era Zeca.

Eu era muito criança e não tinha aquela profundidade toda, nem noções de tragédia ou de glória, nem uma ligação relevante à memória do meu país. A revolução, o mundo e eu a começar éramos uma e a mesma coisa. O Alentejo largo, tórrido ou gelado consoante os meses, os vários cheiros da terra, a alegria com que todas as pessoas à minha volta recomeçavam nos dias novos, limpos do cheiro a mofo do salazarismo e, no Verão, as canções e as guitarras, o mar, a minha mãe.

 Zeca Afonso: música e pátria
(recorte de foto da www.aja.pt)

Em casa havia música e os despertadores de fim-de-semana eram os discos do Zeca, que nos arrancavam ao sono a partir da sala. Outras vezes, noite avançada, eu adormecia nos concertos, que naquela época eram também um pouco comícios.

A música ouvia-a com os dias, nos dias. As letras animavam-me ou entristeciam-me, punham-me a dançar, a pensar e a fazer perguntas. Nas respostas vinham outras perguntas, histórias do meu país e mais música, tudo em peças para montar, mais ou menos como nos legos, que eu ia fazendo enquanto ouvia as canções.

Os anos passaram, a música foi fazendo sentido. Quando fiz dez anos, passei a poder a usar o gira-discos da sala das refeições, tecnologia intermédia entre o gira-discos de malinha do meu quarto, quase um brinquedo, e a aparelhagem a sério da sala de estar. Com essa permissão, veio o acesso aos discos dos meus pais.

 Zeca Afonso: música e pátria
(recorte de foto da www.aja.pt)

Foi então que descobri Zeca Afonso por minha iniciativa, sozinha, consciente. Durante os meses do Outono, quando não tinha aulas à tarde, punha um disco a tocar, sentava-me à mesa com o álbum aberto e um dicionário. Ali estava a primeira música que tinha conhecido e eu capaz de perceber e de me entusiasmar. Os dias escureciam, as palavras abriam-se, o mundo crescia, e eu não queria ter outro país, nunca mais quis.

A variedade da música, no tempo que veio depois, tem servido para perceber o quanto a música de Zeca é, antes dos poemas sem medo que encheram os portugueses de coragem e esperança, música grande, da melhor que posso ouvir em qualquer lugar do mundo. Continuo a ouvi-lo porque não saberia deixar de o fazer e continuo a ouvi-lo porque tudo o que peço à música está em Zeca. E às vezes regresso intensamente para o redescobrir. Zeca é a fonte essencial do meu ânimo, a água mais pura que conheço. Quando os meus regressos à sua música e aos seus poemas terminam, percebo que estou afinada, reequilibrada, outra vez no lugar, que já não me vou perder durante algum tempo. O meu país é esta música.

sao
Sobre a autora: São Reino é uma colaboradora multifacetada do obvious, verdadeira malabarista que tanto escreve sobre arte como aparos de canetas. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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Mosquinha

Lindo Lindo Lindo! O Zeca... e este texto.
Obrigada!

Madalena

Magnífico. Muito sentido. Gostei muito

BetoNogueira

Zeca Afonso merece inteiramente este seu belo tributo.

Isabel Barroso

Olá
Desde sempre fui fã incondicional do Zeca,sou pintora e pintei-o nas m telas.... adorava partilhar algumas com vcs.... pode ser?

Obg
Isabel

Ana Barroco

Zeca Afonso ....ADORO!! The Best!

Inês Paes

...dos que são eternos...

Maria Do Carmo Pinto

Todos eles, grandes nomes da música, que se manterão, sempre, na nossa memória!

Imelda Borges

Cantei-o muita vez no Arca d'Água, no Ferro Velho, no Badanaite , e por aí....Agora canto-o para alimentar a minha alma ....(^.^)

Dani Mendes

Luis Calvario

Não gosto!!! E também não gosto dos demais que estão mencionados.

Jó Martins

"O que faz falta é agitar a malta!" Gosto particularmente deste tema de Zeca Afonso.

Verónica Lopes

Gosto de todas as musicas de Zeca Afonso...marcam um tempo da nossa historia muito importante e cada letra tem uma carga simbolica muito grande.....Grande escritor e compositor.

Graça Monteiro

NOSTALGIA ouvi pela primeira vez o Zeca às escondidas nas passadas altas horas da noite ( 23 horas mais ou menos) "naquela altura" a da censura

ULISSES

Simplesmente.... EXCELENTE!!!!!!

Pierre

Quel beau texte.
« O meu país é esta música. »
Un de mes pays, sûrement.

teresinha brandão

Ah, estava sentindo falta do Zeca Afonso aqui!
São lindas as canções!!!!
Gratíssima!
Teresinha Brandão

jose reis

viva o 25 de Abril

Luís Calado

grande homem Jóse Afonço mais conhecido por jeca afonco poeta e cantor o pintor morreu.

josé reis

zeca é o Maior viva quem sabe falar

osmar

Valeu a pena conhecer esse Zeca Afonso, ainda mais escrito de forma tão poética; adorei o texto e a música aqui apresentada, muito obrigado pela oportunidade. Sou brasileiro e reconheço a glória de ter sido presenteado com o idioma que falo e escrevo, a riquíssima língua portuguesa. E como música e poética possuem uma ligação mais-que-perfeita, não posso deixar de fazer aqui um breve comentário para com o nosso Chico Buarque de Holanda, na minha opinião, o maior compositor/poeta da música brasileira. Chico está para a brasilidade; em suas canções, ele consegue refletir maravilhosamente o Brasil, seu povo, sua cultura, o amor, o prazer, a dor de corno, o homem e a mulher em sua plenitude ou decadência - é um mago, um artífice, um alquimista das palavras aliadas à melodia. Chico é o anti-heroi do "estar tudo certinho, dentro dos moldes sociais", pois consegue arrancar um suspiro de paixão ou de excitação quando se tem o prazer de ouvir suas músicas; Chico é um brasileiro imortalizado e um verdadeiro cidadão do mundo à serviço da arte... Viva Chico! E viva a língua portuguesa! Muito obrigado e Um forte abraço a todos.

sao

Obrigada a todos e mil perdões pela demora: achei que já tinha passado por aqui.
Osmar:
Chico é elementar :) Ouço-o há tanto tempo quanto os outros e nos últimos anos leio-o também com muito gosto.
O meu avô viveu no Brasil, parte substancial/crescente da minha família ainda vive, por isso, quando eu era criança, no egocentrismo da infância, achava que Chico era uma ponte, que existia para eu me lembrar do sotaque dos meus primos. E canções como "Tanto mar" era absolutamente pessoais, qual Chico a cantar para Portugal, qual quê, aquilo eram cartas musicadas da minha família para nós :D Demorei a perceber que Chico era do resto do mundo :D :))

bart

para quem nao conheca, recomendo "maria faia", podem facilmente encontrar no youtube.
sim, este zeca tambem fez parte da minha infancia. fi uma vez de portugal ate franca de carro com o meu pai. a cassete encravou assim que so tinhamos "eu vou ser como a toupeira" (outra recomendacao) pra ouvir.
Acho que ja ha poucos a cantar com este tipo de profundidade.
um abraco.

sao

bart :)
muito bonitas as canções que recomendas.
"eu vou ser como a toupeira" lembra-me "o avô cavernoso", uma das minhas preferidas.
saudações
sao

José Augusto Matos


O ZECA era um dos maiores e a sua obra nunca irá morrer

Efigênia Mônica

São,
Muitíssimo obrigado por apresentar à outros falantes de português tal arte. Parece-me que a nossa língua não nasceu para o falar do dia a dia, mas para florear tantas canções. Se é em português não interessa a prosódia do falante ele estará sempre a entoar canções a perenizar esta entoação.

Isabel

O meu país também é esta música! Obrigada pelo belíssimo texto!

Isabel, algures na Alemanha

Jorge Pereira Gonçalves

Quando analisamos a sua força criadora é difícil distinguir seja o que for da sua obra...
Sou detentor praticamente da sua obra integral e cada palavra assenta que nem "uma luva" no destino para que foi criada...
Depois, o Zeca só poderia ser português, no seu sentir, na sua postura...lembro-o nas tascas da Fuzeta, integrado no ambiente que era o seu, que até poderia passar pelo Escandinávia Bar, num qualquer comboio descendente,que transportásse os índios da meia praia...
Não se podem moldar as forças da Natureza! Viva o Zeca!!!

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