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George Orwell - 1984

Andy Riley: do lado “coelhico” do humor

Depende do nosso capital humorístico gostarmos mais ou menos de Andy Riley. Uma inclinação para o humor enegrecido é factor essencial para esboçar um sorriso (ainda que mental), um riso contido mas verdadeiro (daqueles rápidos mas sinceros) ou uma gargalhada aberta. De qualquer forma, é inegável a criatividade de Andy e, principalmente, a capacidade de fazer humor com temas aparentemente paradoxais. É ou não a vida uma tragicomédia?



Andy Riley coelho

“Coelhos há muitos”, dizem. Lembrando: temos o antropomórfico Bugs Bunny, o possivelmente lunático Coelho da Páscoa, o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas (também antropomórfico), o retro Topo Gigio (ops… este não é um coelho, é um rato!), o “Bing Bing Bing! Coelho Ricochete” (antropomórfico), o pré-Mickey Coelho Osvaldo (antropomórfico) e os biofóbicos coelhinhos suicidas de Andy Riley (extremamente antropomórficos, por sinal). Conclusão: a maior parte dos coelhos são antropomórficos, assim como o serão, por dedução e como iremos ver, a maior parte dos porcos.

Andy Riley é escritor (cartoonista e autor). Andy Riley também desenha, não tendo, no entanto, um estilo ilustrativo surpreendente (o que também não se revela necessário, pois a ideia-base é conquistada pela simplicidade, pelo esboço, pelo cariz infantil). Andy Riley escreve essencialmente comédia. Andy Riley é o autor e ilustrador de diversos livros: "The Bumper Book of the Bunny Suicides – Fluffy Little Bunnies Who Just Don’t Want to Live Anymore" (“O livro infantil/ilustrado dos coelhinhos suicidas: coelhinhos fofinhos que apenas já não querem viver mais”), “O regresso dos coelhinhos suicidas”, “Grandes mentiras para dizer a crianças pequenas”, “Muitas mais mentiras para dizer a crianças pequenas”, “D.I.Y. Dentistry” (por aproximação: “Dentista faça-você-mesmo”), e o seu último grande hit: “Porcos egoístas”. É sobretudo sobre os coelhinhos suicidas e também um pouco sobre os porcos egoístas que se debruça este artigo.

Andy Riley coelho Andy Riley coelho

Como se pode constatar, a maior parte das “tiras” de Andy Riley são apenas o punchline da história. A mente do leitor automaticamente empreende a conquista do set-up – a estória que antecede a imaginativa perda de vida do animal. Por vezes é difícil encontrar o coelho suicida na vinheta, restando apenas um resquício gráfico das orelhas. As orelhas pelo coelho – sinédoque gráfica desse mamífero que adivinhamos com uma postura indiferente, até divertido ou aliviado, enquanto espera pacientemente, lendo um livro acompanhado de um drink, o golpe fatal.

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Dos coelhinhos bonitos, queridos e fofinhos com tendências suicidas passamos drástica e paradoxalmente para o egoísmo descarado dos feios porcos, e maus. “Selfish pig” – a dramática injúria inglesa – deve ter sido a gota-de-água para todos aqueles coelhos. Numa arrogância perversa e infantilizada, estes porcos egoístas atravessam o quotidiano com um menosprezo ignóbil pelos outros, com o focinho contorcido, saciando o seu ego com uma carência atencional rebuscada.

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Os coelhinhos suicidas conquistaram milhares de fãs e a crítica de diversos media e de várias celebridades. Por exemplo, o Daily Telegraph afirma que os “sádicos de todas as idades vão absolutamente amar o livro”, Elton John assume que este “é o livro mais divertido e coelhico que alguma vez [leu]” (“coelhico” de “bunniest” – passo a tradução e o possível neologismo) e Hugh Grant ironiza (suponho) que é “um dos mais importantes livros do ano”.

Até agora, os seus livros venderam mais de um milhão e meio de cópias e foram publicados em 14 países, dando origem a todo o tipo de merchandising: calendários, posters e cartões de todos os tipos, porta-chaves, cadernos, t-shirts, pastilhas elásticas, doses industriais de cianeto com a cara de um dos coelhinhos no rótulo, pins. Em paralelo, Andy e o seu colega de trabalho desde os tempos da escola – Kevin Cecil – escrevem humor para séries de televisão britânica (onde se inclui o famosíssimo Little Britain), para filmes e para a rádio. Facto não confirmado mas de que se especula ser verdadeiro é que tenham participado no filme “Noiva Cadáver”, de Tim Burton, com (como alegam no livro dos coelhinhos) quatro piadas.

Entre os prémios que receberam salientam-se dois BAFTA (os prémios anuais da Academia Britânica para Filmes e Televisão para os melhores trabalhos em audiovisual), ganhos pela série de animação Robbie, a Rena, em 2000. Semanalmente, Andy publica uma tira de banda desenhada no The Observer Magazine, chamada “Roasted” (“tostado”) – as desventuras de dois cruelmente (auto)críticos empregados de café.

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Um pouco sobre Andy Riley (miscelânea de dados aleatórios mas, de alguma forma, interessantes): Andy é de Aylesbury, sudeste de Inglaterra, e actualmente vive em Londres. Já foi dançarino de palco para os The Pod, uma banda de tecno-comédia-experimental, muito conhecida em Inglaterra pelo seu carismático vocalista-comediante, Julian Barratt (em dueto com Tim Hope). Um dos hobbies de Andy é canoagem urbana. Embora haja imensos rivais a reclamar a precursão desta actividade na internet, Andy Riley foi o homem que deu origem ao fenómeno crossdressing no festival de folk em Towersey. Basicamente é tipo transformismo, os meninos vestem-se de meninas e vice-versa. Mmmmmmmmmm…

Diz que as pessoas pensam que ele é rico. Ou pelo menos que está bem abastado com as vendas da sua mais famosa série de livros. É mau a memorizar caras: “Evoluímos para nos tornarmos caçadores, não para conhecer duzentas pessoas”, justifica.

Alegando um comum mau entendimento da sua extravagância lírica, Andy não escapa à acusação de um subtil e inevitável desvaire mental. A ver: quem é que se ia lembrar de querer fazer rir os outros com algo supostamente tão sério como o suicídio? Ainda por cima com coelhos – fofinhos, adjectiva-os.

Facto aparentemente relevante é uma espécie de parentesco gráfico e ideológico de Andy Riley com a simplicidade, inventividade, criatividade e genialidade de Don Hetzfeldt. Façamos a nossa justiça a esta comparação, recordando aqui a animação Billy’s Balloon. Não prescindam também de ver as excelentes peças Rejected e Everything Will be 0K (ambos em inglês).

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Os livros de Andy Riley dão excelentes prendas de Natal, de aniversário, de anos de casado, para a/o ex-namorada/o, para aquele/a amigo/a que agora anda com ela/e, para as mães de ambos, para uma cenoura ou para uma trufa. Enfim, uma fonte de risos e de ideias para as pessoas de que mais gostamos.

Andy Riley coelho

Imagens retiradas dos livros: "The Bumper Book of Bunny Suicides" (2007), Editora: Hodder & Stoughton Ltd.; e "Selfish Pigs" (2009), Editora: Hodder & Stoughton Ltd.

miguel oliveira

; possui o cérebro na ponta dos dedos. Pinta palavras em ecrãs de computador com aquilo que sintetiza do mundo e diz possuir um rádio no lugar da cabeça.
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