
Há nomes que marcam toda uma cena underground. Nomes que se destacam em cada movimento cultural e que se tornam quase pequenos mitos urbanos, que, na verdade, são bem reais e até fazem digressões pelo país. Ou simplesmente nomes que são pequenos segredos que, ora queremos guardar só para nós mesmos, ou queremos partilhá-los e mostrá-los a quem nos queira ouvir. João Negreiros é um destes casos.
Este poeta de 33 anos natural de Matosinhos, Portugal, prima pela poesia e pelo teatro vanguardista, tendo já recebido 5 prémios este ano - dois dos quais no Brasil. Está a tornar-se um marco no dinamismo cultural nortenho, levando a cabo diversas acções itinerantes: em Setembro passado os seus textos estiveram em digressão por todo o país, levando a poesia de norte a sul pelas vozes de cinco mulheres e tornando-a mais acessível. O projecto chamava-se Inspiração é Respirar.
Escrevendo desde os 16 anos, o percurso de Negreiros é muito mais do que isso. Além dos livros de poesia editados em Portugal - e brevemente no Brasil - pertence à companhia de teatro re...petição, onde chega a interpretar 30 personagens em apenas uma peça. Paralelamente, produz o programa de rádio Sentido de Amor para cerca de 20 rádios. Em Setembro as suas palavras foram lidas por centenas de pessoas nos autocarros dos transportes urbanos de Braga, havendo poemas afixados nas janelas pela acção Grandes Poemas para Viagens Pequenas.
O seu trabalho mais famoso está, no entanto, no seu blog pessoal. Declamando os seus próprios textos, estes atingem uma profundidade e autenticidade alarmante, como no vídeo "ontem estive no inferno". O pessimismo e o despojo tocam-nos pela veracidade e brutalidade dos textos. Não existem mais palavras para descrever as palavras de Negreiros. É necessário ver os vídeos e sentir a alma do poeta.
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comments powered by DisqusSara Costa
Escritor e encenador soberbo! No norte de Portugal ou em qualquer parte do mundo. Excelente post. :)
Gladstone Barreto
ontem estive no inferno
Eh...Eh..Azar o seu eu estou no céu!!!!
joao
vejam "a verdade que aprendemos a mentir" no fim do video. preferi
Ignez Mendonça Batista
Gosto requintado e moderno. Apreciei principalmente a série sobre os Beatles, com comentários que fogem ao lugar comum.
Ignez Mendonça Batista.
Ana
Muito fresco e com muita força
Edson Garcia
Vivam os novos poetas!
Fátima
muito bom, adorei as suas palavras
Gabrielle
lindo! sensibilidade pura.
ótima descoberta :)
hn
porra! que intensidade! que descoberta de ti! dramatização esplêndida. texto infernalmente belo. vou seguir-te...
diana
o vídeo ou a interpretação do autor no vídeo arrefece as palavras.
é o que nestes casos julgo que é preferível os versos sobre o papel, sem som nem cara. quando se lê para dentro arranca-se aquela voz dos filmes, profunda e grave.
deste achei mau.
Marcelo Ulguim
João Negreiros é realmente um artista e uma inspiração para um aspirante escritor como eu. Bárbaro o vídeo de -ontem estive no inferno- e muito lindo e profundo o poema premiado -o Outono visto pela janela-.
Sou fã desse cara!
Lubaptista
Eu sou fã à mais tempo do que você!!!! Ehhhhhhh
Mário Marques
Soube ontem pela minha amiga de quarenta e tal anos, Guida Negreiros, notícias do filho João. Vim ao sítio da poesia, não porque tivésse dúvidas acerca do que "a mãe me disse", mas porque foi discreta no que obviamente com orgulho me transmitiu. Confesso que não pensava que o João estivésse neste patamar. Fico feliz, até porque filho da Guida e do Zé Negreiros tinha tudo ou quase tudo para se destacar.
Claro que vou procurar os livros já editados.
Marta
Eu já estive no inferno. Muitas e muitas vezes. Mas não há como descrevê-lo, pois é só sentimento. E ninguém além de nós pode sentir o que sentimos. O inferno pertence apenas a nós mesmos que estivemos lá.
Danilo Borges
Destino in-manifesto
ao joão e poetas todos
eu sou aquele que tenho de ser assim
repara que amassei o verbo num presente egoísta e sem distância
dentro dos muros dessa minha imprudência de se mostrar tão que
os meus suspiros guardo-os em um poço de apuros
dos que ainda não me tive inteiro quando me arrependendo de dizer
e as coisas que calamos são melhores
porque sobrevivem
como os dias futuros de toda gente boa que morre
ou das visões que vemos nas ruas passadas em carros
e ninguém meteu em uma moldura pra nos cuspir toda a verdade
na cara
e no peito que resta solto
ontem disse a mim mesmo que queria ser outro sempre
e me atrasei promessas perdidas que minha memória recordou,
nem sempre sei a substância exata do que digo
apenas aprendi que oblíqua é a verdade
e olhos entendem.
tenho predileção por coisas tristes e sei esconder
e o contrário é que sorrindo morro tudo isso
num gesto apertado entre a lembrança do momento que passou
e a inconsistência do presente.
Vago e impreciso nesse bojador,
abismo no vazio inavegável de mim.
eu sou aquele que tinha de ser assim.
são paulo, 20 de junho de 2011.