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o cinema plástico de david lynch

publicado em cinema por | 9 comentários

Com filmes que deixam o convencional de lado e ultrapassam as barreiras da criatividade, Lynch consegue causar medo com tomadas aparentemente banais e deixar dúvidas até onde não deveria apelando para recursos meramente visuais. O que esperar e como entender um diretor de cinema e artista plástico que parece trabalhar em prol da loucura.

david lynch
Inland Empire

“Loucura!”, “Insanidade!” e “Assustador!” foram os comentários que mais ouvi das pessoas ao meu redor durante as quase três horas de duração do filme INLAND EMPIRE (2006). Os poucos espectadores que restaram ao término da sessão não se contiveram e iniciaram uma torrente de perguntas entre si. Com filmes que deixam o convencional de lado e ultrapassam as barreiras da criatividade, David Lynch consegue causar medo com tomadas aparentemente banais e deixar dúvidas até onde não deveria. São inúmeras indagações que muitas vezes deixam a mensagem do diretor padecer no campo do ininteligível. Essa barreira, na opinião de Lynch, não existe. Segundo o próprio, em seu livro Catching the Big Fish, “(...) Algumas vezes as pessoas dizem que não conseguiram entender um filme, mas, na verdade entendem muito mais do que percebem”. Tal declaração, apesar de reconfortante, não convenceu por completo os insistentes fãs de seu trabalho.

Descendente de finlandeses, Lynch nasceu em 1964 numa cidade chamada Misoula, localizada no interior do estado de Montana, Estados Unidos. Sua biografia, ao que parece, não é tão “conturbada” quanto suas obras. É casado e pai de três filhos, sendo Jennifer Chambers Lynch a única mulher. Talvez a descendência feminina seja a que mais reverberou no mundo cinematográfico, pois é ela a autora do clássico Encaixotando Helena, um ícone do cinema cult trash. É óbvio que os genes tendenciosos para o bizarro foram herdados de seu pai.

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Inland Empire

david lynch
Eraserhead

Nos extras da versão remasterizada de seu primeiro longa-metragem, Eraserhead (1977), David Lynch conta que se inseriu no mundo artístico através da pintura. Acabou estudando na Academia de Belas Artes da Pensilvânia e apostou na carreira de artista plástico até ser seduzido pelo cinema, que, posteriormente, o fez reconhecido em todo o mundo. Todavia, um talento não anula o outro: seus primeiros trabalhos como diretor estavam, mais do que nunca, incrementados de referências puramente visuais, característica que o acompanhou durante toda sua trajetória e ainda se mostra presente em suas mais recentes obras. Citando um exemplo banal: o filme Eraserhead demorou mais de cinco anos para ser concluído por motivos orçamentários, mas Jack Nance, que interpretou o protagonista, manteve o excêntrico corte de cabelo durante todo esse tempo, mesmo com esporádicos dias de gravação. Decisão tomada em conjunto com o diretor que, ciente da complexidade de sua obra, acredita que uma simples alteração visual – o penteado – pode influenciar diretamente na interpretação do espectador.

david lynch

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Twin Peaks

Em Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992), pressupõe-se uma relação com o quadro surrealista A reprodução interdita (retrato de Edward James), do artista plástico belga René Magritte. Na pintura, a figura de um homem olha para um espelho, que, por sua vez, reflete a mesma imagem que vemos, ou seja, o reflexo também está de costas. Já na cena de Twin Peaks, Dale Cooper, personagem do ator Kyle MacLachlan, olha para a câmera de segurança três vezes e corre para a sala de monitoramento, constatando, assim, que sua imagem permaneceu congelada. A sequência ficou famosa pelo que acontece logo depois: a primeira aparição do personagem de David Bowie, que transita indiferente à imagem estática. Alguns defendem que o circuito de câmeras de TV pode ser uma clara analogia ao espelho de Magritte, tanto por semelhanças visuais quanto pelo fato de que ambos quebram a lógica natural das coisas. É isso que deve se esperar de uma obra de Lynch, no mínimo.

Quem já assistiu Blue Velvet (1986), Lost Highway (1997) ou Mulholland Drive (2001) – com destaque para a cena do Club Silencio – deve deve ter notado o grande número de close-ups utilizados. Não falo de focalizar rostos, como em qualquer filme convencional, mas um zoom que se aproxima de um objeto até seu completo desfoque. Esse recurso quase sempre vem seguido do uso das cores vermelha ou azul. Qual o significado disso? Desvendar esta questão é um norte fundamental para a assimilação do conjunto.

Na época do lançamento de Mulholland Drive houve uma grande revolta vinda de espectadores que diziam não ter entendido o filme, além de não compreenderem o porquê de tanto espaço que a mídia destinou para tal. Para satisfazer as mentes mais confusas, Lynch redigiu uma lista com “dez dicas para ajudar a entender Mulholland Drive”, e duas delas se remetem a características de alguns objetos que aparecem durante o longa: o luminoso vermelho e a chave azul. Isso gerou tantas teorias por parte dos mais aficionados que já é senso comum achar que quando objetos azuis são enfocados, trata-se de um rompimento nas fronteiras entre o sonho e a realidade, já o enfoque no vermelho sinalizaria o regresso. Uma hipótese satisfatória, se em seu livro Catching the Big Fish, o diretor não dedicasse um (curto, porém inteiro) capítulo sobre essa questão, onde diz apenas uma frase: “(...) não faço ideia do que sejam”. Voltamos ao ponto de partida.

david lynch

david lynch
Mulholland Drive

Lynch quer libertar-nos dos padrões do cinema contemporâneo estimulando nossa imaginação. A essência de sua obra está fundamentada no fato de não interferir diretamente na interpretação de cada um, a fim de criar vários universos particulares. Parodiando a banda Depeche Mode, seria algo como “your own personal David Lynch” ou, “seu próprio David Lynch pessoal”.

 

sergio coletto está convencido de que vai entender o mundo através de papéis velhos e amarelados. Saiba como fazer parte da obvious.

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Marcelo Dias

Quando não entendemos algo do David Lynch não significa que ele é louco ou que somos burros mas que os filmes se tornaram algo apenas saciável.

cisco

E nós (os espectadores / apreciadores / voyeurs) voltamos sempre ao mesmo: querer entender e explicar racionalmente aquilo que o criativo / artista faz com a clara intenção de produzir um choque, de desacreditar atitudes ou abalar opiniões.
Esquecemos (por medo do desconhecido?) que na maior parte das vezes nem o próprio autor conhece as razões exactas da sua acção.
Reconheço que esta tentativa explicacionista é muito capitalista: dá uns trocos a ganhar aos críticos a troco de rigorosamente nada!

pem

Boas, bom artigo mas o ano de nascimento do David Lynch esta errada. O artigo diz que nasceu em 1964 mas segunda a wikipedia nasceu em 1946.
Esta correcção é importante porque se não tinha realizado o seu primeiro filme com 11 anos.

pem

Boas, bom artigo mas o ano de nascimento do David Lynch esta errada. O artigo diz que nasceu em 1964 mas segunda a wikipedia nasceu em 1946.
Esta correcção é importante porque se não tinha realizado o seu primeiro filme com 11 anos.

lu

David é para poucos mas é único na singularidade...

Errando na errata.

Lynch nasceu em 1964.

Seue primeiro longa-metragem, foi Eraserhead em 1977.

1964-1977=13

essa correção também é importante
por que 13 é diferente de 11.

Boas, julgo não tenho a certeza que David Lynch nasceu em 1946 e não em 1964.Até porque ele tem 64 anos e não 47.Quarenta tenho,eu e era puto já via os seus filmes e vi alguns decomentarios em tv e ele já tinha alguma idade.Portanto quem continuar a afirmar que ele nasceu em 1964 está a tonar-se um pouco casmurro ou do contra ou mesmo propotente, visto que não tem qualquer cabimento fazer uma afirmação dessas como se o conhecessem pessoalmente.Conheço sua carreira desde o inicio e sim julgo não estar em erro mas o primeira filme data de 1977 EraserHead e ele tinha cerca de 31 anos e não 13, mesmo sendo um génio da criatividade Sci-Fi, não conseguiria nunca com 13 anos realizar nenhum filme como aquele que fez em 77.Perdoem-me quem estiver em desacordo mas a afirmação da ignorancia a pés juntos é algo de muito infeliz e pobre, e uma falta de respeito com o proximo neste caso.E tenho dito"Morra, quem se Negue".
E agradecido a Sergio Colleto por esta publicação sobre David Lynch, bastante rasuavél muito bem extruturado.

Armando

PEM e João Miguel Serrano (se não são a mesma pessoa) têm razão quanto a idade do diretor. O próprio texto revela, ao afirmar:

"... apostou na carreira de artista plástico até ser seduzido pelo cinema, que, posteriormente, o fez reconhecido em todo o mundo... "

Está implícito aí que houve um intervalo de tempo em que o diretor se dedicou às Artes Visuais, antes de fazer cinema. E tudo isso depois de formado na Academia de Belas Artes da Pensilvânia. Sendo assim, não poderia ter feito seu primeiro filme aos 13 anos, óbviamente. Seria mais elegante da parte do autor ter reconhecido seu erro, que é tão evidente.

daniel brasil

AS OBRAS DE ARTE DE DAVID LYNCH SÃO EXPERIÊNCIAS SENSORIAS E INTELECTIVAS QUE TRANSITAM NA CONTRAMÃO DA RACIONALIDADE, SENDO IRRELEVANTE E INGÊNUO BUSCAR INTERPRETAÇÕES, CONCLUSÃO E COMPREENSÃO PLAUSÍVEIS PARA AS MESMAS. É A ARTE DAS IMAGENS E DA AÇÃO OU INAÇÃO QUE DESPERTA NO UNIVERSO DOS SEUS ESPECTADORES, HAVENDO UMA ACURADA PREOCUPAÇÃO EM NÃO CRIAR ESTERIÓTIPOS E SITUAÇÕES CONTEXTUALIZADAS. O QUE FASCINA SÃO OS SUTIS, DESCONTEXTUALIZADOS E CRÍTICOS ENFOQUES SOBRE AS RELAÇÕES HUMANOS, O DESBARATAR A "PREGAÇÃO" PELA CARTILHA INSTITUCIONALIZADA E ENRAIZADA DA INDUSTRIA CINEMATOGRÁFICA PARA AS MASSAS, A DETERIORAÇÃO DA MENTE HUMANA EM RUMO A PARANOIA OU A DUPLA PERSONALIDADE E OUTRAS PSICOSES PÓS-MODERNAS. O GÊNIO NÃO ESTÁ SOZINHO E ISTO É UM IMENSO PRAZER, POIS, ANDREI ZULAWSKI (POSSESSÃO), STANLEY KUBRICK (2001, A SPACE ODISSEY), ANDREI TARKOVSKI (SOLYARIS). LYNCH PROVOCA SOBERBAMENTE A INQUIETAÇÃO E CRIATIDADE DE DIRETORES CONTEMPORÂNEOS, LEVANDO-ME A CRER QUE NÃO POR ACASO CHRISTOPHER NOLAN (COM MEMENTO E INCEPTION) E RICHARK KELLY (COM DONNIE DARKO e SOUTHLAND TALES - este recebeu avalanche de críticas negativas, sendo para mim uma obra distópica e atual). QUE DAVID LYNCH RETORNE COM SEU NITROGÊNIO LIQUÍDO ARTÍSTICO VERBORRÁGICO UM DESAFIADOR DE MENTES NA PONTA DO ICEBERG DE OBRAS PRIMAS. ESTES DIRETORES E ROTEIRISTAS SÃO MARAVILHOSOS, TODAVIA, TENHO UM CARINHO POR DONNIE DARKO, POIS DEIXANDO A HIPOCRISIA DE LADO, APRECIO OS BONS FILMES HOLLYWOODIANOS QUE SOUBERAM "SEPARAR O JOIO DO TRIGO". APESAR DE MEUS PARCOS CONHECIMENTOS CINÉFILOS, INDICO DOIS FILMES, UM RUSSO BEM HUMORADO E DESCOMPROMISSADO COM BOA FICÇÃO CIENTÍFICA, KIN-DZA-DZA, UMA CRIAÇÃO DE BAIXO ORÇAMENTO COM CRIATIVIDADE E RESULTADOS SURPREENDENTES PERPETRADAS POR GEORGIE DANELIYA. E O ALEMÃO DAS EXPERIMENT, POSSIVELMENTE O MELHOR FILME DE OLIVER HIRSCHIBIEGEL ANTES DE SER "ABDUZIDO" POR HOLLYWOOD E LANÇAR MÃOS DE EXPLOSÕES, TIROTEIOS EM MASSA E DOSE MASSIVA DE CGI. Daniel Brasil - danielbrasilsm@hotmail.com

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