
Devotado à análise e crítica das artes visuais, o espanhol Joan Fontcuberta acredita que os autores se dividem em duas categorias: os narcisos e os vampiros. Os primeiros são movidos pela busca obsessiva de si, de sua própria imagem e identidade, já os do segundo caso são o oposto; como que destituídos de reflexo, estão sempre às voltas com a pulverização do indivíduo, de si mesmos. É justamente na estética do vampiro que iremos localizar a artista plástica Cindy Sherman: fotógrafa, modelo de suas próprias fotografias, a norte americana pretende ser quem quer que seja, no meio do caminho busca des-ser, torna-se quem?
Nascida em 1954 em Nova Jersey, cresceria em uma pequena cidade nova-iorquina sem nenhuma significante influência artística familiar. Mesmo assim, estava interessada em pintura e logo matriculou-se em artes visuais na State University College of Buffalo. O movimento seria frustrante por um lado eu estava meticulosamente copiando a arte dos outros, ela diz, mas benéfico por outro já que a aproximaria da fotografia.
Ser o outro, centenas de imagens, conhecidas, desconhecidas, imaginárias. Atriz noir, menina, manequim, prostituta, bronzeada, grotesca, viajante, imperfeita... Uma galeria infinita de personagens e personas, sempre femininas, femininas nas diferentes fases de sua carreira, femininas à exaustão. Feminista? Recusa-se: eu não vou sair por aí defendendo essa coisa besta de teorias feministas. Seu trabalho também transita pela montagem de cenários e situações macabras, pelo uso de próteses (em si ou fotografas) e pelo cinema.


Cindy Sherman vai além do dispor de si, seu corpo levado para além dos limites de uma identidade pessoal própria, se torna um corpo qualquer, simplesmente uma pessoa fabricada. É nesse sentido que aparece a dificuldade de classificar sua série de fotografias onde é sua própria modelo como auto-retratos. Ora, ela nunca está lá.
Tento sempre distanciar-me o mais que posso nas fotografias. Embora, quem sabe, seja precisamente fazendo isso que eu crio um auto-retrato, fazendo essas coisas totalmente loucas com esses personagens, diz, mas seria possível? Com implicações psicanalíticas claras, a escolha e a criação dos tipos a serem fotografados são feitas pela própria autora, seriam uma projeção ou um querer ser? O enigma é o fascínio maior aqui. Não ser mais quem se é, ser outro, dissipar-se em ninguém é o que Cindy Sherman perturbadoramente nos propõe.



Comentários
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Farida Romero
Conheci o trabalho da Cindy em Londres, em 2002, quando ela já misturava fotografia e pintura, fazendo uma releitura bizarra da figura "das Madonnas", Agora vejo, que como todo artistista contemporaneo, resolveu Investigar seu ID.
prill
Farida:
hahaha nesses últimos tempos, anda sendo uma vala comum dificíl de não se cair. mas juro que não reclamo se continuar a haver beleza e provocação como resultado.
obrigada pelo comentário!
Fárida Romero
Oi Prill!
Obrigada pelo reply. Acrescentaria na fórmula, provocação -beleza, um elemento bastante sedutor: o humor irônico, aquele que faz a gente rir por dentro.
JDACT, Dr
Excelente trabalho.
Obrigado.
A amizade é o maior triunfo da vida.
JDACT
Domenium
Muito bacana o artigo
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