Black Swan - não há arte sem ferida

Darren Aronofsky sabe como levar as suas personagens a bater no fundo. Mas em "Black Swan" há também uma espécie de catarse, fazendo de Natalie Portman a (anti) heroína de uma tragédia grega do século XXI em dois actos.


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É de perto que acompanhamos a ascensão de Nina Sayers (Natalie Portman) a prima ballerina da companhia de dança a que pertence. Sendo protagonista de "O Lago dos Cisnes", ela deve ser inocente, como o cisne branco, mas também sensual e provocante, à semelhança do cisne negro. Mas a sua natureza frágil e virginal, preservada a pulso pela mãe, impede-a de dançar, na perfeição, esse último papel.

Mas, aqui, a vida imita a arte e o lado obscuro de Nina acaba por despontar, como causa e consequência do seu repentino protagonismo na companhia: a necessidade de se libertar da atitude opressiva e castradora da mãe empurra-a para uma relação de amor-ódio com a também bailarina Lily (Mila Kunis), em quem reconhece a desinibição e sensualidade que deve absorver para melhor interpretar o cisne negro.

Tal como na tragédia grega o herói desafia a ordem estabelecida, Nina embarca numa viagem de exploração da sua sexualidade e do delírio da droga e rompe com o seu ritual de dedicação doentia à vida familiar e à dança.

Através da câmara sufocante de Darren Aronofsky e da música sempre perturbadora de Clint Mansell, dos Kronos Quartet, assistimos de forma assustadoramente próxima à fragmentação de uma mente e à ruína de um corpo.

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Há aqui, aliás, um paralelo evidente com The Wrestler, onde Randy (Mickey Rourke) vai desenhando e coleccionando feridas que auto-inflige no corpo, porque a dor torna-se inatingível no meio dos aplausos do público. "O único sítio onde me posso magoar é lá fora", diz. Fora do palco, entenda-se.

E é esse elemento que aproxima o universo do wrestling e o universo da dança: no palco, tanto Nina como Randy voam em queda - e luta - livre para a melhor actuação das suas vidas.

Também Natalie Portman tem aqui o papel da sua vida (a sua prestação já lhe valeu um Globo de Ouro e um BAFTA, prémio da academia britânica de cinema e televisão), mas resta a dúvida: será a Academia ainda demasiado púdica para premiar o mais arrojado filme da lista de nomeados?

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Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4.


Debora Canbé

Nunca foi nerd, mas gostava de o ser. Mesmo assim, acredita ser capaz de dar um ou outro bitaite sobre uma série de assuntos relativamente interessantes.
Saiba como escrever na obvious.
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