Acerca das asas dos anjos

Depois de anos a ver anjos de asas brancas nos quadros dos museus, descobri que andava a ver mal. Felizmente, os pintores do gótico e do renascimento tinham mais imaginação do que isso.



 De que cor são as asas dos anjos? Fra Angelico, Anunciação (Convento de S. Marco, Florença)

Nunca tive dúvidas de que as asas dos anjos eram brancas até ver uma certa pintura - uma Anunciação de Fra Angelico (1395–1455)), no convento de S. Marco, em Florença. Uma imagem (um fresco) delicada, luminosa, com aquelas cores medievais que parecem todas saídas da terra - rosas e azuis como só nas flores, castanhos e amarelos ainda húmidos. O anjo que dá a notícia a Maria, à esquerda, tem um par de asas enormes e - reparei então - coloridas. E desde quando são as asas dos anjos coloridas?

Uma investigação sem grande rigor traz-me as seguintes informações: que os anjos só começaram a ser representados com asas a partir do século V. E, a partir desse momento, passaram a ter asas (por vezes, mais do que um par), de tamanhos e cores variadas, imagino que de acordo com a sua hierarquia.

De onde veio, então, a minha cegueira durante todos estes anos em que só vi asas brancas? Imagino que da profusão de anjinhos queridos e rechonchudos, herdeiros dos Cupidos clássicos, todos eles em rosa e azul - e branco, nas asas - que depois foram dourados nos altares barrocos e nas decorações de gesso pintado das casas das nossas tias beatas. Anjinhos que sempre me pareceram ter ar de miúdos mimados e caprichosos: impossível imaginá-los nessa missão ilustre de dar a Maria a boa nova do nascimento de Cristo.

 De que cor são as asas dos anjos? Lorenzo Monaco, Anunciação Bartolini Salimbeni, Florença

E voltando a olhar estas pinturas do gótico e do Renascimento, vejo agora tudo o que andei a perder. Os pintores que coloriram as asas dos anjos parecem ter tido o mesmo prazer e empenho no detalhe rico das asas que tiveram nos padrões finíssimos das roupas, dos mosaicos, dos tapetes, ou da linha perfeita das flores campestres (da minha alegria dos padrões já falei aqui há tempos).

Tentei ainda perceber se estes anjos eram modelo exclusivo dos pintores florentinos, mas não. Pelas imagens que vi, Van Eyck também os tem, e Dürer, e Lorenzo Lotto, e Veronese. O branco aparece de quando em vez, ou um acastanhado que não se percebe se é cor ou sombra. Ao que parece, em sítio nenhum da Bíblia está escrito de que cor são as asas dos anjos - e ainda bem.

As de Fra Angelico, pela dimensão e pela delicadeza, são as mais imponentes que vi. Mas também Lorenzo Monaco (na segunda imagem), um pintor da transição do gótico para o Renascimento, escolheu os mesmos azuis e rosas para criar estes mantos celestes.

Ana Gomes

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