Nublado com possibilidade de sol

A vida de Sarah e de todos ao seu redor está prestes a mudar, e ela se vê sozinha e apática na manhã que antecede o pesadelo de enfrentar uma das maiores empresas de biotecnologia da atualidade.


- American Landscape, 1920 (etching on paper). National Gallery of Art, Washington, Print Purchase Fund (Rosenwald Collection) and Ailsa Mellon Bruce Fund, 1979

A janela da cozinha é grande e quase sempre ensolarada. Dificilmente se escuta o barulho dos carros, e há tantos estacionados... Sarah gosta de imaginar que a cidade parou. Sem vida. Mas não há nada de novo neste fluxo de ideias. O suco de laranja que ela comprou no supermercado KingMarket parece mais fresco que a própria fruta. E gelado, nada igual! Um episódio do Simpsons lhe ocorre e ela vai estender as roupas no varal dizendo: "sabo-or, cadê o sabor?”. As amoras estão todas sobre a grama e como são brancas e cabeludas lembram lagartas. Ontem o vizinho lhe comunicou a sua decisão de podar a árvore, mas não há nada de novo aí também. E que fique bem claro, ele vai cortá-la até a raiz e passá-la num daqueles trituradores gigantes como se apontasse um lápis. Sarah teve vontade de chutar a cerca. Há seis meses, quando ele sugeriu dividir as despesas da nova cerca, ela não aceitou e além de ter arcado com a despesa, deixou a árvore para ele. Estúpida, pensou.

No jornal, Sarah lê a manchete a respeito do fazendeiro que recusou aceitar o acordo da Multinacional. Olha para o céu e, então, para o pedaço de terra vistosa que corre largada na parte norte da construção. As laranjas da Florida deixam um gosto amargo na boca e ela tira uma bala de goma do bolso. Então é assim que um dia de folga deve ser? Sua tia ligou e lhe contou as novidades, disse que um frango hoje não leva mais que um mês e meio para crescer, mas que mal param em pé, os órgãos pesam. Ela disse que os produtores todos da região vão mal e que as dívidas crescem loucas feito pragas. E não, esta não é a tia que herdou boa parte da herança do avô de Sarah.

Os armários da cozinha estão recheados de biscoitos. Biscoitos e xarope de milho. E bastante transgênicos. E ela se sente mal. Faz uma semana que os ratos do laboratório morreram e ela ainda não havia conseguido esquecer o experimento, muito menos contar para a família que tinha pedido demissão. Lembrou-se de sair para comprar a insulina do marido, mas esqueceu a lista de compras. Era dia de promoção de carne no supermercado e ela sentiu uma alegria contida, pois nunca tinha aproveitado estas promoções. O selo do Departamento da Agricultura é tão imponente e lustroso que quase lhe faz crer que a carne é de primeira. O cartaz pregado no balcão mostra um boi que sorri ao lado de uma criança de jardineira vermelha. Contém uma mentira neste sonho.

Sarah comprou ovos orgânicos, tomates da região e salsinha. Em casa, ligou o computador para checar o seu e-mail. Ela tinha doze spams e uma mensagem nova. O advogado da Multinacional queria se encontrar com ela depois do almoço. Sentiu um desconforto na boca do estômago, pegou o cigarro que ela tentava largar e foi lá pra fora com um pacote de sementes orgânicas que ela havia ganhado na última feira agrícola da região. A enxada tinha sido deixada na casa pelo antigo dono e estava enferrujada. Era pesada. Pela primeira vez sentiu que havia uma arte nesta história de lidar com a terra. Arrepiada, largou tudo e entrou para passar roupa, uma sabedoria quase inútil.

Fonte da imagem: 1.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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