Girl, Interrupted: qual o limite entre loucura e sanidade?

“Talvez a vida seja uma loucura. Você é louco se alguma vez contou uma mentira e gostou. Ou se já desejou ser criança para sempre.” Questão tratada com muita sensibilidade em “Girl, Interrupted” (Garota Interrompida, no Brasil / Vida Interrompida, em Portugal, 1999, EUA/Alemanha). O filme fala acerca dos limites da mente humana e o que é considerado normal ou não.


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O roteiro é baseado na história verídica da escritora americana Susanna Kaysen - autora do livro autobiográfico "Girl, Interrupted".

A história se passa no final dos anos 60. Susanna é uma jovem cheia de dúvidas e questionamentos, como qualquer outra jovem de sua idade, mas que em um dia ruim toma uma garrafa de vodka com aspirinas. É o suficiente para que seus pais a mandem para uma instituição psiquiátrica.

Apesar de o filme trazer personagens com diferentes tipos de distúrbios - sociopatia, anorexia, cleptomania, bipolaridade, por exemplo - concentra-se em questões não tão óbvias, em questões existenciais muito particulares.

Susanna era uma jovem que tinha acabado de se formar na high school. Um pouco perdida, de poucas atitudes, no entanto, buscava o auto-conhecimento. Mas, não suportou a pressão de atingir as expectativas da sociedade e desempenhar, sem máculas, seu papel, como por exemplo, ter entrado numa universidade de renome, como todos os alunos de sua classe. Fez outro caminho: refugiou-se, ainda que relutante, entre pessoas que, assim como ela, não se adaptavam e, por isso, fugiam do padrão considerado "normal".

O drama busca dialogar sobre o conceito de loucura. Será parte da nossa existência, sendo intrínseca ao homem? O que é, afinal, a loucura? Susanna Kaysen a chamou de uma "amplificação dos sentidos e dos desejos". A loucura é um ato de suspensão, no qual nos encontramos vez ou outra, é um estado que surge quando os sentimentos nos levam ao limite. Quando o bom senso desequilibra, e há o exagero. É uma interrupção do que se julga conveniente. A loucura ocorre quando as pessoas normais se assustam, quando são mais espontâneas do que imaginavam ser. Ou tomam atitudes mais radicais do que tencionavam tomar.

Há uma tênue crítica neste filme acerca da necessidade de adaptação e ajuste às regras e condutas que todos reconhecem como "aceitáveis", retendo uma impulsividade genuína do indivíduo- que seria a sua verdadeira personalidade.

Susanna foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Limítrofe (Borderline), caracterizado por um comportamento anti-social e auto-destrutivo, no qual a pessoa vive a agir por impulsos, mais do que razão e/ou empatia. O borderline, assim como descrito no filme, é geralmente uma pessoa inconsequente, podendo colocar em perigo sua própria vida, por ter a tendência de falhar em ponderação, como o uso de drogas, direção perigosa, manipulação de fatos e pessoas, agir promiscuamente, etc. De qualquer maneira, Susanna era considerada "normal" e vista como uma garota mimada que precisava de um tempo dos estudos, das coisas e das pessoas que lhe eram familiares.

Com isso, o filme também mostra como a sociedade reagia em relação ao tema, dividindo pessoas em "institucionalizáveis", ou não. Os que não eram aparentemente loucos, como era o caso de Susanna, eram considerados "mimados", "preguiçosos", "fracassados" e, ainda, "hippies".

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Apesar de um tema como este correr correr o risco de se tornar pedante e cansativo, pela característica introspectiva, o longa é cuidadoso neste sentido, e além de oferecer uma reflexão mais aprofundada sobre o tema, mostra como o assunto era tratado no final dos anos 60, com a institucionalização social, tão marcante na época, num contexto histórico que vai de encontro aos cliches da década.

O filme é estrelado pela talentosa Winona Ryder, indicada a dois prêmios Oscar por "Adoráveis Mulheres/Mulherzinhas" (Little Women, EUA, 1994) e "A Época da Inocência/ A Idade da Inocência" (The Age of Innocence, EUA, 1993). O elenco traz ótimos nomes como Angelina Jolie, que aqui ganhou o Oscar de Melhor Atriz coadjuvante, e os veteranos Jeffrey Tambor , Vanessa Redgrave e Whoopi Goldberg, com interpretações memoráveis. A direção é de James Mangold (Johnny & June, EUA, 2005).

Winona, além de protagonizar a história, interpretando Susanna, também é uma das produtoras executivas do filme, o que comprovou seu talento também por trás das telas, visto que a produção do longa foi muito elogiada pela crítica especializada.

Garota Interrompida tem uma extraordinária trilha sonora com clássicos do rock como "The Band", "Jefferson Airplane", "The Mamas & The Papas", "The Chambers Brothers", "Van Morrison", e mesmo a diva "Aretha Franklin" e "Wilco".

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Fontes das imagens: 1, 2, 3.


rejane borges

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