fotografia miksang: a meditação em ação

Pare, medite, sinta e clique. Esse é o procedimento básico para capturar uma imagem dentro dos padrões da fotografia Miksang. Conheça Michael Wood, que mesclou ensinamentos budistas com a arte de fotografar e hoje consegue imagens que deixam transparecer a energia do ambiente.


fotografia miksang meditacao

“Esvaziar a mente” pode ser a mais simples explicação do ato de meditar. Comum ao estilo de vida oriental, a meditação, antes ligada apenas a práticas espirituais do extremo oriente e Índia, está cada vez mais corriqueira no ocidente em contextos sem qualquer relação com religião ou esoterismo. Abstrair dos problemas e voltar-se para seu âmago pode soar absurdamente autorreflexivo e inibidor da expressão artística, mas não: é possível unir meditação a várias atividades como dança, artes marciais e até, como faz Michael Wood, fotografia.

A filosofia de meditação ensinada pelo mestre budista Chögyam Trungpa alega ser possível meditar e, mesmo assim, manter-se fora de uma esfera religiosa. Segundo ele, o ser humano é alegre, calmo e claro por natureza, mas, na maioria das vezes, não consegue perceber isso por si só devido a inúmeras interferências externas. Logo, quando praticamos a meditação, a princípio não estamos vivenciando experiências religiosas, mas apenas voltando ao nosso estado natural: “Meditar não é atingir o ponto existencial budista, mas humano”.

Em 1979, Michael Wood, um fotógrafo convencional cansado dos limites que o trabalho com fotografias comerciais impunha, iniciou estudos para unir meditação, fotografia e os ensinamentos da interpretação da arte Dharma de Chögyam Trungpa. Inspirado por fotografias tiradas pelo próprio mestre, a prática foi batizada de Miksang em uma cerimônia budista de votos em 1982. No ano seguinte, iniciaram as aulas para a primeira turma de ensino Miksang em Toronto, Canadá. Hoje a técnica é comum em países como Estados Unidos, Canadá e Holanda.

A prática, basicamente, envolve duas etapas fundamentais: concentração e contemplação. Por envolver o segundo estágio, a fotografia Miksang também é conhecida como fotografia contemplativa. A mente contemplativa aparece quando unimos firmeza, visão ampliada e coração aberto e, para uma fotografia ser considerada Miksang, deve deixar clara para o espectador toda a energia do ambiente ou objeto percebida pelo fotógrafo no momento. É a “meditação em ação” ou o “meditar com o olhar”.

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Miksang significa “olho bom”, mas não nos sentidos convencionais. O substantivo, no caso, trata do órgão mediador entre a mente contemplativa e o ambiente. O adjetivo também não incorpora sentidos qualitativos nem maniqueístas, mas o alcance da natureza inata, inteligente, determinada e presente, porém inócua, em todo ser. Antes de qualquer clique o fotógrafo deve meditar por alguns minutos para permitir uma maior percepção do ambiente. Após alguns minutos (ou horas) e com a percepção aguçada, deve contemplar o ambiente ao seu redor. Assim que um objeto ou paisagem o fizer sentir “tocado” inexplicavelmente, deve capturar a imagem sem se preocupar com questões técnicas de fotografia, como foco, luz ou enquadramento. O que vale não é o resultado em si, mas o prazer de fotografar e transmitir a emoção ao partilhar a imagem com outras pessoas.

Em uma entrevista para o obvious, perguntamos a Michael Wood se há possibilidade de expandir a arte Miksang para outros meios. Contou-nos que um de seus alunos está explorando técnicas de pintura Miksang e que, junto com a classe, começarão também a testar estes princípios no vídeo. Terminou dizendo que “a atitude de ter uma mente aberta e vivenciar o presente contemplativamente pode ser aplicada a toda e qualquer forma de arte”.

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Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8.

Imagens © Helena Vink


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