Hinos a um amor perdido: Spark, de Alain Johannes

O ex-membro do Queens of The Stone Age lançou um dos mais belos discos de 2010, porém distante de suas raízes roqueiras. Spark é uma homenagem póstuma movida a violões, instrumentos exóticos e clima etéreo, com letras que evocam uma reflexão a respeito de um tema que evitamos mas, cedo ou tarde, devemos enfrentar.



spark alain johannes

Como superar a morte de uma alma gêmea? O processo de luto pode trilhar diferentes caminhos até a aceitação e, ainda que não surja uma resposta definitiva para a pergunta inicial, é possível refletir, realizar, criar e seguir adiante. Um exemplo dessa jornada pode ser observado em Spark, de Alain Johannes, seu primeiro álbum-solo, ironicamente surgido a partir de uma perda.

O nome de Alain - bem como sua figura discreta - passa batido pelo fã de rock mais tradicional, apesar de uma carreira de gravações e turnês junto a nomes como Chris Cornell, Mark Lanegan, Queens of the Stone Age e mais recentemente, o Them Crooked Vultures (que conta com Josh Homme do Queens, Dave Grohl do Foo Fighters e John Paul Jones do Led Zeppelin). Ele também teve sua própria banda, Eleven, em conjunto com sua esposa e maior parceira musical, Natasha Schneider.

É a morte de Natasha, em 2008, que motiva o guitarrista a compor e gravar as músicas de Spark. Dessa vez, sem os parceiros famosos, sem guitarras e baterias ruidosas. Apenas ele, sua voz e, em boa parte do tempo, sua cigarbox guitar, um exótico violão de corpo quadrado. A atmosfera angustiada é resumida na primeira música do álbum, "Endless Eyes". Com o tempo, outras canções foram tomando forma enquanto o disco era gravado, sem pressa, em seu estúdio caseiro - "entre um copo e outro de vodka", comentou Alain em uma entrevista.

spark alain johannes

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Apesar do tom melancólico, Spark oferece paisagens musicais das mais diversas. "Speechless" é intimista e solitária, enquanto "Return to You" é assobiável, quase pop. "Make God Jealous" traz fortes influências orientais e toda a habilidade de Alain, que intercala passagens de calmaria com vigorosos ataques rítimicos.

Além da cigarbox, o músico gravou com violões de 12 cordas, cellos, dobros, percussões e um harmonium, tradicional instrumento indiano. A versatilidade de instrumentos utilizados cria texturas sonoras que vão bem além do folk tradicional. Arranjos que ajudam a traduzir a dor de Johannes, elevando-o (juntamente com o ouvinte) a esferas superiores.

O conteúdo lírico também ilustra a miríade de sentimentos vivenciados pelo músico, em letras como It's killing me that I must go on living/Just to fill this cup of promise/With meaning (O que está me matando é que devo continuar vivendo/apenas para encher esse cálice de promessa/com um significado), de "Endless Eyes"; ou I sit by the foot of many hearts' lament/ All wondering still Where the sun and moon went ( Sento-me aos pés dos lamentos de muitos corações/ todos se perguntando para onde foram o Sol e a Lua), em "Spider". A densidade dos temas e arranjos pode sugerir uma audição cansativa, mas as canções não se estendem por muito tempo, e fluem rapidamente ao decorrer do disco.

A travessia de Alain passa por sofrimento e saudade, mas exalta acima de tudo o amor e a esperança de um reencontro, como atesta "Return to You": You took me away/ Into that place I have lost / But I will return I will return to you (você me levou para aquele lugar que perdi, mas eu irei retornar, irei retornar para você). A música que uniu ambos no passado agora é a fagulha que dá continuidade e sentido para a vida. Através de um tributo solitário e despretensioso, Johannes reavivou sua alma criativa e registrou um dos álbuns mais interessantes de 2010, que rendeu até mesmo uma bem-sucedida turnê pelo mundo, com direito a uma parada na América do Sul e no festival brasileiro SWU.

Fontes das imagens: 1, 2, 3.

fabio machado

ainda não se decidiu se é um jornalista que desenha ou um músico que escreve textos. Enquanto isso, continua fazendo um pouco de tudo.
Saiba como escrever na obvious.

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