O torcedor de futebol: um enigma

Por ser um esporte planetário, o futebol desperta desprezo e paixão. Para alguns, a grande metáfora da vida; para outros, uma nulidade completa. As linhas que se seguem buscam colocar luz em um dos seus protagonistas mais significativos: o torcedor. Quem são e qual a lógica que seguem.


torcedor torcida adepto futebol

Em torno dos sete a oito anos o ser humano se defronta com a primeira grande pergunta que bem ou mal terá muita influência sobre toda a sua trajetória de vida: "por qual time torcer?" É até desnecessário mencionar que esta escolha está imbricada a uma rede de influências tais que qualquer argumento emancipado (portanto, não alienado) resultará contraditório e falso. O que eu tento dizer é que, no fim, não importa: tendo o ser humano cravado a ferro e fogo a escolha do seu time do peito, ele se transforma nesta esfinge que conhecemos por "torcedor".

As idiossincrasias do torcedor sempre me causaram fascínio, porque, na prática, nunca achei como medir qualquer coerência na relação desse ente enigmático com seu "objeto de adoração", seu clube. Tudo é muito vacilante, nenhum discurso se sustenta. A continuação de "torço porque..." desemboca sempre numa deformação tola do argumento maior, que a linguagem não abarca, apenas em algumas exceções margeia com raríssima felicidade.

A relação do torcedor com seu time sempre teve traços de religiosidade e de absurdo completos. Se foi ou não Santo Agostinho quem sentenciou "creio porque é absurdo", sou eu lhe dou contornos futebolísticos: "torço porque é absurdo".

Todas essas reflexões de almanaque me seguem desde quando me percebi flechado pela dúvida ideológica da localidade. "Como, sendo feirense, torcer por um time do Rio de Janeiro?". Muito fiz para entender e combater esse elo diáfano entre o Flamengo e eu, e tudo resultou inútil porque nunca achei no time em si - além da incansável bajulação da Rede Globo e adjacências - algo que fizesse desconstruir a minha cega paixão de torcedor.

torcedor torcida adepto futebol

Mesmo com as incontáveis derrotas vexatórias, com a relação mediada pela televisão e os noticiários, com o discurso do "ópio do povo" latejando na garganta dos mais eufóricos, nada nem ninguém me apresentou um sistema lógico que me fizesse parar de torcer pelo meu clube.

E estendo essa convicção a todos os torcedores de todas as agremiações, porque eles são feitos da mesma matéria imprecisa e, em certo sentido, mesmo que as músicas, as cores e as palmas sejam diferentes, todos eles desejam se dissolver na massa torcedora, ter a sua voz e grande parte de seus desejos compartilhados por milhões em determinado tempo e espaço.

torcedor torcida adepto futebol

Foram incontáveis as vezes que eu discuti com amigos sobre as possibilidades de o torcedor exercer a sua "função". Muitos parecem convictos de que não há outra senão ir ao estádio. Acreditam que a tevê aliena o futebol, o deixa engessado a uma tela azul e toda torcida mediada pela caixa luminosa aliena. Discordo. Toda mediação pode ser ou não alienante, porque todas - até a do estádio pela sua fugacidade e massificação - são parciais. Isto é um imperativo. O que acho sadio é a compreensão desses fenômenos e o intuito de preservar a tão idealizada individualidade (uma leitura crítica?) dentro dessas perspectivas contraditórias.

Difícil, eu sei, em se tratando de "torcedor".

Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
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