Raging Bull: uma tensa biografia cinematográfica

Com uma atuação primorosa, Robert De Niro vive o boxeador ítalo-americano Jack La Motta no filme "Raging Bull", dirigido por Martin Scorsese. O longa é um documento importante para se perceber como a arte pode dar dimensões ricas e belas a uma vida tão acidentada, recheada de rancor e amargura.


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O filósofo espanhol Ortega Y Gasset uma vez escreveu: “eu sou eu e minhas circunstâncias”. Já o poeta Fernando Pessoa gostava de dizer que havia “um eu profundo e os outros eus”. Estas expressões, porém, não fariam o mínimo sentido para Jake La Motta, excêntrico boxeador do Bronx, Nova York, vivido nas grandes telas por Robert De Niro em Raging Bull (EUA, 1980), do diretor Martin Scorsese.

Jack La Motta é sempre ele e sobretudo ele em qualquer circunstância. Dentro ou fora do ringue, com a esposa, com o irmão, com Sugar Ray, seu maior adversário, com a máfia... Pouco ou nada muda: ele irá agir sempre com a mesma selvageria. Este é seu inusitado encanto, e também, como é fácil deduzir, o seu grande veneno. Foi justamente por esta ótica da selvageria que Martin Scorsese conduziu tão bem Raging Bull (Touro Indomável, no Brasil), filme adaptado da biografia homônima, escrita por Peter Savage.

Em quase todos os textos críticos que se leia a respeito de Raging Bull, haverá sempre um parágrafo para destacar que o filme deveria trazer a assinatura de Robert De Niro na direção ou co-direção, tamanho foi seu envolvimento em todos os processos de realização da película, bem como a sua primorosa atuação, que lhe rendeu o prêmio de Ator Principal no Oscar de 1981 - nada mais justo para quem engordou cerca de 25 quilos para interpretar um La Motta em fim de carreira. “É o filme de De Niro roubado por Martin”, li em algum lugar. Mesmo que pareça despropositado, não está totalmente errado. Melhor que se diga: sem De Niro o filme não existiria. Primeiro, pela sugestão do projeto ao amigo diretor e, mais adiante, pela rígida insistência que levou um Scorsese indeciso e desencorajado (vivendo problemas conjugais e com drogas) a começar o projeto. O argumento de De Niro se baseava na força da história de vida daquele excêntrico personagem. Ele não estava errado.

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Com um Scorsese mais confiante e entusiasmado (diz-se que pelo fato de ter se reconhecido no temperamento explosivo de La Motta), as gravações foram caminhando. De início, a sensível escolha pelo P&B. Talvez um indicativo de que a vida do boxeador prescindia de cores. Uma vida bruta e amarga em tons de cinza. Exceção feita às simulações de filmagens caseiras, que contam rapidamente os melhores tempos de Jack junto a sua segunda esposa, Vickie (Cathy Moriarty). Namoro, noivado, casamento, nascimento dos filhos, tudo passa rápido como um sonho colorido e diáfano. Depois, volta a dura realidade em P&B.

Sem trilha original, a Cavalleria Rusticana: Intermezzo, composta por Pietro Mascagni em 1890, cai como uma luva. O elenco também não poderia ser mais adequado. Trabalhando com nomes desconhecidos, exceto o astro De Niro, Scorsese desencavou Joe Pesci, em vias de desistir da carreira de ator, e a belíssima estreante Cathy Moriaty. Pesci viveu soberbamente Joey, irmão e empresário de Jack, enquanto Cathy viveu a grande paixão do boxeador, objeto de ciúme e obsessão.

Conhecido como gênio dos ângulos inesperados e das câmaras lentas, Scorsese usou muito desses recursos para realçar certas pecepções do lutador do Bronx, ora maravilhadas com as curvas e olhares da sedutora e jovial Vickie, ora astuciosas e obcecadas pelo ciúme nos beijos aparentemente inocentes que sua esposa dava em Joey ou outros amigos mais chegados.

A edição primorosa de Thelma Schoonmaker lhe rendeu também uma estatueta em 1981. Alternando longos takes – o mais denso é aquele em que La Motta, preso, dá socos na parede da cela, amaldiçoando as próprias mãos e chorando copiosamente – com outros curtos e ágeis, invariavelmente decorridos nas cenas de luta.

Raging Bull é considerado um dos pontos altos da parceria Scorsese/De Niro, frutífera parceria que também nos rendeu, entre outras, pérolas como Taxi Driver (1976) e The Good Fellas (1990). Mas não é para menos. O que se vê nas duas horas do longa é a infalível crença de que toda personalidade humana é rica e misteriosa. Mesmo a de um brutamontes como Jack La Motta.

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Fonte das imagens: 1.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
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