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Black Swan - não há arte sem ferida

publicado em cinema por | 19 comentários

Darren Aronofsky sabe como levar as suas personagens a bater no fundo. Mas em "Black Swan" há também uma espécie de catarse, fazendo de Natalie Portman a (anti) heroína de uma tragédia grega do século XXI em dois actos.

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É de perto que acompanhamos a ascensão de Nina Sayers (Natalie Portman) a prima ballerina da companhia de dança a que pertence. Sendo protagonista de "O Lago dos Cisnes", ela deve ser inocente, como o cisne branco, mas também sensual e provocante, à semelhança do cisne negro. Mas a sua natureza frágil e virginal, preservada a pulso pela mãe, impede-a de dançar, na perfeição, esse último papel.

Mas, aqui, a vida imita a arte e o lado obscuro de Nina acaba por despontar, como causa e consequência do seu repentino protagonismo na companhia: a necessidade de se libertar da atitude opressiva e castradora da mãe empurra-a para uma relação de amor-ódio com a também bailarina Lily (Mila Kunis), em quem reconhece a desinibição e sensualidade que deve absorver para melhor interpretar o cisne negro.

Tal como na tragédia grega o herói desafia a ordem estabelecida, Nina embarca numa viagem de exploração da sua sexualidade e do delírio da droga e rompe com o seu ritual de dedicação doentia à vida familiar e à dança.

Através da câmara sufocante de Darren Aronofsky e da música sempre perturbadora de Clint Mansell, dos Kronos Quartet, assistimos de forma assustadoramente próxima à fragmentação de uma mente e à ruína de um corpo.

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Há aqui, aliás, um paralelo evidente com The Wrestler, onde Randy (Mickey Rourke) vai desenhando e coleccionando feridas que auto-inflige no corpo, porque a dor torna-se inatingível no meio dos aplausos do público. "O único sítio onde me posso magoar é lá fora", diz. Fora do palco, entenda-se.

E é esse elemento que aproxima o universo do wrestling e o universo da dança: no palco, tanto Nina como Randy voam em queda - e luta - livre para a melhor actuação das suas vidas.

Também Natalie Portman tem aqui o papel da sua vida (a sua prestação já lhe valeu um Globo de Ouro e um BAFTA, prémio da academia britânica de cinema e televisão), mas resta a dúvida: será a Academia ainda demasiado púdica para premiar o mais arrojado filme da lista de nomeados?

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Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4.

debora
Sobre a autora: débora cambé; Nunca foi nerd, mas gostava de o ser. Mesmo assim, acredita ser capaz de dar um ou outro bitaite sobre uma série de assuntos relativamente interessantes. Saiba como fazer parte da obvious.

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Comentários

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Excelente "bitaite". Permita-me minha visão - as drogas e o estresse extremo desencadearam nela uma psicopatia paranóica, da qual a mãe tem traços também.

Rui

Um dos melhores filmes a que já assisti!

Rejane Borges

A excelente interpretação de Natalie Portman é incontestável, mas achei que faltou originalidade no filme. Só faltou recitar a introdução de "The Thorn Birds" de Colleen McCullough, junto a tantos clichês.

Muito bom artigo! Parabéns! ;)

Thiago Ataide

(contem spoiler)

José Leão,


Vejo que a droga representa apenas a queda do muro que a separava do cisne negro, que sempre ali esteve. Por isso, a "psicopatia paranóica" que descreveste não veio, foi buscada pela protagonista para atingir seu objetivo: a perfeição.

Rui

Não concordo muito com os comentários. Essa tal 'droga' é aquela que toda a gente já experimentou, o desejo. O problema é que ela 'tomou' demasiado. Não devemos viver em extremos, mas sim no meio. Entre o preto e o branco!

João Rosa

"O mais arrojado filme da lista de nomeados"?
Um filme seguro, arrogante, demasiadamente explícito, que foi um sucesso de crítica apenas pela famigeração e não seus méritos medíocres, julgamentos de valor ou visão artística estreita.

@Thiago Ataíde:

Pode ser sim, neste caso seria uma psicopatia obssessivo-compulsiva. O fato é que a psicopatia subsiste abaixo de uma supeficial normalidade. Existem desencadeantes que a trazem à tona.

José C Leão

@REjane: Fiquei curioso... nunca vi "Pássaros feridos" nem li o livro, mas vi que trata-se de um romance adaptado para uma minissérie de TV, pela sinopse. Quais os clichês que você viu em Black Swan que são comparáveis aos deste?

O que dizer de um “filme” que em 103 minutos provocou um Eterno Caos em meu Ser!
Transitei o Tempo Todo por todas as dimensões, comecei inocentemente como um mero espectador na cadeira do cinema, em poucos minutos estava girando na platéia de um grande teatro, em seguida fui arremessado para palco cósmico da minha existência psíquica e terminei em total Colapso! E, neste momento, pude viver o Êxtase da Redenção que só a Morte traz! Saibam ver este filme! Curvem seus Joelhos! E saibam morrer com Êxtase e Dignidade!
Este filme oferece uma grande chance para a humanidade entender o que é o sofrimento de viver na Ignorância Psíquica e entrar definitivamente na verdadeira espiritualidade! Este não é um simples filme! É uma vivência espiritual, um Ritual Mágico, quem entender e Viver este Filme irá sair definitivamente das baboseiras esquisótericas!
Este filme, Sim, é para um iniciado! Este filme, Sim, revela o Segredo!
Schopenhauer: “Quando morremos, lançamos fora a nossa individualidade como roupagem usada, e nos regozijamos porque estamos para receber outra, nova e melhor.” Schopenhauer, ao escrever este texto, de alguma forma, deve ter visto “Cisne Negro” Estou, ainda, sem a menor condição de voltar para a Realidade!
Ainda estou em pleno êxtase!

Rejane Borges

@josé
The Thorn Birds foi completamente arrasado pela série de TV. Nem pense em ter como referência ao livro a adaptação da TV. Hj em dia as adaptações de clássicos são muito melhores, obviamente, como por exemplo, "Little Dorrit", de Dickens, na PBS. ;)

Os clichês em Black Swan são muitos, como a virgindade que simboliza o "puro" e que não deixa o espírito rebelar-se e a carne libertar-se. O seu tutor ensinando como livrar-se de tal "carga" que atrapalha seu desempenho, etc, etc. E não são todos os clichês comparáveis ao "The Thorn Birds", mas um é justamente a idéia do suplício da autoflagelação. Só se adquire o melhor com um grande sofrimento - ao custo da morte. É a lenda do pássaro ferido. Eis a introdução do livro.

Não acho, no entanto, que seja um filme ruim. Acho que o tema é manjado, não tem originalidade, só isso. ;)
Abraços.

@josé
The Thorn Birds foi completamente arrasado pela série de TV. Nem pense em ter como referência ao livro a adaptação da TV. Hj em dia as adaptações de clássicos são muito melhores, obviamente, como por exemplo, "Little Dorrit", de Dickens, na PBS. ;)

Os clichês em Black Swan são muitos, como a virgindade que simboliza o "puro" e que não deixa o espírito rebelar-se e a carne libertar-se. O seu tutor ensinando como livrar-se de tal "carga" que atrapalha seu desempenho, etc, etc. E não são todos os clichês comparáveis ao "The Thorn Birds", mas um é justamente a idéia do suplício da autoflagelação. Só se adquire o melhor com um grande sofrimento - ao custo da morte. É a lenda do pássaro ferido. Eis a introdução do livro.

Não acho, no entanto, que seja um filme ruim. Acho que o tema é manjado, não tem originalidade, só isso. ;)
Abraços.

Cherry Candy

O mito de Perséfone contado por outro ângulo! Talvez clichê pra muitos, mas ainda original na forma como foi concebido.
Sinceramente... P-E-R-F-E-I-T-O!

Ana Paola Moura

É um filme que realmente afeta que o assiste, da forma que o desejo afetou a Nina a todo momento. O filme é realmente perfeito! Mas a perfeição não feita pra nós meros mortais... Devemos sim, entender quando ser o cisne branco e quando ser o cisne negro. Como já comentado, eu também estou ainda extasiada com o filme!

Ruyva

Se calhar vou-me repetir. Toda as pessoas têm dentro de si um cisne negro e um cisne branco. Com Nina não foi diferente.
No entanto, nenhum deles se mostra quando queremos ou quando precisamos, só se mostram quando querem.
E isso são as lutas que temos connosco por uma razão ou outra.
Com a Nina foi mais dramático porque teve que o mostrar, e isso era a salvação.
Este filme é fabuloso.

Não gostei do filme, apesar de Portman ser atriz de grandeza e de gostar dela> O filme relata o mundo cão dos bastidores, a luta do pega mata e come e a loucura que muitas vezes invade a arte. Excelente atuação da protagonista, mas infelizmente não me tocou a alma.

Não só o filme é perfeito, a trilha de Clint também é fantástica. O filme parte exatamente da premissa de que o bem e o mal existem no mesmo corpo. Ninguém está a salvo do seu lado sombrio. A perfeição custa caro.

Tenho algumas considerações "filosóficas" sobre a obra. Identifiquei nela muito do pensamento de um filósofo alemão chamado Nietzsche. O enredo da obra dirigida por Darren Aronofsky relata a história de Nina (Natalie Portman) , uma bailarina que consegue o papel de rainha dos cisnes no ballet o "Lago dos Cisnes" do meu maravilhoso Tchaikovsky, e sua ardorosa luta para conseguir interpretar esse papel. Ela terá que interpretar os dois cisnes, Odete e Odile, o Cisne Branco e o Negro, de forma convicente e arrebatadora. O filme todo trata desta luta.

O filme levanta questionamentos muito relevantes. Como Nina é uma exímia bailarina, que se preocupa com a técnica, e com uma perfeita execução dos passos, ela acaba, por causa dessa disciplina, se comedindo e se trancando para a possibilidade de viver de forma espontânea e intensa seu papel. Ela luta para ser disciplinada e intensa ao mesmo tempo, o que é um complexa e dificílima tarefa. Poder encontrar o equilíbrio entre o dionisíaco e o apolíneo. Mas o que é isso?
Dentro do panteão de deuses da mitologia grega, existiam dois deuses contrastantes: o Apolo, deus da medida, do controle, da razão, da mensura; e o Dionísio, o deus do desvairio, da liberdade, da intensidade, da paixão. Eles se tornaram símbolos de contrastes. E nossa vida é pautada ainda sob a influência (metafórica diga-se de passagem) desses deuses. Até certo tempo, dentro do contexto história da Grécia antiga, o deus que possuía mais aceitação era o Dionísio, que era venerado, e seu comportamento imitado; com o passar do tempo (e o detalhes históricos disso, procure no google), alguns pensadores começaram a tirar Dionísio, a intensidade descomedida, do pedestal e colocar Apolo, a luz da razão, a racionalidade, no lugar mais alto. A partir de então, todos os nossos impulsos "carnais" começaram a ser reprimidos e combatidos (um exemplo notável disso é o cristianismo), contudo eles não desapareceram; e todo o discurso certo, tinha que ser um discurso pautado na razão. A vida correta era a vida comedida, controlada. Quem quebrasse essa regra áurea, era visto com maus olhos (ou queimado vivo). E todo o pensamento ocidental platônico-judaico-cristão fundamenta-se nisso. Mas, eis que no final do século XIX, aparece um pensador original, uma verdadeira dinamite destruidora de discursos vazios: Friedrich Nietzsche.
Este pensador de origem alemã, propõe a retomada do dionisíaco na vida do humano. Seria uma vingança de Dionísio. Nossa vida não é feita só de racionalidade e comedimento, ela é formada também pela intensa paixão pelas coisas, pela entrega aberta para as coisas. Mas Nietzsche não diz que se deve agir loucamente sem pensar nas consequências, sermos loucos. Agir por agir somente. Precisamos de chão, de algo que nos segure para que não sejamos trucidados pela nossa própria loucura. O que ele critica é forma como levamos nossas vidas: nos reprimindo. E ele oferece uma saída: o equilíbrio. Não ficar nos reprimindo como se esses desejos fizessem parte de um aspecto negativo de nossas vidas. Há uma metáfora que exemplifica muito bem isso: a vida é como um quadro, onde a moldura seria o apolíneo, e as cores, os desenhos que compõe o quadro, o dionisíaco. O dionisíaco é que daria beleza a vida, mas para que não extravase, seria contido dentro da moldura do apolíneo.

O problema de nossas vidas é que a passamos toda apenas como um esforço para reprimir nossos desejos, nossas reais vontades. Dentro do filme, isso é bem posto quando Nina tenta reprimir as forças do cisne negro, que fazem parte dela, que querem sair.

Não podemos fazer de nossas vidas uma eterna luta contra nossos impulsos. O que devemos fazer é lutar para chegar ao equilíbrio e se jogar para vida (desculpe o clichê), mas sem ser destruído por essa repressão da razão. Não devemos colocar um muro entre nossos desejos e a razão, mas fazer com que os dois andem juntos e em harmonia.


Por essas e outras que considero esta película, formidável.

Nossa! Aplausos para o comentário acima.

Eunice

O filme mostra que muitas vezes nos deparamos com imprevistos e eventualidades em nossa vida profissional, são os chamados limites profissionais, pois naquele momento não estamos preparados para tal cargo, tal posição. Mas o que o filme deixou bem claros que não a limites profissionais que não possam ser ultrapassados por nos seres humanos, com muito esforços conseguimos realizar ate aquilo que julgamos impossível. Nos seres humanos somos incríveis tendo capacidade para nos adaptar a qualquer situação, e vivemos constantemente superando nossos limites, e aquele que ganha a competição de natação com apenas um braco ou uma perna, e aquele que sai das tribos chilenas e conquista a universidade de Oxford, e aquele que vive nos frios intensos dos andes, ou que toma banho de sol nas geleiras que se derretem, ou aqueles que vivem no sol intensos do deserto sem sofrer nada em sua temperatura corporal, somo nos que aprendemos a respirar, a ver, a rastejar, a engatinhar, caminhar, correr, saltar, nadar, a mergulhar, e como se isso não bastasse, inventamos grandes aviões e navios, tornando o mundo tao pequeno que somos capazes de chegar do outro nado do mundo em apenas vente e quatro horas, ou seja não há limites que não possamos superar, a diferença entre perdedores e vencedores, é que o perdedor desiste, mas o vencedor continua perdendo ate que um dia vence.

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