1994 - o último grande ano do bom cinema pop

A originalidade e ousadia das produções de 1994 causam nostalgia aos amantes dos blockbusters. Por que a indústria cinematográfica entrou em crise e nos prendeu a um labirinto de repetições, explosões gratuitas e diversão superficial?


cinema pop

O mundo pop ainda se recuperava dos abalos causados por Jurassic Park e A Lista de Schindler – foram 10 Oscars para a equipe de Spielberg – quando outra onda de admiráveis blockbusters encheu as salas de cinema. Estamos falando de superproduções como Forrest Gump, Um Sonho de Liberdade/Os Condenados de Shawshank e Pulp Fiction, que, juntos, renderam em torno de um bilhão de dólares só nas bilheteiras.

Gerando um saldo positivo de críticas e merecendo adjetivos que beiram o superlativo, os filmes do ano de 1994 foram um marco para a história do cinema. Estão inclusos nas mais diversas top lists mundo afora e são aplaudidos até por fãs de cult movies que têm arrepios face à maioria das superproduções. Cinematograficamente falando, o ano esbanjou uma combinação hoje quase extinta: originalidade, dinheiro e ousadia.

Há filmes que conseguem marcar um verão, um ano e até uma década, mas o ano de 1994 foi memorável para o cinema numa escala mais alargada. Víamos, por exemplo, um dos pontos altos da carreira de Kieslowski: A Fraternidade é Vermelha/Três Cores: Vermelho fechava a Trilogia das Cores e marcava um dos maiores anos do cinema francês recente. Outros países também tiveram grandes representantes com orçamentos altos e rentabilidade notável: Cuba, México e Espanha lançaram Morango e Chocolate; Itália, O Carteiro e o Poeta/O Carteiro de Pablo Neruda; e Inglaterra, o divertidíssimo Quatro Casamentos e Um Funeral.

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Hoje, diagnostica-se o cinema de massas como perdido em um loop de repetições e falta de criatividade, pois o risco de fracasso de cada produção é iminente. Sofremos com reverberações de uma grande crise causada por fatores como o aumento do preço dos bilhetes, o vazamento de obras na internet e a pirataria. Tudo isso prejudica a rentabilidade de uma produção maior, quebrando, assim, um ciclo de sustentabilidade vital para a indústria. Nota-se, então, um declínio alarmante do número de ocupantes das poltronas das salas de projeção desde o início dos anos 2000. Para reverter tal debandagem, houve uma mudança na forma de produção dos blockbusters. Estes não seduzem mais pelo enredo, mas por características técnicas e estratégias de marketing. Avatar é a última grande prova de que investe-se cada vez mais em efeitos especiais e tecnologia, como a 3D, que valorizam a tela grande e não causariam tanto impacto se vistos na televisão da sala de estar ou na tela do computador.

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Por outro lado, a venda de cópias em DVD/Blu-Ray é um mercado em ascensão. Apenas ¼ da renda total de um filme vem das bilheterias; os outros ¾ são exclusivamente da venda de cópias para uso doméstico ou locativo e a repercussão na tela grande passou a ser apenas um indicador quantitativo para determinar a produção de discos. Por isso investe-se tanto em fórmulas prontas que já entram em cartaz, a fim de conquistar um sucesso mediano, porém certeiro. E não precisa passar disso: conseguindo uma aceitação razoável do público, é comum duplicar, triplicar ou quadruplicar a rentabilidade de uma franquia através de continuações fadadas à mesmice e que não acrescentam nada à trama original. Sem contar as fusões excêntricas, no estilo Alien x Predador.

Podemos notar também uma exaustiva exploração de personagens e histórias surgidas nos quadrinhos (banda desenhada, em Portugal) e nos bestsellers, que já possuem enredos e personagens conhecidos pelo público. Cerca de 70 obras de Stephen King, por exemplo, ganharam adaptações para o cinema. Algumas foram convertidas com excelência, mas a maioria não ultrapassou a barreira da mediocridade.

Há quem diga que a falta de investimento em grandes produções de risco incentiva diretamente a produção de filmes de baixo orçamento, mas que atraem o público pelo enredo. Temos como exemplo Guerra ao Terror/Estado de Guerra, que custou US$11 milhões e ganhou 6 Oscars, incluindo as cobiçadas categorias de Melhor Filme e Melhor Direção/Realização. Mas filmes bons e baratos assim ainda não seduziram todo o tipo de público. Afinal, Estado de Guerra arrecadou apenas US$25 milhões.

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Muitos frequentadores das salas de cinema ainda preferem explosões gratuitas e diversão superficial. Uns, contentes com repetições de velhas e ultrapassadas receitas que relembram os anos de ouro; outros, com esperança de um lançamento ao nível de Ed Wood, O Rei Leão, A Casa dos Espíritos e Assassinos por Natureza/Assassinos Natos. Para os nostálgicos, segue o diálogo inicial de Pulp Fiction com os atores Samuel L. Jackson e John Travolta e seus americanizados personagens Jules e Vincent:

VINCENT [...] Mas sabe o que é mais curioso na Europa? JULES O quê? VINCENT São as pequenas diferenças. Muitas coisas que a gente tem aqui, eles têm lá, mas lá são um pouquinho diferentes. JULES Exemplo? VINCENT Bem, em Amsterdam, você pode comprar uma cerveja no cinema. E eu não estou falando de copos de plásticos, estou falando de copos de vidro! Em Paris, você pode pedir uma cerveja no McDonald’s... E você sabe como eles chamam o Quarteirão com Queijo em Paris? JULES Eles não chamam de Quarteirão com Queijo? VINCENT Não. Chamam de Royale with Cheese. JULES Royale with Cheese... Hum, e como eles chamam o Big Mac? VINCENT Big Mac é Big Mac, mas eles alteraram para Le Big Mac. JULES Le Big Mac (risada). Como eles chamam o Whooper? VINCENT Não sei. Não fui no Burger King. Mas você sabe o que eles põem nas batatas fritas na Holanda em vez do ketchup? JULES O quê? VINCENT Maionese. JULES Minha nossa! VINCENT É sério, eu vi. E não falo de um pouquinho no cantinho do prato! Eles afogam a porra da batatinha naquela merda! JULES Uuccch!

Fonte das imagens: 1, 2, 3, 4, 5.


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