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A vida segundo Dolores

publicado em recortes por | 4 comentários

Dolores busca um sentido para a sua existência na luta diária, juntando o excesso material que os moradores da cidade largam pelas ruas na primavera, reconstruindo assim a sua casa. Lar dos seus filhos. Para Dolores, vida e morte caminham juntas, sem mistério. Tão reais quanto um sentimento, um sorriso ou a falta de comida na mesa.

vida Dolores
"Parade", Peter Blake (2007). (Detalhe.)

Na primavera, as ruas da cidade se transformam num grande bazar. Há cadeiras de todos os tipos, para todos os gostos. Sofás aos montes e eles vão embora rapidamente, na maioria das vezes não chegam a esquentar a calçada. Objetos e enfeites banais, carrinhos de neném, geralmente surrados e tristes, vão também. Um ou outro brinquedo espalhafatoso e colorido, e flores de plástico que formam um arco-íris artificial inesperado, promessa de um amanhã melhor. Sacos de lixo pretos acumulam na beira da rua e as pessoas os levam mesmo assim, no escuro. Quadros e pinturas sem molduras, despidas. As pessoas passam e olham para tudo aquilo com desdém. A menina de olhar inquieto caminha pela montanha de bens rejeitados e tira uma foto com o seu celular 16GB. Em seguida a envia para a sua página pessoal sob o título "O lixo na sociedade atual". Dolores, que caminha todos os dias por ali com o carrinho de compras, e que portanto conhece cada vereda daquele lugar, não tem tempo para fotografar. Está ali por uma questão maior, sobrevivência. E sacode seus entulhos para abrir mais espaço para as latas de refrigerante que ela troca por dinheiro, um saco preto e uma cadeira de ferro vermelha dobrável. Ao menos vai poder jantar sentada.

A sopa quente escorre pelo canto da boca e Dolores limpa com a barra da camiseta 100% algodão, feita na China, que ela pegou na semana anterior, em seguida leva a vasilha até a boca. A mesma vasilha que ela usa para tomar água enquanto anda pelo bazar informal. Uma caminhonete estaciona e de dentro dela saltam dois jovens robustos. Uma moça grávida aponta, de dentro da caminhonete, para o carrinho de bebê e o quadro da Nossa Senhora com o menino Jesus no colo sem moldura. Os rapazes trazem tudo para dentro, fecham a porta e, com a janela do veículo escancarada, acompanham Dolores com os olhos. O quadro da Virgem mal acomodado no banco traseiro despede-se de Dolores e lhe causa um incomodo. “E se não acreditarmos em Deus?”. A sopa acaba e ela passa um pedaço de papel para limpar o que ficou no fundo. Levanta-se com dificuldade e segue em frente. Uma senhora de meia idade muito bem arrumada deixa uma sacola cheia de roupa bon chic bon genre, e leva da montanha de coisas acumuladas na calçada um abajur minimalista, dizendo para si mesma: "pouco é muito, pouco é muito, pouco é muito". Dolores, sem fazer cerimônia, pega a sacola de roupas que a senhora deixou. Pensa em dar para a filha mais velha.

vida dolores
"Dingoes That Park Their Brains With Their Gum", Jean-Michel Basquiat.

O corpo vai se cansando com o passar do tempo. Uma garoa fina começa a descer e a pega de surpresa. Desta vez ela não encontrou uma sombrinha sequer e teve de amarrar na cabeça uma sacola de supermercado, feito lenço. Havia uma família inteira se aproximando do bazar. Homem, mulher, duas meninas e um menino. Dolores entendeu que era hora de ir para casa, de dar espaço para o outro. O seu carrinho tem o peso de um elefante e ela o empurra devagar, com o pensamento nos filhos que ficaram sozinhos. O sinaleiro abre para os carros, mas ela não enxerga nenhum. Parece mesmo que a visão tem vida útil. Dá um passo, dois, e assim atravessa a rua com a garoa que umedece os lábios. Aconteceu no segundo em que pensava ser insubstituível. O carro deslizou na curva e a jogou com o carrinho e tudo para perto da calçada. O barulho que o impacto causou imobilizou os que caminhavam por perto e que, um a um, foram se aproximando até que se tornou impossível morrer com dignidade.

O entregador da pizzaria do outro lado da rua viu toda a cena e ligou para a polícia. Discou errado duas vezes só acertando na terceira. A viatura demorou para chegar criando muita tensão no ar. Estava escurecendo e aos poucos as pessoas tomavam cada uma o seu rumo, deixando Dolores caída sozinha. O conteúdo do carrinho a essa altura estava todo molhado, só se salvando aquilo que guardava dentro do saco de lixo preto. Um homem de terno e gravata puxou o carrinho para a calçada e olhou curioso para o que estava dentro dele. Dolores não viu nada disso, apenas tentou se comunicar com os policiais que não entendiam o que ela dizia com sofrimento. E o que ela queria, o que ela tentava dizer é que a vida não estava contida apenas naquela pilha de objetos largados que ela tinha recolhido com cuidado para levar para casa, nem na fotografia ou na gentileza curiosa dos passantes. Ou ainda no mistério e incerteza que a permeia, mas no sentido que atribui-se a ela. A vida. Quando a ambulância chegou ela já não respirava mais, aceitando a morte, simplesmente porque é assim.

vida Dolores
"On the Balcony", Peter Blake (1955-7).

Fontes das imagens: 1, 2, 3.

 

isabella kantek nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações. Saiba como fazer parte da obvious.

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ivana rowena

A vida é absolutamente efêmera! Podemos estar vivos num momento e no outro, a morte nos leva, tal como Dolores.
Esta realidade é tão difícil de aceitar que, para sobreviver a negamos. Vivemos na maior parte do tempo com a mente no passado ou no futuro. Dificilmente, paramos para apreciar o hoje, o aqui e agora, o momento. Este olhar é que levou o brasileiro Jarbas Agnelli a ser selecionado para a mostra YouTube Play Guggenheim 2010, entre 23 mil inscritos. Ele simplesmente viu uma pauta musical na forma com que vários pássaros estavam pousados nas linhas de transmissão, algo tão corriqueiro em qualquer lugar.
Ivana Rowena

Ivana, o seu comentário me emocionou. Concordo com você. 
Acabei de assistir ao video do J. Agnelli na página do Guggenheim, coisa mais bonita... Ainda bem que temos a arte como paliativo, enquanto aprendemos a aceitar e a lidar com a morte.
Obrigada pelo comentário. :)  

Texto liiiiindo, sensível! Desperta em nós um sentimento misto de ternura e realismo.
Imagens lindas!
Sdoro este blog!
Bj! Tê!

Teresinha, muito obrigada pela gentileza. Volte sempre. :)

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