Do panfleto para a web - breve história das campanhas presidenciais (Portugal)

O mítico cartaz político já não é o que era. Ao longo de cem anos, as imagens tornaram-se mais pessoais, os sorrisos mais abertos e a linguagem mais próxima dos eleitores. O cartaz político tornou-se até o parente sem graça de toda uma panóplia de ferramentas on-line que dinamizam a campanha política. Mas o que seria de um candidato sem o velhinho cartaz acompanhado do slogan seco e eficaz?


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Cem anos após a implantação da República em Portugal e em vésperas da segunda volta das presidenciais, no Brasil, as campanhas políticas presidenciais do século XXI assumem, cada vez mais, contornos muito diferentes dos míticos cartazes políticos de outrora. Em Portugal, onde as funções do presidente não implicam um programa de governo, tem sido a figura pessoal do candidato a protagonista desta evolução.

A geração Web 2.0 instalou-se em força no quotidiano mundial e grande parte das campanhas políticas, nomeadamente as presidenciais, passam agora por suportes virtuais. Websites, redes sociais, blogues. Todas estas ferramentas fazem parte dos kits de campanha dos vários candidatos, que os exploram para mostrar aos eleitores diversas vertentes de si próprios, aceitando a vontade pública de conhecer a vida pessoal dos políticos.

Porém, as campanhas políticas do século XXI são apenas o pico mais recente de uma evolução na propaganda que não deixou ninguém indiferente. O século XX, eternizado como o século do povo, viu de tudo um pouco em Portugal. Desde os panfletos minimalistas distribuídos pela Carbonária, sociedade secreta e revolucionária com um papel activo no regicídio de 1908 (o Rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados por dois atiradores da Carbonário num golpe que enfraqueceu a monarquia e levou à implantação da República, em 1910), até à propaganda do regime ditatorial do Estado Novo e aos cartazes no pós-25 de Abril, a revolução que pôs fim aos 48 anos de ditadura.

A revolução na propaganda política deu-se, contudo, num momento diferente. A criação da imagem-movimento política, tanto nos cinemas em formato de noticiário pré-filme como, mais tarde, com a disseminação da televisão, chegou aos eleitores com muito mais impacto do que qualquer imagem estática. Se o debate presidencial entre John F. Kennedy e Richard Nixon, em 1960, representa um marco do poder da imagem na decisão de eleições, também em Portugal a televisão ganhava um status especial para a política. Em 1969, o presidente do Conselho e efectivo decisor em Portugal, Marcello Caetano, estreou o programa televisivo Conversas em Família, na televisão pública RTP. O programa, já no declínio do Estado Novo, mostrava uma comunicação directa entre Caetano e os telespectadores, num tom professoral.

Mas, muito além das diferenças de suporte às campanhas políticas, a história da propaganda no século XX é também espelho da mudança de mentalidades e regime político. Depois da instável primeira república portuguesa, durante a qual se sucederam 45 governos e oito presidentes da República em apenas 16 anos, o Estado Novo traz ao prelo imagens típicas das ditaduras desse tempo, com temas recorrentes aos que também eram impressos em vários cartazes pela Europa.

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Não deixa de ser curioso o apelo ao voto na lista da União Nacional, já que este era o único partido político legalmente constituído, em 1930. Nas eleições de 1934, a União Nacional concorreu às eleições para a Assembleia Nacional em sistema de lista única, o que lhe deu a vitória. Os valores da pátria e a recordação dos tempos dos Descobrimentos, tidos como uma glória de Portugal, foram alguns dos elementos gráficos utilizados nas campanhas.

Além dos cartazes de propaganda ao partido do regime ditatorial e aos valores embandeirados do Estado Novo, as várias eleições presidenciais também se valeram da força da imagem. Por um lado, as campanhas dos candidatos do regime – figuras decorativas que acabavam, invariavelmente, por ser eleitas a par do sempre presente António Salazar, o verdadeiro detentor do poder – assentavam no ataque aos adversários e à oposição comunista, como foi o caso do material impresso para Américo Tomás.

Do lado da oposição, o General “Sem Medo” Humberto Delgado (candidato às eleições de 1958) ou o General Norton de Matos (fez campanha para as eleições de 1949, mas acabou por se retirar) são exemplos dos candidatos sem força para ganhar face à ditadura em vigor. Na mensagem política, as críticas ao sistema e à falta de transparência nos processos eleitorais são constantes. Na campanha de Norton de Matos nem faltaram as referências gráficas à propaganda política norte-americana da Segunda Guerra Mundial. “A República precisa de ti…Vota em Norton de Matos”, pode ler-se num dos cartazes de campanha.

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Com a Revolução dos Cravos, em 1974, o Estado Novo foi derrubado, trazendo a consequente liberdade eleitoral. À semelhança das mudanças sociais e políticas, os cartazes de campanha transfiguram-se e ganham mais cor, o cunho pessoal dos candidatos e slogans com apelos à modernidade e à juventude.

Desde então, os cartazes têm trazido candidatos sorridentes e afáveis, mas também preocupados com o futuro do país. A rima continuou a ser um recurso de slogan por várias décadas, mas o passar dos tempos começou a permitir novas linguagens e combinações gráficas. Mesmo assim, o sol sorridente com a frase “Soares é fixe”, na campanha do candidato socialista Mário Soares para as presidenciais de 1986 – as quais acabou por ganhar –, continua a ser uma das linhas gráficas menos ortodoxas do histórico português de propaganda.

Em termos de cor, Maria de Lourdes Pintassilgo traz o cor-de-rosa para a campanha. A única presença feminina no lugar de primeiro-ministro português, entre 1979 e 1980, candidatou-se às eleições presidenciais em 1986 e usou o rosa no material de campanha, tanto por ser a cor do Partido Socialista, como para sublinhar o facto de ser mulher.

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Já em 2001, por exemplo, o cartaz oficial do candidato social-democrata Ferreira do Amaral traz também uma inovação de conceito. Sobrepostas à face do político, inúmeras caras comuns trazem um sentimento de proximidade com os eleitores. O grafismo não trouxe, contudo, bons resultados, já que as eleições são ganhas pelo socialista Jorge Sampaio.

No geral, apesar de tudo, os políticos parecem seguir a filosofia futebolística: “em equipa vencedora não se mexe”. Face à fórmula comprovada do slogan forte e a cara do candidato em grande plano, a grande maioria dos cartazes continua a seguir a receita mágica da tradição. Daí que, embora os suportes de campanha se actualizem em alta velocidade para o on-line, o velhinho cartaz de campanha permaneça igual a si mesmo. material campanha politica Portugal

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Fontes das imagens: 1. Imagens 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11 e 12 do arquivo Ephemera, cedidas por José Pacheco Pereira.


Marisa

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