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fotografias de um passado distante - império russo

publicado em fotografia por | 18 comentários

Há 100 anos, um mundo cinza colide com o antigo Império Russo retratado em cores. Por meio de suas fotografias, um homem abre janelas coloridas para um passado distante.

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Girl with strawberries. Russian Empire

Quando penso no passado, penso em cinza. Talvez o faça parecer mais genuíno, partindo do pressuposto de que o passado é retratado sempre em preto e branco, seja nos livros de história, em nossa memória ou em fotos dos velhos álbuns empoeirados dos nossos avôs.

Porém, um homem – extremamente artístico – obteve sucesso ao retratar o antigo Império Russo, há 100 anos, em fotografias coloridas. As fotos foram feitas antes da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa, ou seja, uma época em que os estudos para a fotografia colorida ainda estavam em andamento, com algumas tentativas não muito bem sucedidas. Esse homem foi o russo Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii.

Sua técnica não era tão complexa quanto seu nome, porém inovadora para a época. Ele tirava três fotos – preto e branco – da mesma cena e em seqüência, mas com um filtro vermelho, outro azul e outro verde na frente da lente. Por meio de lâminas com três lâmpadas com cores idênticas às dos filtros, conseguia o efeito de uma composição colorida.

Apesar de cumprir seu objetivo, a técnica não era tão eficaz. Um dos problemas encontrados pelo fotógrafo era a necessidade de que toda a cena fosse completamente estática, ou a foto passaria a ter borrões, como podemos verificar em alguns resultados.

Suas fotografias foram tiradas entre os anos de 1907 e 1915 quando Sergei viajou sua terra natal para realizar um documentário fotográfico, aproveitando-se dos avanços tecnológicos na área. Seu projeto era retratar o antigo Império Russo – seus lugares e personagens. Ele não somente foi autorizado pelo Tsar Nicholas II, como recebeu todo o apoio necessário para a realização de seu trabalho. Sergei ganhou um carro devidamente equipado com o qual percorreria o país em suas viagens históricas.

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Sixty-six years of service. Supervisor of Chernigov floodgate. Russian Empire

Nascido em 1863, em Muron, território hoje conhecido como Vladimir Oblast, o fotógrafo veio de uma família nobre, com um extenso histórico militar. Mais tarde foi para São Petersburgo e matriculou-se no Instituto de Tecnologia para estudar química.
Dedicou toda a sua vida em prol dos avanços da fotografia. Além de seu trabalho como fotógrafo e pesquisador, também deu aulas sobre sua “projeção óptica colorida”, dando vazão ao seu conhecimento para educar crianças acerca do grande Império Russo.

Mas Sergei consegue mais do que um projeto fotográfico, com uma interessante técnica a favor da fotografia colorida – a qual vingaria somente na década de 30. Ele consegue carregar nos ombros o privilégio de ter sido o único a retratar igrejas e mosteiros que foram destruídos na Revolução Russa, além de fotografar a vida dos trabalhadores das fábricas e do campo. Suas imagens exclusivas, de uma Rússia pré-Revolução, foram compradas pela Biblioteca do Congresso em 1948, a partir dos seus herdeiros.

Seu acervo conserva um passado diferente daqueles que estamos habituados a ver. O passado de Sergei tem mais vida. Ele deu cores a momentos, pessoas e lugares que veríamos somente em cinza.
O que há de mais belo em seu trabalho é a imperfeição. Algumas fotografias chamam a atenção por serem “sejas”, dando um certo desconforto visual. É a técnica em seu momento mais cru. Uma fotografia que conserva suas cores com uma visível luta.
Ao contemplarmos um trabalho de tamanha competência, mesmo com tantas dificuldades para ser executado, é possível sentir gratidão pela inusitada e interessantíssima experiência visual. Pelo impacto de poder observar um passado tão distante em cores.

A impressão que tenho sobre Sergei não é de um homem que fez tudo o que fez pura e simplesmente por amor à arte de fotografar. Tenho comigo que Sergei fez tudo o que fez por amor à história de uma terra que ele amava. E, ansiosamente, queria retratá-la da maneira mais fiel que conseguisse. E conseguiu. Deu à história outros olhares. Deu ao seu país uma outra visão de uma época perdida. Deu ao futuro um passado, colorido.

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View of Novaia Ladoga. Russian Empire

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Ostrechiny. Study. Russian Empire

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Crew of the steamship "Sheksna" of the M.P.S. [Ministry of Communication and Transportation]. Russian Empire

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Assumption of the Mother of God Church in Deviatiny (200 years old). Russian Empire

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Peasant girls. Russian Empire

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Head study

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Group of railroad construction participants. Russian Empire

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Ufa. Mezhgore. Russian Empire

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Sukhumi. General view of city and bay from Cherniavskii Mountain. Russian Empire

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Mullahs in mosque. Aziziia. Batum. Russian Empire

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Emir of Bukhara. Bukhara. Russian Empire

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Isfandiyar, Khan of the Russian protectorate of Khorezm(Khiva), full-length portrait, seated outdoors. Russian Empire

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Western part of Tiflis. Russian Empire

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Mozhaisk Nikolaevskii Cathedral. A side view. Russian Empire

Todas as imagens publicadas com autorização da biblioteca do congresso

 

rejane borges gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros. Saiba como fazer parte da obvious.

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Alexandra Cordeiro

Belíssimas fotos. Gostava muito de pintar um quadro baseado numa deles mas julgo não ser possível.
Obrigada por nos oferecerem fotos magníficas.

A maior colecção de Autochromes está exposta em Paris no Museu Albert Kahn e existe um livro/catálogo sobre essa colecção disponível.

brutal!

bjr

Pessoalmente, achei o artigo extraordinário. Ter a oportunidade de observar o passado através de uma janela colorida é fascinante. Na minha cabeça, o passado sempre foi desprovido de cor... observa-lo de outra forma, foi compreender que a evolução do mundo foi lenta em alguns aspectos; foi compreender que as pessoas, afinal, são quase semelhantes a nós.

João

Pois é bjr, tive a mesma sensação... além disso, nas fotos em preto e branco a impressão que tenho é que a vida no passado era pesada e extremamente sofrida, mas essas fotos coloridas me deram a sensação de uma vida bem mais leve e harmônica...
Muito interessante a influência desse trabalho sobre a maneira na qual podemos nos perder em julgamentos sobre aquilo que observamos!!

Cesar

Fotografias "sejas"? Não seriam "sujas"?

Cesar....sim, seriam "sujas". Erro meu. Até demorou para alguém comentar ;)

Que lindas! E veio bem a calhar pro meu projeto de pesquisa ;)

Eliana Ribeiro

Agradeço a articulista pelo texto claro e leve de um assunto que não pertence à rotina de muita gente, mas que acaba interessando a todos, mesmo os que não estão familiarizados com o gênero fotografias. As fotos são magníficas e nos impulsionam a ler o texto. Parabéns!

vania

Texto rico de informações mas com um toque impressionante de sensibilidade..... SENSACIONAL

Louis

Parabéns, Rejane. Foram artigos como este que me tornaram frequentador assíduo do Obvious. Já estava sentindo falta de artigos com essa qualidade. :)

Ana Ferreira

Fantasticas fotos! É uma pena que nao haja registos fotograficos coloridos em quantidade, pois a cor é um elemento expressivo mto importante e mais que isso, simbolo de cultura tradicional. è uma pena perder-se isso...

Magnífico muito obrigado rejane borges seu artigo é simplesmente magnífico, muito obrigado por esse presente.

Luiza Lopes

Estas fotografias tem o encanto mistico muito próprio,(segundo a minha opinião), daquela região
Infelizmente continuão os contrastes é uma zona muito desfavorecida. O contraste entre as cores da natureza e os tecidos das roupas fazem com que se tornem encantadoras,magnificas. E até aquelas camponesas, tem ummmmm ar de inocência.
Adorei.

Tarcisio

Bonitas imagens de uma nação onde se pode extrair, da miséria e da ostentação (do czarismo ao "marxismo") uma aprimorada e curiosa estétca. Hoje, vê-se uma nação rastejando para sair da decadência em que mergulhou.

larissa

achei sensacional!
fiquei contente por ter voltado ao obvious depois de um tempo e ter me deparado com um artigo tão interessante.

Nelson Fernandes

Nossa!!! Absolutamente fantástico. Na minha memória o passado é em preto e branco e acelerado. São imagens que mudaram a percepção do passado.

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