Bigodes, barbas e outras modas capilares

A moda da barba e do bigode continua em um ciclo incessante de idas e vindas. Muito mais do que modismos, estes visuais sempre pesaram consideravelmente na identidade social do homem, com suas diferentes inserções e significados com o passar do tempo



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Até há pouco tempo, bigode era coisa de galã de novela mexicana, de veteranos do Vietnã ou do ator - que jamais desistiu dele - Tom Selleck. De ninguém mais. Por um grande período foi considerado brega e extremamente antiquado, bem last week. A barba, por sua vez, também passou pelos infortúnios do preconceito: houve um período em que as empresas não permitiam que seus funcionários a usassem, pois isso lhes conferia um ar negligente e falta de profissionalismo. A barba ficou, então, com duas opções: enfeitar a cara de terroristas ou de hippies velhos.

Antes disso, no entanto, viveu seus dias de ouro. Representou inteligência, status e poder. O uso da barba e do bigode já teve diferentes significados, os quais revelavam o contexto sociocultural dos indivíduos que os assumiam.

Na Grécia antiga, por exemplo, usar barba era quase imprescindível entre os filósofos, pois ela era associada à sabedoria. Já na civilização romana, representava status político, além de potência sexual e criatividade. No começo do século 20, uma significativa parcela de profissionais acadêmicos e artistas adotaram o visual. No entanto, a barba, em suas diferentes significações, nem sempre era estereotipada.

Já o bigode (e nossos avôs contam a história com orgulho), há muitos anos, representava honra. Como prova da honestidade de um homem, e para que sua palavra valesse, tirava-se um fio do próprio bigode. Tal gesto valia, em um acordo, mais do que qualquer documento. Além disso, o homem que o ostentava era visto como perfeitamente capaz de desempenhar os papéis que lhe eram atribuídos, pois um homem de bigode pressupunha segurança, independência e sucesso. O bigode concedia uma posição de prosperidade sócio-econômica. Isso acontecia porque seu uso era quase obrigatório entre as personagens importantes e influentes naquele período, e dessa forma ele era associado à sofisticação.

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Ele ganhou um prestígio tão aristocrático que na França de 1870 até 1910 a sociedade tentou proibir o uso do bigode em profissionais considerados inferiores, como agentes ambulantes, criados e cocheiros - chamados trabalhadores domésticos.

A essa época, a forte relação que o visual barba/bigode tinha com o poder aquisitivo era intensa em quase todas as culturas. Além de um homem barbeado não denotar status social, permitia dúvidas acerca de sua virilidade, uma vez que se tornou comum pensar que homens barbeados eram indivíduos de costumes indecorosos, os quais, entre outras coisas, optavam pela prática homossexual.

O bigode veio mais tarde a ocupar um papel controverso. O que até certo período foi considerado símbolo de masculinidade torna-se, no final dos anos 70 e começo da década de 80, um visual adotado pela comunidade gay. Seu uso poderia, de fato, indicar homossexualidade. Imortalizado por Freddie Mercury, o estilo passou a ter características mais descontraídas, abreviando aquele ar austero dos homens que o usavam no começo do século. Nessa época, principalmente nos Estados Unidos, o bigode, barba e cavanhaque (chamado pêra, em Portugal) começaram a virar uma febre entre os homossexuais. Era a moda à Village People. O visual era tido como sexy e servia todos os gostos: pêlos longos, minimalistas, triangulares, arredondados, retos, avantajados ou ralos. Ganhava diferentes moldes e garantia muito estilo para quem o adotasse.

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Entretanto, os anos 90 baniram o uso da barba e do bigode em grande parte das cenas urbanas e, depois de uma longa política de “cara limpa”, parece que, principalmente o bigode, marca uma tímida volta às ruas. Tímida por causa de sua estética mais desafiadora do que a da barba.

Alguns estilistas atribuem essa volta ao cinema e entretenimento, visto que a tendência é seguir os passos das celebridades. Recentemente, George Clooney, Tom Cruise e Brad Pitt foram vistos ostentando barba e bigode. É o suficiente para surgir uma moda.

Nos Estados Unidos foi criado, em 2006, o “American Mustache Institute” (Instituto Americano do Bigode) para defender e apoiar seu uso. A organização sempre lutou para acabar com estigmas, assim como para promover as implicações e vantagens estilísticas e sociais para os adeptos. Entretanto, o bigode não volta às ruas por puro modismo ou irmandade. Também existe o patriotismo e as questões culturais. Na última Copa - África do Sul 2010 – Portugal tinha toda a torcida a apelar para a tradição, pedindo aos jogadores que adotassem o "verdadeiro visual português" e atuassem no Mundial com bigodes - um apelo com alguma ironia, mas também com nostalgia pelos bigodes que nos anos 70 e 80 eram adereço de tantos homens portugueses.

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Alguns dos grandes homens que conhecemos, do nosso ou de outros tempos, nunca abandonaram o estilo, cada qual com seus próprios motivos: falamos de homens da história, falamos de homens da atualidade. Falamos em Karl Marx, Albert Einstein, Da Vinci, Steven Spielberg, Peter Jackson, George Lucas, George Harrison, Clark Gable, Sean Connery, Shakespeare e tantas outras mentes que brilharam, de alguma maneira, à própria época. Barba ou bigode. Ou os dois juntos. Tanto faz.

Vaidade, cultura, crendices, poder, masculinidade, homossexualidade, politicagem, modismos, honra, tradição. Seja o que for, pêlos na cara denotam, acima de tudo, história, motivos, identidade. Não é somente a estética, mas a linguagem. A barba e o bigode fazem parte do conceito social que adquirimos e identificamos como masculino. A barba e o bigode, como adereços naturais, expõem o instinto animal de que naturalmente gozamos. E apesar de não haver consenso – há quem ache cafona, há quem ache que envelhece – o estilo, sem dúvida, empresta ao homem um ar maduro, além de sugerir personalidade. E o que pode ser mais charmoso do que isso? O que pode ser mais charmoso, afinal, do que uma barba bem aparada ou um estiloso bigode a preencher o cavanhaque? Porque não há nada mais excitante do que um homem sentir-se seguro de si em seu estado mais bruto.

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Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9.

rejane borges

gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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