Joaquim encontra Lydia - Parte 1

Lydia com "y" morava no Edifício Bourbon, que ficava entre a Avenida Expedicionário João Soares Faria e a Rua Gonçalves Dias, nome do homem de Doris, amiga de Lydia. Gonçalves Dias escrevia marchinhas de carnaval em papel de embrulhar carne. Era açougueiro e gostava de mulher com uma certa substância, como gostava de dizer enquanto alisava o bigode.


chagall, modernismo, surrealismo, expressionismo, lydia The Blue Lovers. Oil on canvas, 1914. (Detalhe)

Lydia com "y" morava no Edifício Bourbon, que ficava entre a Avenida Expedicionário João Soares Faria e a Rua Gonçalves Dias, nome do homem de Doris, amiga de Lydia. Gonçalves Dias escrevia marchinhas de carnaval em papel de embrulhar carne. Era açougueiro e gostava de mulher com uma certa substância, como gostava de dizer enquanto alisava o bigode. Ele ainda não sabia que tinha uma queda por Lydia e pela sua marca de nascença na coxa direita.

Ela, por sua vez, trabalhava na Galeria Zafira como maquiadora. Gostava de maquiar mulheres mais velhas e ex-freiras. Sentia uma certa alegria infantil ao ver as bochechas das senhoras enrubescerem quando lhes fazia massagem nos seios da face. Nos finais de semana gostava de pegar o trem para Catanduvas para visitar a sua mãe que, desde a morte do marido, sofria de exílio existencial e colecionava bibelôs.

De acordo com os cientistas da NASA, o eclipse lunar estava para acontecer por volta das seis horas da tarde, momento exato em que Lydia tomava o seu banho de rosas. E em que Joaquim, do outro lado do rio, embaixo do chuveiro, tomava o seu banho com a sua touca de pato que fazia "quack-quack". O gato de Joaquim, Alfredo, gostava de ouvir a rádio esotérica da cidade e ria com escárnio das cartas enviadas pelos fãs. Esotérico, do grego esoterikós. Indivíduo que se interesa por coisas místicas e estudos esotéricos.

Alfredo sonhava em jogar a touca pela janela. O "quack-quack" era a maior representação do kitsch e ele havia inclusive criado um grupo de gatos anti-toucas, tamanha a sua implicância. A lua se preparava junto de Lydia e Joaquim, seus corpos em movimento como a maré em valsa. E foi então que ela comecou a dançar. E sozinha dançava com a esperança real de atrair um corpo celeste que a fizesse não parar de flutuar jamais. A touca de Joaquim, com a força dos passos de Lydia, caiu no chão, era o momento. Sentiu um calor invadir o seu corpo e aumentou a água fria; enquanto Lydia, do outro lado, rodopiava jogando pétalas pelo banheiro, pela casa, a rua, a cidade, os campos... Dizem que foi parar uma pétala no travesseiro do seu pai, do lado esquerdo do peito da sua mãe.

chagall, modernismo, surrealismo, expressionismo, lydia The Blue Violinist, 1947

Doris a aguardava eufórica na manhã seguinte. Queria saber se ela não havia sentido a eletricidade no ar. "Uma química". Ela sorriu e passou um batom rosa-choque na boca de Doris, que não entendeu, mas achou sedutor, e entrou atrás dela falando sem parar que aquela havia sido a melhor noite que ela já tinha passado ao lado do Gonçalves. Doris não sabia, mas enquanto andava e falava seu corpo rebolava criando curvas no ar. "Ele cantou suas marchinhas dentro..." "Cantou o-quê?", perguntou Lydia com um grito agudo, como se escutasse um segredo de uma das suas ex-freiras. Os olhos nestas ocasiões conhecem o céu. Roda-gigante.

Joaquim, que nunca passava em frente ao salão para pegar o seu trem, hoje havia decidido mudar o caminho para não se encontrar com Charles, o vizinho que vendia seguro de vida. Atravessou a rua e, de repente... Eureka! Era Lydia dentro do salão passando rímel nos cílios de uma freguesa. E sorria como se tivesse devolvido vida a aquele olhar amargurado e cansado. Os cientistas da NASA, cronometricamente, se entreolharam, piscaram e voltaram os olhos para a tela do computador.

chagall, modernismo, surrealismo, expressionismo, lydia Au-dessus de la ville, 1924

Joaquim, perdido de afeto, deu uma topada com o pé e a dor lancinante afastou o rosto de Lydia. "Claro! Já viu topada que não tenha sido involuntária", disse para si mesmo e saiu com pressa e vergonha que ela tenha notado a cena. De dentro do salão Lydia arrumava a meia-calça que havia ficado presa no seu anel e recordava o banho de rosas e a sensação de que alguma coisa ou alguém havia lhe tocado.

Gonçalves Dias gostava de ser notado. Entrava no salão com passos de gangster ainda que cheirando a carne e perfume barato. Doris gostava, sempre, e ficava cega ao ver o seu homem. Zoom na meia-calça transparente: a pinta. Gonçalves viu e sentiu desejo. Lydia percebeu e correu com o andar apertado para a cozinha. Um shot de espresso, dois shots de vergonha e desepero. "O Gonçalves, não!" E tentou reproduzir o mesmo olhar de terror de Janet Leigh na cena do chuveiro. Sem sucesso. Doris, parva, apenas abanava-se com o leque vermelho de bolas pretas que carregava sempre na bolsa. Na rádio imaginária de Doris tocava electrotango e ela ia ao encontro de Gonçalves. Enquanto isso, na calçada em frente ao salão um convite no formato de pétala de rosa aguarda Lydia sair para almoçar. "Quer dançar comigo?".

leia a segunda parte deste conto

chagall, modernismo, surrealismo, expressionismo, lydia Champs de Mars, 1954

Fontes das Imagens: 1, 2, 3, 4.


isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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