
Labirinto - A Magia do Tempo foi idealizado no momento certo, oportuno. O seu enredo absurdo e assustador, envolvendo o sequestro de uma criancinha e o sutil romance entre uma adolescente e um homem adulto; e as suas personagens sedutoras, frágeis e também grotescas, dificilmente encontrariam o espaço e a acolhida devida nos dias de hoje, em que o pensamento e a atitude politicamente correta tornaram-se norma, roubando dos textos originais e do ato de ler e apreciar uma obra de arte toda a magia inerente a ela.
Quando eu era pequena tinha o costume de assistir a determinados filmes inúmeras vezes. Meu pai dizia que eu ia gastar a fita e que a tela da TV ia queimar. Que ele não ia renovar a mensalidade da locadora porque eu não variava o meu repertório. Ele tinha todo um papo. A verdade é que havia filmes que eu tinha prazer em saber de coração cada fala, cada cena, enquanto outros simplesmente me causavam um temporal de emoções. E o Labirinto é um deles.
Realizado em 1986 por Jim Henson (seu último longa metragem antes de falecer) e produzido por George Lucas, o filme Labirinto - A Magia do Tempo conta com a participação do ícone pop David Bowie no papel do extravagante Jareth, o rei dos goblins, e Jennifer Connelly como a jovem Sarah Williams. A trama aparentemente simplista se desenvolve em torno de Sarah, que sai em busca do seu irmão, o bebê Toby, que foi levado pelo rei dos goblins, numa aventura que mudaria para sempre a sua vida. O filme conta também com a participação excepcional de bonecos animados e marionetas - a maestria de Henson, o pai dos Muppets.
Quando Maurice Sendak, escritor e ilustrador americano de literatura infantil, escreveu "Outside Over There" em 1981, ele não imaginava que, cinco anos depois, a sua história serviria de inspiração para Jim Henson e sua equipe. Além de Sendak, outros nomes e obras clássicas fizeram parte desta rede encantada que ajudou o filme Labirinto a se tornar o que é: O Mágico de Oz, Alice no País das Maravilhas e o trabalho de M. C. Escher, por exemplo. Entretanto, foi o conto de Sendak que lhe conferiu este caráter fantástico, de aventura e de mistérios. E Henson não poderia ter escolhido melhor, já que Sendak produziu obras primorosas que dão voz ao nosso imaginário de maneira sem igual.

Para situá-los, o livro de Maurice Sendak Outside Over There conta a história de um bebê que é sequestrado por goblins e resgatado mais tarde pela sua irmã, então com nove anos de idade: "Com papai no mar e mamãe no porto, Ida tocava o seu fagote para acalantar o bebê, mas sem olhar. Então vieram os duendes. Eles forçaram a porta e puxaram o bebê para fora, deixando em seu lugar um outro todo feito de gêlo." * Apesar das pequenas diferenças entre os enredos, ambos os autores, Henson e Sendak, compartilham do mesmo tema, que é a forma particular como uma criança aprende a lidar com os mais variados sentimentos e situações (perigo, medo, frustração, inveja, tédio) atribuindo-lhes significados pertinentes para toda uma vida. É por isso que este filme sempre me causou um turbilhão de sensações. Pois era como entrar num pesadelo repleto de mensagens e camadas infinitas. Um pesadelo leve e denso cujo autor fez verdadeiro uso da linguagem (sem travas ou censuras) situando-a em outras realidades.

O que existe de mais bonito no conceito da intertextualidade é o diálogo que pode ocorrer em diversas áreas do conhecimento e em todas as manifestações em que o homem é capaz de imprimir a sua marca, sublimando as pequenas coisas por algo maior. A relação entre o Labirinto e a obra de Lewis Carroll, por exemplo, é que as duas histórias, a princípio superficiais, são enganadoras e nos fazem questionar o significado do que se diz ou se vê. Tanto em Alice, quanto em Labirinto, o mundo imaginado da toca do coelho e do labirinto em si se tornam entidades autônomas que nos convidam a jogar e a decifrar. Num eterno embate entre o real e o imaginário, a razão e a falta dela. O mesmo poderia ser dito sobre as ilusões de ótica tão impressionantes e paradoxais de Escher que, apesar de fazer uso de uma linguagem ou meio completamente distinto, nos desconcerta e faz ascender a outros mundos.
É por meio do diálogo e da troca entre todas estas obras que vemos nascer um trabalho mais rico e sólido, capaz de perdurar décadas. Neste caso, nostálgicos 25 anos.




* (tradução livre).
Comentários
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Anna Carolina
Ótimo texto!
Labirinto foi o filme que marcou minha infância! Por um bom período, assistia ao filme todos os dias, decorava falas e músicas, e depois recriava meu próprio labirinto no quintal da minha avó!
E além de Henson, Lucas, Bowie e Jennifer Connely, o roteirista é Terry Jones, da trupe do Monty Python!
Cris Vale
Ei, amiga! Que texto delicioso!
Acredite se quiser, nunca assisti a esse filme, mas com certeza tenho que corrigir essa falha no meu currículo.
Obrigada por compartilhar o seu conhecimento e sensibilidade.
Beijos!
P.S.: curti a fotinho!
BRUNO MEIRA
boa resenha, fiquei animado para assistir o filme. precisamos de mais magia em nosso cotidiano, coisa estranha estamos mergulhados em magia todo o tempo.
Louis
Às vezes me pego a pensar em Labirinto (filme que adoro, mas o considero sempre em par com História Sem Fim, e não com Alice) e acabo invariavelmente rindo sozinho, pois sempre me lembro daquela cena onde David Bowie está andando de cabeça para baixo, chega ao final do caminho e dá uma "virada" estranha para passar a andar por cima do caminho, ou então quando, no começo do filme, podemos ver claramente os fios que prendem a aranha que está na parede hehehehe. Adoro o filme, mas ele tem uns momentos bem toscos.
Laís
Labirinto é um dos filmes da minha vida, um que eu assistia repetidamente na infância (e ainda o faço hoje!) sem cansar nem medo de errar.
Tem um making off que é tão delicioso quanto o filme!
karol
são raros os momentos que, entediada no computador velho do estágio, consigo achar algo interessante e que me tire um pouco do tédio..
esse filme fez parte da minha infância, assim como na de todos aqui, né..
e me dá uma nostalgia imensa toda vez que leio ou vejo algo sobre ele!
sou meio frustrada porque não existe ele em nenhuma locadora da minha cidade e já pedi p uma amiga baixar na internet mas só achou dublado..
enfim..
acho que quando conseguir assistir ao filme de novo, depois de tantos anos.. sentirei esse turbilhão de emoções com uma intensidade bem maior!
thais zylberberg
Esse filme realmente mexeu comigo, eu era criança e havia uma mistura de medo e paixão pelo filme....hahaha e, me apaixonei de imediato pelo vilão, e até hoje ainda sou apaixonada pelo David Bowie!!!!
òtimo texto!!!!
Que saudade desse encantamento!!!!
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