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o chimarrão: delícias e lirismos do sabor gaudério

publicado em recortes por | 19 comentários

Bebida comunitária, bebida obrigatória, ritual, símbolo tradicional representante de uma cultura muito especial, tanto indígena quanto europeu. Através del mate, do chimarrão, podemos conhecer melhor quem são, como vivem e que imaginário é este, tão selvagem e livre, que vive ainda hoje nos povos da antiga bacia do Prata.

chimarrao

Amargo doce que eu sorvo / Num beijo em lábios de prata. /Tens o perfume da mata/ Molhada pelo sereno. /E a cuia, seio moreno,/ Que passa de mão em mão/ Traduz, no meu chimarrão,/Em sua simplicidade, / A velha hospitalidade / Da gente do meu rincão.

Ritual para dentro, da solidão; ritual para fora, da solidariedade. Assim o define Fabrício Carpinejar - e este nem é um de seus poemas. Carpinejar é de Caxias do Sul e falando assim do chimarrão reúne as duas coisas necessárias para falar do assunto: autoridade gauchesca e lirismo. Bebida comunitária, símbolo tradicional, reunião de tão diversos povos de tão diversas fronteiras, gerações, origens, canções e saudades. Está na infusão da erva mate que passa de mão em mão o relance de um universo inteiro onde a natureza parece mais perto.

A palavra marron em português quer dizer, entre outras coisas, clandestino. No castelhano, cimarrón, em significado empregado do México ao Prata, significa chucro, bruto, bárbaro e serve para designar animais domesticados que, após fugirem, se tornam selvagens. A última analogia é certeira e diz daquele enunciado: um ritual para dentro, da solidão. O gosto amargo, o cheiro, o ato de sugar a infusão. De repente se está só, como um detetive de filme dos anos 50 está só com a fumaça de seu cigarro em preto e branco, mas, ao invés de comungar a cidade, comunga-se o verde e o mato.

A bebida é indígena e você descobre que ficar perto assim da terra é aconchegante.

chimarrao

Foi pelo início do século XIX, no contato com os guaranis naturais do atual Paraguai, que os aventureiros europeus deram com o chimarrão. Os nativos desta região possuíam o costume de acocorar-se em roda para partilhar a infusão de uma erva seca, cortada e moída; chamavam-na de ka'ay, erva de água (para a botânica atual, Ilex Paraguaiensis). Deve ter sido como desejava Oswald de Andrade naquele poema Quando o português chegou / Debaixo duma baita chuva / Vestiu o Índio / Que pena! Fosse uma manhã de sol / O Índio tinha despido/ o português. E o índio despiu não só o português, mas o espanhol, o germânico, o africano e, quiçá, o arábico, que migraria mais tarde para aquela região. Hoje, mais do que um hábito largamente difundido, o mate é profundo signo cultural da Argentina, do Uruguai, do Paraguai e de regiões ao sul do Brasil.

Embora não seja tão formal quanto um chá chinês, o ato do chimarrão, sendo um ritual, possui seus cerimoniais: a infusão deve ser preparada pelo dono ou chefe da casa e é este o primeiro a tomar da cuia. Isto é visto por muitos como um sinal de hierarquia, mas, na verdade, ninguém mais altruísta do que aquele que prepara o chimarrão: afinal, a primeira cuia é também a mais amarga. Ao terminar, ele deve preencher novamente o recipiente com água e passar para as mãos do próximo na roda. Assim, o companheiro ao lado sempre beberá a cuia mais agradável recebida de mãos amigas. Este é o ritual para fora, da solidariedade. Atenção: não passe a cuia adiante sem antes tê-la feito roncar (é um ruído parecido com o final de um milkshake), pois tal ato é muito mal visto. E a cuia sempre deve ser transmitida adiante com a mão direita. Coisas da tradição!

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Ilex Paraguaiensis em seu meio natural.

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Casa da Erva-Mate em Bento Gonçalves, RS. Construída em um antigo moinho, a ervateira mantem uma produção artesanal e oferece degustações aos visitantes.

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Cultivo comercial da erva-mate na ervateira Establecimiento Las Marías. Corrientes, Argentina.

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Preparar – e tomar – o mate pode parecer uma tarefa difícil, mas é questão de prática. Ser do sul, bailar o vaneirão ou ser amante de tango é opcional. No vídeo abaixo você vai aprender como preparar essa infusão que, como se não bastasse, é um excelente estimulante e faz bem à saúde. Tendo uma cuia, erva, água quente (não fervente!) e uma garrafa térmica, já se está apto a beneficiar, além de apaixonar-se, por este momento tão saboroso e gaudério.

Epílogo
Não sou do Sul. Lá, eles têm uma música que canta: "eu sou do Sul/ é só olhar para ver que eu sou do Sul" - então, basta olhar para ver que posso ser de qualquer lugar fluminense que meu sotaque de erres pode acusar. No Rio de Janeiro, o chimarrão se chama cerveja e a sexta-feira é uma instituição, uma provocante necessidade de se fartar com geladas, amigos e algum petisco gorduroso sobre a mesa. É incomum este meu gosto, essa paixão por el mate, mas ela se explica: começou numa amizade eterna com a menor e mais chucra das mulheres de São Borja e se amarrou de vez quando descobri que não dava mais certo isso de não viver sob o mesmo telhado do meu rapaz catarinense. Foi assim, em mais uma das nossas despedida, que comprei a primeira cuia, na beira da estrada, tão besta quanto alcolizada, chorando entre as paragens sulistas e o Rio de Janeiro. Depois, eu iria pendurar na varanda da que hoje é a nossa casa, feito uma bandeira pirata, a camisa do Joinville Futebol Clube; os vizinhos nos odeiam, nos acham muito estrangeiros. Boi que foge do rebanho e se torna selvagem, andar por aí pouco fronteiriça no amor.

Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4, 5, 6.

prill
Sobre a autora: priscilla santos é adoradora de cervejas e colabora com o obvious. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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sao

belo texto, pri. fiquei com vontade de provar essa mistela :)

curiosidade:
GALDÉRIO/A, com L, em português de portugal, quer dizer vadio/a;
também existe o verbo GALDERIAR, que quer dizer levar vida de vadio.

Torrone

É só olhar para ver que eu sou do sul!

"chimarrão" fez-me logo lembrar quantidades imensas de carne à descrição...

ainda bem que tem outro significado :D

Fabio Henrique

Não gosto do chimarrão, mas já provei bastante.
As duas primeiras fotos são excelentes.

Neanderthal

Só evolui aquele que se apossa da modernidade e da tecnologia, sem abandonar suas tradições. Seja de onde for, das estepes russas, do Minho, ou da Madeira, das planícies do oeste americano, da Floresta Negra ou dos Alpes, do interior da mãe África, do sertão brasileiro ou dos pampas do sul. A inclusão do estrangeiro colonizador às tradições centenárias só comprova que somos apenas uma só raça, de espécies várias.

Putz, achei que ia conseguir me manter longe destes chatos gaudérios e suas estorinhas farroupilhas sem graça e sem teor histórico. Nem aqui me deixam em paz....

Miguel

excelente artigo! li-o com prazer, é fluido, emocionado. mmmmmm... confesso que a coisa tem um aspecto esquisito mas estes rituais de tão rico país dão-me vontade de dar um salto transatlântico. tenho uns amigos no rio. um dia vou mesmo! abraço

Lindo teu artigo guria!
Sou gaúcha e pra mim o chimarrão é tão obrigatório no frio quanto a carioca cervejinha da sexta no calor.
Sozinha ou bem acompanha ambos sempre caem bem!
E pra me despedir no mais alto gauchês te deixo um quebra costela amigo!

Realmente é uma das maravilhas do sul deste Brasil!

www.brambillaeperalesadvogados.adv.br

adriana

O chimarrão faz bem para a saúde e para a alma. Também eu, é só olhar, que vai ver que sou do sul!

Matheus

Perfeito Priscilla. Inicialmente pensei que tu eras destes pagos, mas me surpreendi ao ler que não. Parabéns pelo belo texto (e fotos) e pelo custume de matear. Para mim o mate é o que abre as manhãs e encerra as tardes. Fiel companheiros de madrugadas pacholentas. O olhar perdido no horizonte e também a conversa cruzada numa roda de amigos. Impossível viver sem!

Enéas

Parabéns pelo artigo!
Foste fiel e com muita propriedade.
É um prazer ver nossas tradições por outros olhos.

Amar a pátria e as tradições fazem parte da nossa identidade. Experimentem!

gilmar

Parte de um poema de Carpinejar? Ora, isto é chupado do grande poeta regionalista Jaime Caetano Braun.

antônio neto

o brasil é um país maravilhoso. que outro conjunto de pontos, longitudes, latitudes compartilham tamanha diversidade cultural? o brasil é o sexo mais gostoso do universo. para cada lugar que se olha, que se vai e que descobre é uma nova experiência. norte, sul, leste e oeste têm riquezas aos montes. é só parar e degustar. não sou do sul. mas é só olhar a guria tri-legal da primeira foto pra se dizer: mas ba-tchê, que guria tri-legal! viva o sul, viva o norte, viva leste e oeste, sem esquecer do meu centro-oeste. amém.

Airton

Gilmar, a Priscila escreveu: "Assim o define Fabrício Carpinejar - e este nem é um de seus poemas."
Estás errado também quando dizes que o poema é de Jaime Caetano Braun (grande poeta/compositor).
O poema é de Glauco Saraiva.
O texto é irretocável. Parabéns.

Fábio Toledo

O Chimarrão não só conquistou os diversos povos que povoaram a América do Sul mas também está conquistando o mundo, principalmente o "Oriente Médio" e o "Extremo Oriente" e eu que sou paulista não poderia ficar de fora...
Realmente é uma dádiva divina como já diziam os guaranis...

Paulo Césarf

significado de gaudério:
(Regionalismo, Brasil, Rio Grande do Sul)
gaúcho
indivíduo sem ocupação que acompanha outro;
vadio
patuscada; brincadeira;
gáudio
cão sem dono.
Como se lê existem vários significados para a palavra gaudério e aliás se o sr "SAO" interpretasse o texto saberia onde se encaixa o titulo do texto. Já pensou escutar a música "regional" interpretada por Cézar Oliveira e Rogério Mello. ah, eu também sou do sul

Sérgio Severo

Olá priscila, meus parabéns pela reportagem, lamentavelmente, se manifestou um idiota sem identidade, sem história, sem raizes, sem cultura, sem berço e nem pedigree, e certamente tem ódio dos gaúchos por não poder ser um, um forte abrço a todos os aqueles que se manifestaram de maneira respeitosa aos gaúchos e sua cultura.

Paulo Marchesini

Não sou gaúcho mas sou apreciador de tudo o que é bom. Há mais de 40 anos adotei o mate na minha lista das coisas gostosas da vida.
A cada dia "sorvo" em torno de 1 a 1,5 litro desse amargo delicioso que além de fazer bem para a saúde, me ajuda a me manter esperto e cada vez mais liso e inteligente. Agradeço ao povo que descobriu essa delícia e teve a bondade de compartilhar com o resto do país.
Um grande abraço a todo o povo gaúcho que na minha humilde opinião é o único que traz do sangue uma tradição de tantas eras.

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