Sheela na gig - esculturas eróticas nas igrejas românicas

Há várias interpretações acerca do que são as "sheela na gigs" – esculturas em pedra de mulheres exibindo suas partes íntimas, expostas nas igrejas medievais. Os estudos feitos por pesquisadores das insólitas figuras são fundamentados em diferentes teorias. As "sheela na gigs" são um dos muitos enigmas de uma época cheia de mistérios.


Sheela na gig escultura erotismo

O filósofo grego Plutarco (46 a 126 d.C) já dizia que os homens enxergavam a vagina de uma mulher como a própria redenção. A solução de muitos dos seus problemas. E não somente os sexuais. Os homens do primeiro século resolviam, ou acreditavam resolver, algumas situações apenas expondo a genitália feminina. Acreditavam que por esta inusitada tática adquiriam boa sorte, além do poder de expulsar demônios, de espantar algum mal iminente ou fazer com que leões e ursos corressem sem agredi-los. Acreditavam que diante de uma vagina exposta tornavam-se melhores guerreiros, melhores homens. Acreditavam, enfim, que diante de qualquer adversidade, levantar as saias de uma mulher era a melhor opção. O ato concedia-lhes poder e segurança. A crendice passou por várias gerações e existiu, em algumas culturas, até o século XVIII. De qualquer maneira, a exposição da vagina era bem interpretada em diversas situações. É neste contexto que, acredita-se, estão inseridas algumas das muitas teorias em torno das sheela na gigs.

Pouco se sabe sobre essas retratações eróticas. Geralmente, as sheela na gigs são mulheres de cócoras e nuas, separando os lábios de sua vulva em pose extremamente exibicionista. Encontram-se nas antigas igrejas românicas da Grã Bretanha, podendo ser vistas também na Espanha e na França. Elas adornavam também algumas construções seculares, inclusive castelos irlandeses.

São grotescas. Não pelo fato de insinuarem sexualidade, ou libertinagem, mas sim porque são realmente feias e incomodativas. Normalmente, as sheela na gigs são associadas a bruxas ou velhas. A expressão de algumas esculturas é assustadora, com certa deformação facial, ou um sorriso demente, dando uma sensação desconfortável para quem as observa.

Em 1977 foi lançado o primeiro livro sobre as sheela na gigs, intitulado “The Witch on the Wall” (A Bruxa na Parede) pelo pesquisador Jørgen Andersen, o qual acredita que elas foram esculpidas entre os séculos XI e XII. Apesar de serem encontradas em outros países, é na Irlanda que as figuras predominam. Segundo o “Guia Ilustrado – A Divina Bruxa dos Celtas Cristãos”, de Joanne McMahon e Jack Roberts, existem cerca de 100 modelos dessas exóticas figuras somente na Irlanda, contra 45 em toda a Grã Bretanha. Com o passar do tempo, a maioria das esculturas foram removidas pelos puritanos, que as consideravam obscenas e indecentes.

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Existem diferentes teorias acerca do que as sheela na gigs representavam e o motivo de suas formas estarem desprovidas de sentido estético. Mesmo depois de alguns estudos mais aprofundados sobre essas imagens, os principais pesquisadores não chegaram a um consenso.

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Existe a linha teórica de que eram talhadas para afastar a morte e o mal. Normalmente, eram colocadas em cima das portas e janelas para que pudessem proteger essas aberturas dos espíritos ruins. Entretanto, de acordo com outra linha teórica, também é muito provável que as imagens representassem o pecado da luxúria. Dessa forma, sugeriam que os desejos sexuais corrompiam o espírito. Àquela época, funcionariam como um aviso aos homens mais interessados em explorar a sensualidade feminina – o que era considerado um pecado hediondo.

Outra teoria diz que que as imagens poderiam fazer alusão à fertilidade em uma época pré-cristã, pois, como símbolo da fertilidade, a vagina de uma mulher sempre foi muito celebrada. Outra teoria, ainda, é de que as sheela na gigs eram ídolos pagãos. Essa teoria é a mais válida até hoje em algumas partes da Irlanda.

O nome surge de uma antiga expressão irlandesa que significa “a bruxa velha das mamas”. Mas alguns pesquisadores questionam essa versão, já que raramente as sheela na gigs exibem os seios, além de haver dúvidas sobre a conexão lingüística.

A acadêmica Barbara Freitag, que escreveu o livro “Sheela na gig – esclarecendo um enigma” aponta referências que talvez expliquem a etimologia do nome, como um navio da Marinha Britânica chamado “Sheela na gig” e uma dança do mesmo nome, que existiu por volta de 1700. Mesmo com essas referências, os principais pesquisadores não aceitam que o nome tenha surgido de forma arbitrária.

De qualquer maneira, as sheela na gigs nos trazem uma pequena noção de como a sexualidade da mulher era tratada por algumas culturas. Ora interpretada como sorte - por uma sociedade que lhe concedia poder e controle sobre os seres; ora interpretada como praga - por uma sociedade que execrava os desejos femininos e amaldiçoava quem ousasse saciá-los. Seja como for, a sexualidade feminina jamais foi interpretada como natural, sendo necessário, sempre, justificar sua existência e suas implicações, boas ou ruins.

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Fontes das imagens: 1, 2, 3.


rejane borges

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