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Joaquim encontra Lydia - Parte 2

publicado em artes e ideias por | 6 comentários

Um sapato de salto agulha amassa o convite que esperava por Lydia, deixando uma cicatriz indelével bem no centro. Lydia deixa o salão discretamente, fugindo de Doris e Gonçalves. Mais de Gonçalves, verdade, e passa por cima da pétala deixando a marca da sola da sua sapatilha cor de rosa choque. O carteiro que andava atrás pega o cartão e corre até Lydia. Ele escuta The Killers. "Hey, é seu?". Lydia agradece e olha duas vezes frente e verso. "Hoje, na capela da Bonfim, às 6:33. Assinado J".

lydia chagall

leia a primeira parte deste conto: Joaquim enontra Lydia - parte 1

Um sapato de salto agulha amassa o convite que esperava por Lydia, deixando uma cicatriz indelével bem no centro. Lydia deixa o salão discretamente, fugindo de Doris e Gonçalves. Mais de Gonçalves, verdade, e passa por cima da pétala deixando a marca da sola da sua sapatilha cor de rosa choque. O carteiro que andava atrás pega o cartão e corre até Lydia. Ele escuta The Killers. "Hey, é seu?". Lydia agradece e olha duas vezes frente e verso. "Hoje, na capela da Bonfim, às 6:33. Assinado J". Lydia olha ao redor e sente um tanto de uma emoção que ela não consegue pôr em palavras. Algo como "é ele" lhe ocorre, mas sua atenção é desviada quando um caminhão passa por ela espirrando a água parada da poça nos sapatos e meia-calça. A lanchonete em que almoçava servia croissants recheados que Lydia costumava comer acompanhados de salada e suco de frutas. A pétala de rosa repousava no balcão, lhe causando um arrepio bom com fundo de desejo. Tocava uma música dançante, mas ela não se levantou e imaginou que, a essa altura, Doris já estaria no meio do pequeno salão puxando o garçom para dançar.

A mãe de Lydia acreditava que havia dois tipos de pensamentos: os que nasciam durante o banho e os que surgiam no trajeto do ônibus (de preferência sentada, que era para a idéia fluir descansada). "E o resto?", costumava perguntar Lydia em criança. O restante é o desconhecido. "E nunca brinque com coisas que jamais poderá compreender, Lydia". O que ela não sabia era que Lydia estava prestes a abraçar o desconhecido na sua totalidade.

lydia chagall

Na televisão da lanchonete, Alfredo entrevista os cientistas da NASA para o jornal local, procurando recriar a atmosfera surrealista do Téléchat, de que sente nostalgia. Os cientistas mostram fotos da aurora boreal e de casais em busca de romance. O comercial da joalheria Forever Diamond vende anéis de ouro 14 kilates e encerra o programa, com Alfredo tomando um copo de leite e se insinuando para a assistente de câmara.

Já em casa e olhando pela janela, Lydia amarra o lenço em tons pastel na cabeça, como a Moça com Brinco de Pérola. Ela sempre achou que batom com brilho ficava bem nas bochechas e passa um pouco ali também. O rosto se ilumina. O vestido pendurado na porta do armário se oferece e ela o veste. É amarelo como as folhas do outono e lhe cai feito uma luva. Crisp-yellow sheer chantilly-lace & ruffle-tulle, diz a etiqueta. Foi o vestido de casamento da sua mãe e ela fantasiava usá-lo. "Mamãe acharia um pouco demais para a ocasião", e o pendura novamente, vestindo uma saia rodada com uma blusa de listras vermelhas, azuis e creme, para atrair marinheiros e Joaquim também. Lydia confere o convite mais uma vez e o leva até o nariz. Rosas silvestres têm cheiro proibido de carta roubada.

Doris lhe telefona para saber se ela quer ir jogar boliche. Gonçalves ia convidar alguns amigos, caso ela decidisse acompanhá-los, mas ela recusa e inventa que está com cólica. Mentira tem pernas longas e sedutoras e Lydia deita-se na cama, enquanto se lembra da noite do eclipse como quem se recorda de um sonho bom. O rádio toca uma versão da música Electric Feel gravada pela banda independente Emocionista e as pombas voam assustadas, deixando para trás pequenas penas sensibilizadas. São 6:00 da tarde. Alfredo esconde o vidro de perfume e a touca de pato e assiste com tédio e sono a Joaquim que se arruma ansioso, deixando a barba por fazer com medo de se atrasar. Então, com a camisa metade pra dentro, metade pra fora, apanha o patinete na porta. A banca de legumes vende flores e ele escolhe uma rosa branca. O vendedor faz não com a cabeça e aponta para o cravo amarelo. Aviões de papel cruzam o céu e Joaquim desce a ladeira na velocidade de uma bala. O coração quase vem à boca, deixando um gosto agridoce nos lábios. Os cientistas da NASA, cronometricamente, se entreolham, piscam e voltam os olhos para a tela do computador.

lydia chagall

Joaquim a avista de longe entrando na capela. O seu andar é demasiado delicado e marca os segundos criando uma leve tensão no ar. Fermata. Do outro lado da rua, Doris se encontra com Gonçalves, que lhe aperta as nádegas de maneira obscena. Joaquim cruza com os dois e esbarra em Doris cujo cabelo volumoso e espalhafatoso é de parar o trânsito e construções igualmente. Sobe os degraus correndo e deixa o patinete do lado da santa, que pisca para ele um milhão de estrelas. Lydia sente a brisa e o leve toque da flor de cravo em seu ombro. Os olhares são a prévia de um beijo. Lydia gosta de Joaquim e o conduz pela mão até à porta lateral da capela, onde se beijam com mais privacidade. Não queria clichês, mas era como se se conhecessem um ao outro. Um turista tira fotos dos dois sem que percebam e as leva para serem reveladas na loja logo ao lado. O fotógrafo, Mattos, colecionava fotografias de encontros amorosos em igrejas e pagava um bom dinheiro por elas. Lydia prende o cravo no lenço que abraça o cabelo e pede para ele ficar mais tempo. Falam pouco. Joaquim a tira para dançar e ela responde dando um giro e tanto.

Alfredo acorda e não encontra o dono em casa. Vê um clarão no céu. A chuva cai em seguida e ele solta os patos da touca livres. Joaquim entra na capela com Lydia, que assopra as gotas de chuva dos lábios dele. A paisagem se move depressa e eles se deixam levar. Há o cheiro das fotos sendo reveladas e da pizza que comem sentados no degrau da entrada enquanto aguardam a chuva passar.

Fontes das imagens: 1, 2, 3.

isabella
Sobre a autora: isabella kantek nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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rodrigo

Como sempre as imagens estão cada dia mais belas e os textos muito bons.

Isabella

Obrigada, Rodrigo. E volte sempre!

Lídia Barbosa de Amorim

A história é delicada , sensível . Estou gostando, fiquei curiosa com o fotografo colecionador de fotos de encontros amorosos!
As imagens são belíssimas , publiquei no meu face
book!

myla fonseca

amanhã é eclipse lunar! descobri uma igreja nova e super bonita anteontem qdo fui prum bairro aqui perto mas pouco conhecido. ela é como se fosse uma oca, toda em pedra e a sensação d ficar ali dentro é incrível. na prachinha do Gutierrez. ganhei um batom-blush d uma amiga! levei mãe pra provar um chocolate d ganache d framboesa e água d rosas há dois dias + dois espressos. ela gostou mto! eu tb! a nasa tá sendo criticada pq divulgou a descoberta d uma bactéria num lago na califórnia q tem arsênio no lugar do fosfato ligando as bases nitrogenadas e pentoses do dna... coisa cronometricamente totally amazing!!!!!

enfim, Isa, teu texto vai fundo, fundo tanto ou fundo muito q nem a vida!!!!!!!

tô orgulhosa!!!!!! e torcendo pelos próximos!!!!!!!!!

bjs,

my

Lidia, muito obrigada. :)


Myla querida! O eclipse e eu ganho dois comments super batutas, nada eh por acaso. :) Muito obrigada tb.


Voltem sempre, meninas. Um beijo feliz e um pouco timido.


ivana rowena

Mas que surpresa mais linda este novo conto! E como combina com Chagall, até parece que você escreveu se inspirando nessas belas pinturas como ilustrações para um futuro story-board.

Artistas e poetas habitam planetas particulares e conversam entre si, restando a nós, simples mortais, usufruir do enorme prazer de identificar elementos estéticos na sua prosa poética e na ficção realista-fantástica de Garcia Márquez sob o azul lunar profundo de Chagall.
Parabéns, Isabella! Espero que você lance logo uma coleção de livros tão originais como seus contos que só conhecí porque sou leitora absolutamente fiel da Obvious.

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