O quotidiano incomum – fotografias de Lucie & Simon

E se pudesse pairar no céu espreitando, de forma voyeurista, cenas da vida quotidiana? Que sensações lhe daria a perspectiva de topo nunca antes vista? De que forma a posição superior, semelhante a um deus, mudaria a reacção estética às imagens e à vida de todos os dias? Estes são alguns dos conceitos explorados pela dupla de artistas franceses Lucie & Simon, no trabalho fotográfico “Vertigens do Quotidiano”.



Lucie & Simon

Lucie & Simon procuram contar histórias. Pequenos apontamentos retirados, sem contexto de qualquer espécie, da vida de personagens fictícias. E apresentam-nos as personagens certas em universos que nos são familiares. Fotografias do quotidiano, em quartos, baloiços, mesas de pequeno-almoço ou à beira do lago. São pormenores de uma vida que poderia ter sido a nossa, é certo, mas vistos de cima, num lugar a que, geralmente, só os deuses têm acesso.

O ensaio fotográfico “As Vertigens do Quotidiano” foi trabalhado pelos dois artistas durante dois anos, entre 2007 e 2009. Ao longo das várias fotografias, Lucie & Simon agarram de forma desconcertante o espaço vulgarmente privado e os desejos voyeurs de todos nós. A intenção é declarada pelos próprios: “criar um universo misterioso” a partir de cenas do dia-a-dia.

O pormenor que marca a diferença, tanto a nível estético como conceptual, é a escolha da perspectiva. O ponto de vista vertical, com lugar no céu ou no tecto, permite dar novas representações a objectos comuns e retirar do contexto pormenores quotidianos. Lá em baixo, as cenas do quotidiano dispõem-se em enquadramentos perfeitos, colocando a dúvida sobre o que é real e simbólico, quotidiano ou artístico. Em paralelo, a ausência das regras habituais de fotografia, como o espaço, perspectiva ou profundidade de campo, contribuem para o sentimento de “vertigem”.

Lucie & Simon

A perspectiva original marca também uma diferença de estatuto para o espectador. Habituado a ser elemento participante do seu quotidiano, aqui somos transportados para um lugar omnisciente e inalcançável. Voyeurs assumidos ou pequenos deuses particulares, para quem o instante fotografado é dirigido.

Mas esta “Vertigem do Quotidiano” é também uma viagem emotiva. A representação de relações familiares – as crianças e os pais, o casal à mesa de pequeno-almoço – e dos espaços familiares – a cama, com a personagem despida, ou a janela do primeiro andar – conseguem unir emocionalmente o espectador aos fragmentos representados. Recorrendo ao nosso próprio álbum fotográfico mental, podemos traçar paralelismos com as cenas de Lucie & Simon . Afinal, será este o nosso quotidiano?

Lucie & Simon

Lucie & Simon

Como pedaços isolados de uma possível vida, as fotografias contam histórias incompletas. Fica a vontade de querer saber mais, de escrutinar as personagens, de saber qual a sua história fictícia, enquanto se inventa mil e uma histórias para o quotidiano retratado. A estética flutuante e sem marcas ancoradas na profundidade de campo aproxima-nos, à vez, de uma melancolia pelos tempos perdidos e de uma estranheza desconfortável.

No fundo, o trabalho notável dos dois artistas franceses permite representar esteticamente um conceito apresentado por Sigmund Freud, pai da psicanálise, há 90 anos atrás. “Uncanny” (ou “Unheimliche”, no original alemão), algo que é, simultaneamente, familiar e estranho, tornando-se desconfortável. Passado quase um século, as vertigens parisienses do século XXI conseguem retomar, na perfeição, a sensação descrita por Freud.

Mais imediato, porém, do que qualquer deambulação psicanalítica, continuamos a olhar para o trabalho de Lucie &Simon sem saber exactamente como posicionar-nos. Reconhecemos a criança que permanece sozinha ao cimo de umas escadas de espiral sem fim ou queremos afastar os olhos da estranheza voyeur que nos repulsa e atrai? Talvez o nosso quotidiano também seja igualmente inquietante, quando olhado de cima…

Lucie & Simon

Lucie & Simon

Lucien & Simon

marisa figueiredo

sonha em abrir uma livraria-chocolataria para que possa juntar os seus dois prazeres.
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