Brendan Tang, globalização em vasos de cerâmica

A vida contemporânea está cheia de contradições que nem a mais abrangente das globalizações pode atenuar eficazmente. Elitismo, acessibilidade. Tolerância, indiferença. Multiculturalidade, uniformidade. Brendan Tang tentou transpor esta realidade para vasos de cerâmica criando peças diversas, coloridas e, por vezes, bizarras.


 Brendan Tang, globalização em vasos de cerâmica

A condição humana deveria ser aquilo que nos define, a nossa singularidade única, aquilo que nos identifica em última instância. No entanto, a nossa unidade está no plural: o ser humano é uma amálgama de emoções, pensamentos, culturas e religiões e foi na tentativa nada fácil de expressar esta ideia que o artista Brendan Lee Satish Tang desenvolveu o seu trabalho.

Ceramista com um variado percurso académico, dificilmente se poderia ter encontrado uma pessoa mais apropriada para esta ideia de globalização, multiculturalidade, aldeia global, amálgama, ou como lhe queiram chamar. Nasceu irlandês, naturalizou-se canadiano, país onde vive, trabalha e expõe, mas os seus pais são de Trinidad, uma ilha no mar das Caraíbas. A sua actividade profissional já o levou também a locais distantes, como o Japão e a Índia.

 Brendan Tang, globalização em vasos de cerâmica

Nos seus trabalhos, Tang exprime essa diversidade inalienável da sua identidade e as series Manga Ormolu são um exemplo disso mesmo. Convergência e clivagem são faces da mesma moeda nesta era de globalização em que, ao mesmo tempo que pensamos em uniformidade e tolerância, pomos de lado os "outros", aqueles que não cumprem com as nossas normas sociais, ou aqueles que simplesmente não compreendemos.

Traduzindo isto para argila, as peças de Tang associam o antigo ao moderno de forma muitas vezes desregrada e parecendo disforme. Usando a tradição cerâmica, os modelos dos vasos chineses da dinastia Ming juntam-se à arte pop ligada à tecnologia. Cores divergentes e formas contraditórias unidas no barro que, segundo o artista, devido à sua maleabilidade é um material ideal para transmitir a ideia de instabilidade do ser humano, mas também a aspiração transcendente transversal a todos nós.

O projecto tem também influências dos vasos franceses ormulu do século XVIII, bastante ornamentados e criados para satisfazer as necessidades dos aristocratas. O nome advém também da animação japonesa (anime e manga), pervertendo o elitismo inicial com a acessibilidade da cultura popular. Através do conteúdo, da forma e do material, as series Manga Ormolu demonstram as forças conflituosas e complementares que moldam as percepções do "nós" e dos "outros".

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Diana Caldeira Guerra

A Diana gosta de caracóis temperados no verão, canja de galinha no inverno e autores clássicos em todas as estações do ano
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