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da rússia, com humor – as ilustrações de andrey gordeev

publicado em artes e ideias por | 6 comentários

Andrey Gordeev é um jovem ilustrador russo que tem ganho notoriedade internacional graças a um estilo inconfundível e um humor mordaz. A ilustração de eventos políticos russos para revistas nacionais, numa estética vintage, trouxe-lhe o reconhecimento público, mas também algumas pressões, já que Vladimir Putin é um personagem recorrente.

andrey gordeev ilustracao politica russia russo

Nascido em Khabarovsk, uma das regiões mais orientais da Rússia, o jovem ilustrador Andrey Gordeev tem ganho cada vez maior notoriedade dentro e fora do seu país. A verdade é que os seus trabalhos repletos de humor e cor rompem o imaginário herdado do período soviético de uma Rússia distante e cinzenta. Sem medos, Gordeev traz-nos um universo mordaz de um país que sabe olhar para si próprio com inteligência e criatividade.

A ilustração nunca foi um sonho de infância. Mas, mesmo assim, desenhar sempre fez parte da vida de Gordeev. Das caricaturas dos colegas de turma aos planos para se tornar arquitecto, tudo são agora águas passadas no percurso deste ilustrador. A actividade que começou há três anos – e que nunca mais largou – tem agradado a revistas e agências de publicidade, dando-lhe cada vez mais visibilidade. Ao ponto de ter criado já um estilo inconfundível, no qual as suas personagens, humorísticas e estilizadas, são facilmente identificáveis. E sempre com uma essência russa que, apesar de o próprio Gordeev não a conseguir descrever, emana em todas as ilustrações.

Particularmente interessantes no portfólio de Gordeev, os postais vintage oferecem uma ponte entre o passado dos Czares e a Rússia moderna. Numa série elaborada para a revista russa Life, esta colecção de ilustrações sobre acontecimentos actuais, representados como se se tivessem passado há cem anos atrás, sublinhou a vertente mais política do artista. O jogo entre períodos diferentes da História questiona também a permanência de temáticas que nunca parecem mudar.

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Ao longo da série vintage, são visíveis os temas da actualidade interna da Rússia, mas também assuntos de maior destaque na agenda internacional. Como exemplos, o reconhecimento da independência da Ossétia do Sul, o conflito com a Geórgia, o medo perante os Estados Unidos, o conflito com a Chechénia ou a estátua de reconhecimento, em Yalta (Ucrânia), aos líderes das três potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial: Estaline, Churchill e Roosevelt.

Para a revista GQ, Gordeev preparou outros retratos sociais com humor. Os escândalos sexuais em que estiveram envolvidos vários líderes políticos russos não foram esquecidos. Assim como a eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos e as expectativas do presidente russo Vladimir Putin em relação ao novo inquilino da Casa Branca. De facto, Putin é uma figura recorrente do universo satírico de Andrey Gordeev, o que não o deixa passar despercebido no escrutínio das vozes críticas ao Estado.

Contudo, é isto mesmo que Gordeev confessa adorar: a independência que possui como ilustrador freelancer. O artista vê na abordagem política das suas ilustrações um desafio que, apesar de poder ser perigoso, lhe dá um verdadeiro prazer, mesmo reconhecendo as pressões que vão sendo impostas.

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É, portanto, uma Rússia ambígua que transparece nas imagens construídas por Gordeev. Por um lado, os trabalhos publicitários e inofensivos do jovem artista trazem ao país uma lufada de ar fresco e de humor, por entre o traço colorido e inconfundível do ilustrador. Por outro, as ilustrações para as revistas, com uma componente de crítica política e social, lembram um país ainda muito fechado e que mantém os mesmos vícios de há cem anos atrás. Características que são acentuadas pelo aspecto clean dos personagens e pela claustrofobia visual dos vários acontecimentos aglutinados num único rectângulo ilustrativo.

De qualquer das formas, Andrey Gordeev está nas sete quintas com o seu trabalho. Não consegue tecer planos a longo prazo para a sua vida, mas sabe que as ilustrações coloridas são a alternativa perfeita para quem não se revê num trabalho de horários fixos, onde tenha que ir trabalhar todos os dias de manhã, à mesma hora.

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Andrey Gordeev

marisafigueiredo
Sobre a autora: marisa figueiredo sonha em abrir uma livraria-chocolataria para que possa juntar os seus dois prazeres. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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Um amigo meu notou que a primeira imagem pode ter uma conotação racista, como se Obama fosse um macaco recebendo uma banana. Eu mesmo não tinha entendido essa imagem antes, e essa explicação parece fazer sentido. Será que é isso mesmo que ele quis dizer? É uma questão bem interessante!

Jota

Artigo muito interessante... e cartoons excelentes :)

Adriano

Nos tempos do Comunismo isso era inimaginavel pois todos entederiam como racismo.
Acho que o medo de outrora ja acabou e a expessão agora +e livre por lá
Estou muito surpreso com o que vi.

Jota

@Adam

Toda a informação pode ter múltiplos sentidos, depende dos que quisermos dar a ela, pelo que podemos procurar mil e uma significações para este cartoon, mesmo que sejam desviantes da ideia do autor. É um caso de subjectividade, e não de objectividade.

Neste caso, eu posso depreender, através do cartoon, que num clima de grave crise económica e financeira, o contributo que a Rússia quis dar para resolver o problema - um problema que Obama quis que fosse resolvido de forma concertada a nível mundial - é uma ajuda que não vale quase nada, vale o preço de uma banana. Aliás, em Portugal, quando se compra algo demasiado barato para o que se estava à espera, diz-se que o comprámos a "preço de banana".

E podíamos continuar a analisar outros pormenores deste cartoon, mas isso ia ser longo... e demasiado subjectivo.

Jota, pois é justamente isso que eu queria: conhecer outras reflexões, subjetivas mesmo. As outras imagens eram mais abertas, criavam mais sensações, mas a primeira parecia querer dizer algo mais objetivo... Não quis acusar o artista de racismo, mas achei a reflexão do meu amigo bem interessnte e, como essa ilustração era a mais incompreendida para mim, resolvi compartilhar e buscar outras interpretações.

Enfim, obrigado pela sua reflexão. Confesso que ela fez ainda mais sentido para mim :)

@Adam e Jota,

É fantástico como uma ilustração artística pode gerar tanta discussão de qualidade!

Posso dizer que concordo com ambas as perspectivas que vocês trouxeram. O "preço de banana" conjuga-se totalmente com o quadro que está por detrás do Obama.
Mas também acredito que a banana não está ali apenas para representar um fraco contributo. Porém, a haver uma componente racista, não acho que seja do ilustrador, já que ela é atribuída ao próprio Putin. Até porque, já dizia Gordeev, o presidente russo minimizava um pouco a eleição de Obama, pensando até que poderia haver espaço para manobrar o presidente dos EUA.

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