O Natal, as bolinhas de cuspe, a rabanada e o beijo

Véspera de Natal. De mesas abundantes e fartas, à la Babette, e de verdades camufladas por detrás daquela base tom da pele que comprou do catálogo da Avon. De discursos sendo escritos e demissões adiadas para o dia dois próximo. Para Lucinda, o Natal se resume num pequeno ritual de lembranças entrecortadas.


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Lucinda tira da boca o chicletes e gruda a placa de papelão na porta da cabine de telefone. "Ocupado". Com o gravador ligado, inicia a gravação. "Lorena, 24 de dezembro de 1994."

Ela tinha medo do Natal. Dos enfeites frágeis de vidro. Do peru sentado na travessa de inox e do pernil com abacaxi. Daquela sensação de que a alegria dura um pouco mais que uma taça de champanhe (ou de refrigerante, se estiver sentado na mesa das crianças). Do silêncio entre os pacotes de presentes que Lucinda sonhava em rasgar com som e fúria.

E então houve o Natal da vitrola com discos da Cindy Lauper que ganhou de presente dos seus pais. Um jantar na casa do seu avô. Lucinda foi, mas não reparou que os sapatos estavam trocados. Passou o Natal na saleta da televisão com o seu tio que fumava enquanto assistia ao programa que mostrava o Natal mundo afora. O mesmo tio que colocava lança-perfume em um lenço e dava para a cachorra Teca cheirar no carnaval. Pela fresta da porta seus primos assopravam bolinhas de papel com cuspe e riam dos sapatos trocados. As bolinhas, que cheiravam mau, grudavam no cabelo como se fossem balas de goma. Na garganta, a vontade de dizer coisas que sentissem como um puxão de orelha. Ao menos Lucinda tinha ela para cantar Time After Time quando chegasse em casa.

Nas festas e reuniões dos anos seguintes Lucinda foi arrastada para dentro e para fora feito uma boneca de pano. Mesmos enfeites, mesma árvore. Alguns mais velhos e abatidos, outros mais jovens e redondos. A ausência de uns e a chegada de outros. Tem horas que você até deseja pertencer, e é justamente nestas horas que a existência parece pequena e infeliz, sempre incompleta.

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Pois havia a cozinha que exalava um cheiro cintilante de canela e açúcar. A rabanada: o seu motivo para ser-estar. E que desmistificava tudo. Os medos se curvavam e ficavam na sala a ver natureza-morta, as piadas e deboches ecoavam até aquele lugar de essências e voltavam para seus donos pesando duas vezes mais. Vapores, barulhos e pratos, panelas e pessoas conversando em ebulição. Os cachorros lambiam o chão com o rabo abanando como se tivessem encontrado o maior osso do quintal. Um entra e sai frenético de aperitivos e talheres escondia Lucinda com o dedo na cobertura da torta de nozes, enquanto guardava fatias gordas de rabanada nos bolsos.

Um homem fantasiado de Papai Noel acende um cigarro e espera do lado de fora da cabine de telefone. Olha para Lucinda e mostra o relógio impaciente. Lucinda devolve o olhar e se concentra no gravador.

"Lorena, 24 de dezembro de 1994. O meu último Natal antes da mudança para a capital e a vida universitária. Fui obrigada a trazer a minha vizinha e o seu irmão (porque seus pais precisaram fazer uma viagem de última hora para visitar um parente doente), que não era necessariamente bonito, mas que não iria me aborrecer se tivesse que passar o resto da noite a olhar para o seu rosto. (Lucinda pausa o gravador e toma um gole de coca-cola) E foi o que aconteceu depois do jantar, enquanto os adultos bebiam na sala e os menores brincavam com seus novos brinquedos - olhos pesados de sono. Minha família tinha o hábito de abrir os presentes quando o relógio batia meia-noite. Tão católicos. E o nome dele era, era ... Não me lembro. Nos beijámos e ficámos juntos o resto da noite. Ele disse que o meu rosto parecia o da menina que corre com lobos. Aquilo marcou. Depois a minha mãe me contou que no dia seguinte à minha viagem para a cidade grande, o pai dele havia sido transferido para uma outra unidade militar, numa outra cidade. Aquidauana, MS. Ontem, como quem não quer nada, minha mãe me ligou passando o número de telefone que ela conseguiu com uma vizinha. Prima da prima da tia dele. Disse para eu ligar se quisesse, que o nome dele era Antonio. Então ela sabia esse tempo todo."

Na rua, uma fila imensa se formava do lado de fora da cabine, enquanto Lucinda, sem mais adiar, discava: 67 3241-8142. "Alô".

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isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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