reynaldo jardim e a profana via sacra


reynaldo jardim profano sagrado

Longe é um lugar que não existe para Reynaldo Jardim. Impraticável é vocabulário igualmente desconhecido. Poeta e jornalista precursor dos movimentos concretista e neoconcretista no Brasil, criador de jornais e suplementos culturais que mudaram o visual da imprensa brasileira, Reynaldo é mais que um multiartista.

Rey, como amigos o chamam, escreve e desenha poemas, esculpe criaturas vivas para depois queimá-las, enfrentou cânceres com humor, esteve na lista negra da época ditatorial de seu país, planeja construir uma cidade ecologicamente correta e chama Deus de prepotente com propriedade de quem tem moral para tal.

Em 1978, com a ideia de traçar um paralelo entre Cristo e Che Guevara – e com o uso de canetinhas hidrográficas, dentro de um carro a caminho do Rio de Janeiro –, o paulistano de 83 anos fez nascer A Profana Via Sacra, poesia marcante que hoje nomeia o curta-metragem que, com estreia prevista para o final do ano, oferecerá um passeio intrigante pelo universo do artista.

Ideia do próprio homenageado, o curta, integralmente rodado na capital brasileira, nasceu do desenrolar de um convite feito pelo poeta ao artista Alisson Sbrana na produção de sua antologia, Sagradas Escrituras. “A ideia era que Alisson emprestasse maior originalidade à parte visual de sua poesia para a coletânea”, explica Liana Farias, produtora do curta.

O irreverente resultado da união entre o trabalho gráfico de Alisson e a poesia de Reynaldo foi, no entanto, pequeno diante do que viria. O criador profano logo confessaria à Sbrana a vontade de ver o poema em vídeo. Grande admirador, Alisson abraçou a ideia e tornou-se diretor e roteirista da obra que levaria as mensagens de Rey às telas.

Não acostumado com as câmeras e com a movimentação cinematográfica, e já enfraquecido pelos anos, Reynaldo não deixou seu humor menos afiado durante as gravações. Com um saco de pipoca nas mãos, observando a movimentação de figurantes que se aglomeraram no Cine Brasília para a filmagem da última cena do curta profano, resmungou: “Duzentas pessoas pra 30 segundos de filme? Isso é muita coisa. Cinema é muito complicado. Quer uma pipoquinha?”.

reynaldo jardim profano sagrado © Pedro Oliveira

Pipoca aceita, confuso é cumprir o papel de quem não se surpreende com tamanha simplicidade vinda de tamanho ícone. “Confesso que sou suspeito para falar, mas, da sua excentricidade criativa, das maluquices de sua personalidade genial, o traço mais marcante talvez seja o desapego a sua própria importância na nossa história recente. Rey não é saudosista”, acredita o diretor Sbrana.

“Não que seja modesto. Pelo contrário, ele sabe que é dos melhores. Bem humorado, costuma dizer que logo ganhará o Nobel de Literatura, o primeiro do Brasil, basta que alguém o indique. Gosta mesmo é de falar de seus novos projetos”, continua o diretor. Ao contrário de Reynaldo, não acostumado a fazer referência aos próprios feitos do passado, impossível não lembrá-los – e talvez exaltá-los –, vez que delineiam a trajetória de um dos melhores e mais importantes artistas brasileiros de nossa época.

reynaldo jardim profano sagrado © Pedro Oliveira


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