O que você quer fazer antes de morrer?

Pela desmistificação da morte, e fruto do amor pela vida e pelas pessoas, surge o projecto “Before I die I want to…”, dos americanos Nicole Kennedy e K.S. Rives. Vidas captadas em polaróides, desejos expressos e um compromisso cheio de esperança e encorajamento. Assim é uma das iniciativas sociais mais altruístas dos últimos tempos, uma demanda no existencialismo democrático à qual ninguém ficará indiferente.


Nicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróide

Pela nossa própria vida vemos passar um sem número de pessoas. De todas elas nos fica um pouco, embora sempre um vislumbre remoto das suas batalhas interiores. Todos quantos não nos são próximos, são Humanidade, são mais outros que os outros, e o que é ser humano será sempre uma pergunta algo retórica, que nos move a cada dia, que nos faz únicos, que constrói a individualidade.

Essa Humanidade faz-se de acções do corpo, acções da alma, emoções, razão, tabus... A morte é, de longe, o maior desses tabus, e ao mesmo tempo algo que a todos une. Tudo gira em torno dela e do desejo cósmico por superá-la. A Medicina, a resistência ao envelhecimento, e até o pudor do termo são provas irrefutáveis disso mesmo.

Porém, o tabu é imaterial e a razão pura dita a sua irrealidade. E seguimos em frente… O que faz de certas pessoas mais cientes da sua própria mortalidade? O que as move? Que valores encerra a sociedade, e como estes variam de cultura para cultura?

Buscando a resposta a estas questões, Nicole Kennedy e K.S. Rives, ambos americanos, deram forma ao projecto “Before I die I want to…” (Antes de morrer quero…), uma incrível iniciativa social inspirada em três simples factores.

O primeiro deles, a ‘morte’ anunciada da Polaroid (de volta neste ano de 2010) e a soberania da fotografia digital. O segundo, um método psiquiátrico chamado ‘contrato de segurança’, usado em pacientes suicidas e que implica a promessa dos mesmos de permanecer em segurança até que ajuda profissional lhes seja prestada. O qual imprime o entendimento de que alguém se preocupa e partilha do seu sofrimento. Com este projecto é esperado um efeito semelhante… E o terceiro, último, e mais importante factor, a paixão pelas pessoas… Parte estudo cultural, outra um mecanismo de encorajamento, esta iniciativa faz da reflexão acerca das prioridades individuais o motor de uma plural realização pessoal.

O processo criativo é simples… Mantendo as suas máquinas Polaroid sempre por perto, Nicole e K.S., tiram fotos instantâneas onde quer que vão. As pessoas são o objecto, e enquanto são fotografadas é-lhes perguntado o que gostariam de fazer antes de morrer, incitando-as a fixar o derradeiro desejo, e pedindo-lhes de seguida que o materializem, escrevendo-o na fotografia que acabam de tirar, começando pelas palavras que dão nome ao projecto: before I die I want to…

Nicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróideNicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróide imagem à esquerda: I want to pray with my whole soul (so this is my last reincarnation). // imagem à direita: Before I die I want to make films to highlight human sufferings. Want to serve humanity through cinema.

Nicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróideNicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróide imagem à esquerda: Before I die I want to have a house. // imagem à direita: I want to die before my husband dies.

Num último momento, os artistas pedem que seja adicionado também o email… O objectivo é que anos depois, cinco, dez, vinte anos, os participantes possam ser contactados a fim de descobrir se atingiram os seus objectivos, se estão no caminho certo, ou se ainda não o fizeram e porquê. Nessa altura ser-lhes-á pedido que escrevam uma pequena história junto da sua fotografia no website acerca da sua jornada, esperando que a visão de outras pessoas que realizam os seus sonhos motive outros participantes a cumprir o compromisso que fizeram, mais que com os artistas, consigo mesmos, e incitá-los a escrever a sua própria história.

Depois de centenas de polaróides tiradas nos EUA, Nicole e K.S. decidiram alargar os horizontes do projecto, voltando-o para uma cultura radicalmente diferente. De Janeiro a Março de 2009 viajaram pela Índia, fazendo sempre a mesma pergunta. Tirando partido de uma sociedade de extremos, incluíram na iniciativa uma grande variedade de pessoas. Fotografaram ricos e pobres, jovens e velhos, da cidade e do campo, viajantes, executivos, pedintes, homens santos, actores e até uma noiva no dia do casamento. Tiraram fotos em cada local visitado, comunicando através de tradutores locais e guias turísticos…

A comparação das pessoas na Índia, dos seus desejos, com o resto do mundo foi o objectivo. As diferenças não tardaram a aparecer: a visão da morte, a capacidade de sonhar, e o individualismo vs. senso de comunidade destacaram-se.

Nicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróideNicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróide imagem à esquerda: I want to be a teacher. // imagem à direita: I want to feel I've made a valuable contribution… Before I die.

Nicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróideNicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróide imagem à esquerda: I want best wishes for my children - they can study more + more, make their prosperity, make good will + good impressions on the world. // imagem à direita: Before I die I want to study.

Na América, o contacto com a morte gera desconforto nas pessoas, e o tabu é revelado: não estão preparados para sua morte, nem para a daqueles que lhes são próximos. De uma forma totalmente diferente, para os indianos, a morte e a sua aceitação são parte integrante da vida. Muitos pensaram até o que dizer nesse momento último. O que diz isto sobre ambos os povos?

Por outro lado, o individualismo na América é claro. Todos são criados para a originalidade, para a vida como indivíduos. Na Índia, não, as pessoas crescem em comunidades densas onde são preservados os valores de felicidade e conforto do outro. Enquanto que muitos indianos apresentaram a mesma resposta à pergunta, os americanos não.

É evidente ainda que, na Índia, a capacidade de sonhar é quase inexistente, vivem o presente: é preciso trabalhar, pôr comida na mesa e cuidar da família. A dimensão da pergunta foi muitas vezes de difícil entendimento. A conclusão a que chegaram os artistas, cruzando esta realidade com o sonho americano, é que o sonho, a projecção do futuro, surge com a estabilidade financeira.

Porém, e apesar das diferenças fulcrais, algo é comum entre americanos e indianos, ricos e pobres… o facto da grande maioria querer fazer algo antes de morrer. Poucos afirmaram ter feito tudo, ou não sentir necessidade de fazer coisa alguma.

Nicole Kennedy K.S. Rives antes morrer vida pessoa polaróide

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O futuro do projecto será explorar cada vez mais realidades e culturas, de países de terceiro mundo a países desenvolvidos, zonas rurais e cidades, escolas a lares de terceira idade e até o corredor da morte e hospícios. Especialmente as duas últimas comunidades enfrentam a morte de um ponto muito diferente para as pessoas comuns sequer poderem imaginar.

Poucas iniciativas são construídas sobre uma base tão forte, tão especial e altruísta como esta. Para participar no projecto, inspirar-se ou ajudar outros a focar os seus objectivos e perseverar na sua realização, basta aceder à página oficial do projecto, e enviar a sua própria fotografia, fazer um donativo ou comprar um dos livros recheados de polaróides e sonhos, cujo lucro reverte na totalidade para a compra de recargas para as máquinas.

Vivemos em tempo emprestado… O que quer você fazer antes de morrer?

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alexandre romero

um cidadão do mundo. Classicista, escritor, fotógrafo, pintor experimental, o homem dos mil ofícios.
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