Charlie Kaufman - Alucinações Cinematográficas

Considerado um dos roteiristas mais inovadores e importantes de Hollywood, Charlie Kaufman é autor de filmes polêmicos como Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), Adaptação (2002), Quero Ser John Malkovich (1999) e o mais recente Synecdoche, New York (2008), o qual ele também dirigiu.


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Charlie Kaufman é roteirista e, como muitos descrevem, uma mente brilhante e conturbada. Assinou filmes polêmicos para o padrão hollywoodiano de cinema e impressiona com suas alucinações cinematográficas. Fato é que analisá-lo é uma tarefa dolorosa, pois corremos um grande risco em diminuí-lo, assim como diminuir sua obra, que pode conter inúmeras interpretações.

Um aspecto geral, muito importante e marcante, com o qual Kaufman conseguiu um espaço respeitável nas produções americanas, é o talento de nos deixar intrigados com um filme, que em primeira mão nos pareceria impossível de interpretar mas, com olhos analíticos podemos perceber uma certa dose de filosofia, autobiografia e antropofagia. Assim, por questões paralelas, vou deixar aqui um olhar, talvez um tanto raso, de dois filmes importantíssimos: Quero Ser John Malkovich e Synecdoche, NY.

O filme Quero Ser John Malkovich (1999) foi indicado ao Oscar de melhor roteiro, direção e atriz coadjuvante. Analisando o filme como um todo percebemos como ele carrega o desejo do homem atual de ser outro, que antropofagicamente falando, é o desejo de outrar-se – como Fernando Pessoa fez. Ou seja, sentir-se no lugar de outro e absolvê-lo sem preconceitos. Este filme mostra esse desejo com muita clareza quando dois personagens descobrem um buraco negro que sai dentro do corpo de John Malkovich, interpretado pelo próprio ator. Os personagens percebem que estar dentro de alguém famoso e rico é uma brincadeira divertida e saborosa, e então começam a cobrar entradas para outros personagens visitarem a vida do ator.

O mais interessante disso tudo é o vício que essa atividade de outrar-se causa nos personagens do filme. Sendo agora muito ousada, posso fazer um paralelo com a época contemporânea, onde encaixamos, modificamos, misturamos e abduzimos todos os diversos tipos de conceitos, mas de uma forma extremamente antropofágica, como tendo uma sede de deixar o próprio corpo e experimentar com uma freqüência alucinante algo que é novo, que dá arrepios.

Já em Synecdoche, NY (2008) o desejo mais aparente é de transformação. O personagem principal sublima seus problemas familiares com o objetivo de fazer algo importante na vida antes de morrer. Como em um simulacro (ver conceito de mimeses criado de Platão) o personagem principal, interpretado por Philip Seymour Hoffman, cria uma peça de teatro que conta sobre uma peça de teatro que por sua vez conta sobre a vida do próprio diretor da peça. Dessa forma, esse filme se dá como uma incansável construção de si mesmo através de uma construção metalingüística, exalando um desejo de busca por autoconhecimento e auto-satisfação, como estar sempre em torno de si, andando em círculos intermináveis.

Synecdoche, NY é sem dúvidas um dos filmes mais difíceis de si assistir e analisar, mas também uma descoberta cinematográfica sem limites de interpretações e sem limites de sentimentos.

Além desses filmes recomendo também Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), vencedor do Oscar de melhor roteiro original e Adaptação (2002), indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado.

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mariana beltrame

"Amante das cores pastéis. Humor de saúva".
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