Entrevista a Jeremy Saffer

Saiba mais sobre o trabalho do fotógrafo que uniu dois pólos opostos: a crueza do black metal e a sensualidade da nudez artística.


Jeremy Saffer entrevista black metal

Se o sonho de todo fã é trabalhar ao lado de seus ídolos, podemos dizer que Jeremy Saffer, um dos artistas mencionados no artigo sobre a desconstrução do Black Metal, é um homem realizado. O jovem fotógrafo norte-americano começou fotografando shows underground e hoje é um dos mais requisitados pelas bandas de rock e heavy metal – Lacuna Coil, Dimmu Borgir, Killswitch Engage e Nightwish são alguns dos que já passaram por suas lentes. Após publicar seu primeiro livro, "Bring the Noise", Saffer apresenta seu novo trabalho, unindo também outras duas paixões: o nu artístico e a estética sombria da maquiagem corpsepaint. Nesta entrevista, ele fala sobre seus projetos e sua admiração pela música extrema.

obvious_ Como você criou todo o conceito de misturar nu artístico e o corpsepaint do black metal? Você tem uma carreira estabelecida fotografando bandas de heavy metal, mas como teve a idéia de unificar as duas coisas?

Jeremy Saffer_ Basicamente, trabalho a maior parte do tempo com bandas e temas relacionados à música, paralelamente a isso eu faço trabalhos de nu artístico. Meu gênero favorito de metal sempre foi o Black Metal (bandas como Immortal, Darkthrone, Limbonic Art, Emperor, etc). Então, um dia uma amiga que trabalha com uma grife de roupas me pediu para tirar uma foto de uma garota seminua usando corpsepaint para uma camiseta. Assim que comecei a fazer o serviço, além da foto específica eu decidi tirar um monte de outras fotos, e logo percebi que deveria continuar com isso - garotas nuas com corpsepaint. É perfeito, combina tudo que eu faço em uma coisa só. Surgiu de um estalo, e eu mantive isso em segredo por cerca de 10 meses antes mesmo de mencionar a ideia.

ob_ Quais são seus objetivos com este projeto? Você acha que corpsepaints também poder ser sexy, ao invés de malvados e assustadores?

JS_ Quando comecei o projeto, era apenas algo que pensei que seria legal fazer, porque combina o aspecto assustador e estranho do corpsepaint, mas o coloca junto com a beleza de uma mulher nua. Então, há um choque, mas funciona ao mesmo tempo. Você tem o belo e também o mal/ameaçador/feio - tudo na mesma imagem. Após perceber o quanto gostei de realizar este trabalho, decidi que isto se tornaria meu segundo livro. Eu absolutamente nunca poderia ver o corpsepaint como algo sexy, mas uma mulher nua com corpsepaint...deixo isso para o público decidir.

ob_ Fale sobre as sessões de foto. Você ou as modelos encontraram alguma dificuldade em fazê-las. Alguma situação curiosa ou engraçada?

JS_ Várias modelos ficaram nervosas não por ficarem nuas, mas por causa do corpsepaint! Elas estavam preocupadas se fariam um trabalho ruim (risos). Uma das coisas que iz questão foi de que cada modelo fizesse sua própria maquiagem; ndo assim, o resultado final é a própria criação delas e suas visões pessoais sobre o gênero. Houve algumas situações fotografando em ambientes externos ou em um porão frio, onde a temperatura foi meio que um problema, mas nada realmente difícil ou fora do comum.

Jeremy Saffer entrevista black metal

ob_ Quais bandas e elementos do black metal inspiraram você como referência visual para este projeto?

JS_ Honestamente, para mim (a banda) Immortal É a imagem do Black Metal. Em todos os seus aspectos. Eu realmente não me inspirei diretamente no visual das bandas, uma vez que as modelos fazem suas próprias maquiagens, mas creio que se alguma banda possui o visual black metal definitivo, é o Immortal sem sombra de dúvidas. Talvez antes de finalizar o projeto, eu recrie algumas imagens famosas do black metal, mas ainda não estou certo sobre isso.

ob_ Finalmente, você acredita que o black metal pode ser percebido como uma forma verdadeira de manifestação artística, a despeito de seus temas controversos e natureza "underground"? E o que você acha de outros artistas que também utilizam a estética black metal em contextos não-usuais, como designers, estilistas, músicos de outros estilos, entre outros?

JS_ Eu ODEIO o fato de que o black metal tenha se tornado um modismo para tanta gente. Eu vejo garotos indies e hipsters ouvindo bandas como darkthrone só porque eles querem estar por dentro de algo que eles sabem que outros não estão...quero dizer, quem sou seu para julgar alguém pelo que gosta? Eu só acho que isso é estúpido. Eu acompanho e ouço o estilo desde a metade dos anos 90, e vendo ua evolução nos últimos 15 anos, é algo louco. Eu prefiro o black metal dos anos 90 ao invés dos novos lixos em qualquer ocasião, e esta é a imagem que quero capturar. O Black Metal ERA uma arte, mas agora é apenas uma galinha dos ovos de ouro para muitos. Estou certo de que muitos pensarão neste projeto como uma forma de explorar o Black Metal, mas eu não estou fazendo isso pelo dinheiro, não estou fazendo pelo estilo, estou fazendo porque é algo que gosto de fazer. O Black Metal sempre terá o seu lado "comercial", se você quiser chamar assim, mas independente dos aspectos negativos e positivos, o mais importante sempre será a música...e não a imagem, os fãs, a moda, ou muito menos a controvérsia. Black Metal é sobre a música, e esse é onde o foco precisa estar, em álbuns fantásticos como Blaze in The Northern Sky (Darkthrone) – e não em algum nazista imbecil que chora na internet esperando que as pessoas ainda se importem sobre ele o suficiente para lhe darem algum espaço na mídia. [Referência a Varg Vikkenes da banda Burzum, condenado por assassinato e libertado recentemente.]

ob_ Falando agora sobre seus outros trabalhos e influências, quando e por quê você começou com a fotografia? Você sempre quis trabalhar com bandas de metal desde o início?

JS_ Eu comecei fazendo um website para que assim eu entrasse em contato com minhas bandas favoritas e fotografá-las, e naquela época eu tinha a cabeça no METAL! e nada mais, black, thrash, doom, etc. Desde estão eu descobri outros gêneros musicais, mas fotografar bandas ao vivo me levou a querer estudar fotografia a sério e trabalhar com todos os estilos musicais possíveis.

ob_ Quais as suas bandas favoritas de metal? Você já teve a oportunidade de trabalhar com alguma delas?

JS_ Já tive oportunidades únicas de trabalhar com algumas bandas lendárias, algumas das quais cresci escutando. Estes trabalhos são sempre os mais significativos para mim, mesmo se essas bandas são 1/8 do tamanho de outras bandas de pop-punk que fotografo. Minhas bandas de metal favoritas sempre foram Nevermore, Iced Earth, Immortal, além de outras que não se enquadram no gênero. Eu consegui fotografar o Slayer em uma de minhas primeiras sessões fotográficas, e isso foi simplesmente sensacional. Eu ainda preciso fazer uma sessão dessas com o Immortal, mas um dia espero conseguir! Também já trabalhei com Dimmu Borgir e Behemoth várias vezes o que é sempre muito bom – grandes caras!

ob_ Em relação aos seus trabalhos, qual deles considera o melhor até agora?

JS_ Eu sou um fotográfo muito altruísta, e bastante crítico com meu próprio trabalho, gosto do que faço mas não acho que qualquer coisa que eu tenha feito seja minha favorita ou a melhor. Tenho muito orgulho do meu primeiro livro, Bring The Noise, mas desde então eu fotografei tantas imagens melhores que eu quase tenho vontade de pegá-lo e lançá-lo novamente!

Jeremy Saffer entrevista black metal

ob_ Quem o influenciou como artista? O que inspira seus trabalhos e projetos?

JS_ Eu realmente não tenho alguma inspiração visual em especial. Não é que eu seja um esnobe ou algo do tipo, eu amo o trabalho de um monte de outros fotógrafos, mas eu gosto porque é o estilo deles. Eu nunca aplicaria o estilo de outro artista no meu próprio trabalho – isso é roubo! (risos)

ob_ Quais são seus próximos projetos?

JS_ Após finalizar o projeto corpsepaint, há outro no qual já tenho trabalhado, fotografando membros de bandas e suas tatuagens. Acho que este pode ser o tema de meu próximo livro, ou talvez eu faça uma versão atualizada de Bring The Noise, ou mesmo um livro com nus artísticos (mas sem corpsepaint!). Depende realmente do que e em quanto tempo eu possa realizar estes projetos.

Nota: O "corpsepaint book" (ainda sem título) será lançado no dia 31 de Outubro (Halloween) de 2010.

Jeremy Saffer


fabio machado

ainda não se decidiu se é um jornalista que desenha ou um músico que escreve textos. Enquanto isso, continua fazendo um pouco de tudo.
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