Terry Rodgers e o hiper-realismo da solidão

Que cada vez mais vivemos num mundo de aparências já todos sabemos. Mas agora a violência da solidão dos nossos tempos é retratada na estética crua e hiper-realista do artista norte-americano Terry Rodgers. Em telas de grandes dimensões, assistimos à sensualidade dos corpos versus a tentativa de relacionar-se com o exterior e revelar uma identidade.



hiper-realismo solidao estetica figuras corpo corpos The Sacrificial Penumbra, 2010 (183cm x 290cm, oil on linen)

Todos os dias, os media divulgam os retratos da vida perfeita dos protagonistas do jet-set. As festas fabulosas, as roupas que todos nós gostaríamos de ter e não podemos comprar, a conjugação perfeita entre a beleza e a juventude. O norte-americano Terry Rodgers desconstrói esse mundo de luxo e prazer através de uma representação hiper-realista e dinâmica de figuras, corpos e cenários em telas de grandes dimensões.

E se as personagens presentes nas pinturas a óleo do artista não poderiam parecer mais reais, há simultaneamente um apelo ao subconsciente que invade a sua arte: as composições de Terry Rodgers não são documentais; são antes ficções cuidadosamente construídas, em que o jogo de corpos, poses e expressões não é deixado ao acaso.

A sociedade actual é a grande protagonista dos quadros de Terry Rodgers, onde a promiscuidade emerge como tentativa desesperada - e falhada - de estabelecer contactos, relações com o mundo exterior, ilustrando a profunda solidão dos nossos tempos. Esta é uma geração vulnerável, que já não tem medo de expôr o corpo porque não sabe como expressar o seu interior.

hiper-realismo solidao estetica figuras corpo corpos The Deposition, 2010 (triptych, 142cm x 236cm, c-print on lightbox)

“Algumas figuras presentes nas imagens correspondem aos cânones ocidentais de beleza, enquanto outros desafiam essas mesmas convenções. Pode perceber-se, através destas imagens, que a alma não se encontra no envelope físico exterior”, explica Terry Rodgers acerca de “Boundaries of desire” (“Fronteiras do desejo”), a primeira exposição em nome próprio que apresentou na Europa, em 2009.

O desejo encontra-se em permanente tensão com o estado de solidão das personagens envolvidas. Num primeiro olhar, algumas das obras de Terry Rodgers – como é o caso de “Alternative Fictions” e “The Fluid Matrix of Bounded Latitudes” – podem ser erradamente interpretadas como banais manifestações de erotismo. Mas nenhuma das figuras retratadas se encontra realmente alinhada; não há olhares cruzados, não há sequer um contacto físico. Cada uma está isolada no seu próprio mundo, tentando encontrar um ponto de referência na realidade, um equilíbrio no seu desejo de se conectar ao exterior.

Embora o recurso à pintura a óleo em tela seja o mais frequente, Terry Rodgers dedica-se também à fotografia a preto e branco e um dos seus mais recentes trabalhos (“The Deposition”) é uma foto-composição num tríptico em caixa de luz.

hiper-realismo solidao estetica figuras corpo corpos Alternative Fictions, 2005 (152cm x 173cm, oil on linen)

hiper-realismo solidao estetica figuras corpo corpos The Fluid Matrix of Bounded Latitudes, 2008 (269cm x 305cm, oil on linen)

hiper-realismo solidao estetica figuras corpo corpos Jurisprudence,
1988-1994/2010 (51cm x 51cm, pigment on fiber-based paper)

Terry Rodgers

débora cambé

; Nunca foi nerd, mas gostava de o ser. Mesmo assim, acredita ser capaz de dar um ou outro bitaite sobre uma série de assuntos relativamente interessantes.
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do obvious sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
v3/s
 
Site Meter