Philip Glass: da velha vitrola do pai ao sofisticado universo de notas musicais

Acredito que a música é a única arte que está em todas as outras, capaz de contemplá-las e mesmo completá-las. Capaz de completar a nós e, freqüentemente, as lacunas que o mundo deixa enquanto gira.


philip glass

Havia um menino que, já tarde na noite, foi-se nas pontas dos pés sentar nos degraus da escada. Fora seduzido pela música que vinha da vitrola do pai – que se encontrava exausto na sala depois de um cansativo dia de trabalho. O pai, por sua vez, sabia que o menino estava lá sentado, mas jamais o indagou. Preferiu repartir com o filho aquela melodia que passeava pela casa. O menino, sabendo que o pai tinha conhecimento de sua camuflada presença, também preferiu ficar. Como se pai e filho soubessem silenciosamente que era aquele um momento mais íntimo que todos os outros. E, separados, ouviram juntos aquela música.

Foi naquele instante que o coração do menino despertou para o que a alma já sabia há muito tempo: nascera com o dom da música. O menino é Philip Glass, nascido em Baltimore, Maryland, em 1937.

Seu dom o fez não somente ser um dos pais de um estilo – o minimalismo – mas também o consagrou como um dos mais reverenciados compositores contemporâneos. Ainda jovem assistiu sua primeira ópera na nostálgica “The Metropolitan Opera House”, mais conhecida como “The Old Met” em Nova Iorque. Naquele tempo, Glass estudava no conceituado instituto de música “The Julliard School”. Depois de se formar na universidade de Chicago, mudou-se para a Europa, conheceu o músico indiano Ravi Shankar e com ele fez uma parceria que resultou em uma de suas mais inspiradoras obras – “Passages”.

Retornou a Nova Iorque influenciado por diferentes formas e estilos musicais, fundou a “Philip Glass Ensemble” – um grupo de músicos que se apresentava com variedade de instrumentos, experimentando inusitadas interferências na música. O estilo alternativo incomodou os tradicionalistas, que não estavam acostumados a tais experimentações. O novo conceito proposto influenciou a geração que despontava na época na cena musical.

Mas Glass já deixa claro há tempos – por meio de entrevistas – que não mais se considera a si mesmo como um compositor minimalista (gênero caracterizado por repetir uma seqüência musical, com pequenas variações, resultando em um ritmo cíclico da melodia).

philip glass

Seu estilo evoluiu, de fato. E ostenta uma ainda maior sofisticação e elegância, as quais continuam destacando-o como no começo de sua carreira. Minimalista ou não, Philip Glass continua sendo inovador em seus trabalhos.

É inspirado por milhares de razões, pessoas, sonhos e palavras. Sua música carrega toda uma extraordinária trajetória. É uma música que transborda sentimentos. A impressão que tenho é a de que, se pudéssemos segurá-la, seria pesada demais, com tanto a nos dizer e fazer sentir. Suas composições parecem contos escritos com notas musicais. Obras como “Brief History of Time”, “Passages” “Trilogy Sonata” e “Glassworks” são de espetacular qualidade e beleza.

A sonoridade de Philip Glass é a simplicidade de uma melodia que teima na complexidade do que parece ser infinito.

Glass é o primeiro compositor a conquistar reconhecimento de públicos variados - do público de ópera, ao de teatro, dança, cinema e música popular ao mesmo tempo. Frequentemanete, é convidado para compor trilhas sonoras de filmes e séries de televisão. Foi indicado ao Oscar por metade de seus trabalhos no cinema e é considerado um dos músicos mais influentes dos últimos tempos.

Porquanto a música é uma arte apreciada por todos, é sentida e, conseqüentemente, moldada por privilegiados. Porque música não se compõe, se molda. Ela vem de dentro a pedir para ser lapidada como a um diamante bruto. Algumas pessoas a sentem pulsar dentro delas e penso que essas mesmas pessoas percebem o mundo não em cores e movimentos, mas em freqüências musicais e sobreposições de tons, onde a harmonia ecoa suave pelas cordas, teclas, calçadas e corações. Para mim, é incontestável que uma dessas pessoas seja Philip Glass.

Fontes das imagens: 1, 2, 3.


rejane borges

Gosta das cores de folhas secas ao chão. E das cores das folhas velhas dos livros.
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