Joaquim encontra Lydia - Parte 3 - Final

Os balões de papel japoneses dançavam com a brisa vai-vem de Cachoeira, e a música que produziam era fresca e crocante, feito o barulho dos biscoitos de vento quando mordiscados por uma criança. Lydia havia chegado cedo para ajudar a mãe a fazer festa. Joaquim só mais tarde, trazendo o horizonte com efeitos de por-do-sol e Alfredo. 



chagall literatura amor Les Amoureux de Vence, Marc Chagall.

Esta é a terceira e última parte de Joaquim encontra Lydia. Leia a primeira e a segunda partes.

Lola, mãe de Lydia, passou a manhã lustrando os seus bibelôs e tirando pó das folhagens. A falta do marido lhe causava reviravoltas e mais um pouco. Ela carecia de estar com Lydia para relembrar do que foi, como num álbum de fotografias em que acariciamos memórias.

O salão apitava eufórico. Doris havia terminado de pentear a última cliente quando Gonçalves entrou. Ele precisou alugar uma Kombi para caber tudo de um todo: alguma carne branca, bebidas, os presentes e as ex-freiras que aguardavam sentadas e ansiosas pela hora de ir. Roliças e coradas, de vestidos floridos feito matrioshkas. Lydia não sabia que as ex-freiras estavam a caminho do enlace, o que não era um problema total, mas Doris tinha um nó de dúvida que só seria esclarecido na hora mais verdadeira do dia. A do regozijo.

Lola quis porque quis trazer para o jardim a televisão velha, destoante da paisagem. Ela dizia que era para distrair os pequenos, não as crianças, mas os bibelôs. E comentou com a filha que existem pessoas que ainda procuram o significado da palavra amor no dicionário. Para efeitos de uma vida nova, olhou nos olhos de Lydia e disse que sabia que ela não sofria destas ausências e esquecimentos. A tela da televisão desligada tinha marcas de dedos que lembravam nuvens e olhando bem de perto dava para ver homenzinhos recortando e montando origamis.

chagall literatura amor Bouquet Multicolore, Marc Chagall.

Quando Joaquim chegou, Lydia veio correndo e o abraço que deram foi de um afago quente. Como quando se está doente e a mãe traz um pouco de chá ou caldo morno para envolver, feito dança de espíritos. Joaquim ajudou a trazer a mesa para fora e esticou a toalha de remendos e fitas. Quis dar uma última volta com Lydia antes de mais tarde com toda a gente ao redor. Aquele entorno lhe fazia bem. Era a montanha e o que não dá pra saber. O mato verde saudável e as aves e bichos soltos. Quase pediu para Lydia se não podiam ficar por lá, depois pensou na cidade que tem os prédios e o fotógrafo que coleciona fotografias de encontros. E Alfredo que gostava daquela vida.

Lydia sentiu a pergunta, mas fez silêncio e o beijou. O vale circundava e era lindo. Que momento! Para trás ficava a casa e as coisas palpáveis. Quando a Kombi chegou trazendo todo mundo foi um estardalhaço, pois que até Alfredo saiu do lugar confortável em que estava. Gonçalves abriu a porta para Doris e as ex-freiras e depois descarregou o carro piscando para Lola, que fingiu que não viu. Doris foi ter com Lydia, que, surpresa, não sabia a quem abraçar primeiro. Mostrou os arredores para as freiras que foram logo colher lavandas e entrou com Doris para trocar de roupa. O vestido amarelo como as folhas do outono. Crisp-yellow sheer chantilly-Lace & ruffle-tulle, diz a etiqueta. Doris chorou ao vê-la inteira, um quadro. E tirou da bolsa uma pequena caixa com um colar feito de pérolas de rio. Lydia ficou enternecida.

As freiras improvisaram um pequeno altar e ficaram a postos. O dia estava claro e tinha epifania. Lydia abriu a porta e foi recebida pelas mãos de Joaquim que a acompanhou até onde as ex-freiras estavam. Lola trouxe mais flores e um anel para cada um. Doris abria um rio com os olhos e se abanava para suplicio dos bibelôs. Os cientistas da NASA, cronometricamente, se entreolharam, piscaram e voltaram os olhos para a tela do computador, cada um com a sua taça de champagne. O céu entrelaçado e as marchinhas de Gonçalves no ar, que nunca haviam soado tão bem.

chagall literatura amor Les Amants au Clair de Lune, Marc Chagall.

Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4.



isabella kantek

nasceu em Lorena, mas atualmente vive em Astoria. Faz barquinhos de papel e deposita santinhos na lagoa onde a água flutua sobre as folhas, sujeiras diversas e constelações.
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