Desconstruindo o black metal

Das sombras do underground aos holofotes e passarelas. Aos poucos, o Black Metal vai perdendo o status de maldito para influenciar e inspirar artistas das mais diversas áreas ao redor do mundo.


black metal

A imagem é soturna. Homens com o rosto pintado como se fossem fantasmas, cabelos longos, couro e objetos cortantes. Letras que pregam o individualismo e a negação aos valores cristãos, em meio a uma sonoridade caótica e propositalmente mal-gravada. Logotipos indecifráveis semelhantes a uma árvore decrépita. Junte tudo isso a um histórico de ligações com grupos extremistas e crimes hediondos e temos o Black metal: a antítese de tudo o que consideramos mainstream. Ainda assim, o estilo tem sido usado como referência e inspiração para artistas de diversas áreas, de maneira inusitada e até mesmo polêmica.

Mas o que faz um artista buscar um nicho tão específico e avesso a cultura pop como este, nascido das vertentes mais extremas do heavy metal nos anos 80 e consolidado na década seguinte? Talvez seja justamente pelo absurdo de incorporar elementos aparentemente opostos, fez o artista americano Jeremy Saffer em seu mais recente projeto. A caracterização de suas modelos funciona quase como um fetiche, unindo a sensualidade do nu artístico com a sobriedade das máscaras corpsepaint, a maquiagem típica do estilo, de aspecto cadavérico e inspirado na mitologia dos Balcãs.

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Se o visual sombrio parece fora do lugar em um contexto erótico, imagine em um desfile de moda? Foi a solução encontrada pelo estilista brasileiro Alexandre Herchcovitch para surpreender o público durante a São Paulo Fashion Week 2007. Modelos desfilando em passos pesados, com maquiagem, cabelos desalinhados, coturnos... e roupas de corte fino, desenhadas para o verão. Nada poderia ser mais distante do que as florestas e paisagens gélidas escandinavas exaltadas pelas bandas do estilo. Obviamente, a iniciativa não foi bem recebida pelos fãs de Black Metal mais tradicionais.

A "má fama" do estilo não se deve apenas ao radicalismo dos fãs ou das temáticas abordadas. Durante a década de 90, dissidências mais extremistas do Black Metal norueguês estiveram envolvidas em diversos crimes: vandalismo, queima de igrejas e assassinatos. Até hoje, algumas bandas não escondem sua simpatia a ideias nazi-fascistas e decoram o palco com animais mortos, para desespero dos politicamente corretos. Apesar das opiniões e incidentes controversos, o Black Metal tem aprendido com seus erros, separando aos poucos o lado estético e musical do ideológico. Ao invés de convencer pela violência, cativa e subverte pelas possibilidades artísticas. Prova disso é a influência que o estilo exerce em outras mídias, como mostrado nos exemplos acima.

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No Brasil, essa subversão pode ser observada mesmo em estilos musicais totalmente diferentes: do coletivo de funk UDR, que mistura escatologia e satanismo em suas letras, com um senso de humor no mínimo bizarro; ao conjunto Satanique Samba Trio, que abusa da estética Black metal no logotipo, capa e nome das músicas, mas que desenvolve seu som com base no experimentalismo de Stockhausen misturando do samba rock ao free jazz. O antimusical de mãos dadas com o erudito, e o profano se tornando fashion. Ninguém diria que o Black metal, um estilo purista e separatista por natureza, acabaria se tornando parte da cultura pop.

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Jeremy Saffer


fabio machado

ainda não se decidiu se é um jornalista que desenha ou um músico que escreve textos. Enquanto isso, continua fazendo um pouco de tudo.
Saiba como escrever na obvious.
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