Um Sábado Qualquer, por Carlos Ruas

No princípio, Carlos Ruas criou Deus. E os quadrinhos andavam um tanto quanto vazios. Disse então ele: que haja outros personagens; e houve outros personagens. E constatou que humanos dialogando com Deus era bom. E disse Carlos: que haja sempre a exploração do lado cômico da existência utilizando-se de diversos elementos narrativos. E assim houve. E viu Carlos tudo o que fez, e eis que era muito bom.


Carlos Ruas deus quadradinhos

Crianças são imaginativas, isso não há como negar. Durante nosso processo de descoberta do mundo, tendemos a criar imagens para tudo. E com a religião não é diferente. Quem recebeu uma educação cristã, como a maioria das pessoas no Brasil e em Portugal, não conseguia imaginar Deus sem criar uma imagem Dele. Acredita-se que a mais comum do universo infantil seja aquela de um senhor barbudo (às vezes calvo) que observa todos os nosso atos, aprovando-os quando bons e castigando-os quando maus. É a partir desta figura – tão nostálgica e comum a todos – que Carlos Ruas decide fazer humor.

Antes de dedicar-se aos cartuns, o autor fez teatro e trabalhou como palhaço, mas acabou formando-se em Desenho Industrial. Após a graduação, elaborou a arte gráfica de projetos em geral, mas nada de tiras. “No Brasil, poucos conseguem viver de tiras e era claro que eu não seria um deles”, disse-nos em uma conversa por e-mail. Porém, um dia a inspiração inicial chegou. Durante encontros com os amigos em bares, Carlos percebeu possuir certo tino para fazer humor com questões religiosas: “Todos riam, então pensei... Por que não criar um quadrinho nesse tema?”.

Carlos Ruas deus quadradinhos

“As ideias começaram a surgir e não parei de desenhar. No mesmo dia criei os personagens e algumas tiras”. O autor, que tem Henfil, Laerte e Quino como grandes referências, diz que a melhor ferramenta para se trabalhar é a mão. Os desenhos são feitos primeiramente a lápis e nanquim para depois serem escaneados. Com a ajuda de softwares, as sequências são montadas e coloridas e só então estão aptas para publicação. Este processo demora de 3 a 7 horas.

Para mostrar seu trabalho, o artista não hesitou em escolher a internet: “O blog é uma maneira gratuita e prática de você divulgar algo, para quem está começando é perfeito! Não pensava em dinheiro, só queria que as pessoas vissem meu trabalho. Era um hobbie, adorava chegar do trabalho e desenhar a tira do dia”. E deu certo. Na oitava semana, sua página alcançou 2 mil acessos. Posteriormente, com a ajuda de sites populares e da propaganda boca-a-boca, conseguiu uma ampla divulgação, o que multiplicou o número de visitantes.

Carlos Ruas deus quadradinhos

Carlos Ruas deus quadradinhos

O Deus segundo Carlos Ruas aprende cada dia um pouco mais sobre o estilo de vida humano e não deixa de se surpreender. Com influências humorísticas que vão de Woody Allen e Chaplin a Monty Phyton, Ele já abordou questões como globalização, música pop, festas populares, aquecimento global, namoro virtual, desmatamento e até a criação do ornitorrinco. O Criador também serve como conselheiro ao ouvir as crises de relacionamento entre Adão e Eva, bem como a relação do casal com seu filho Caim – dono de uma personalidade à la Bebê de Rosemary.

Personagens ilustres também fazem parte do projeto. Nietzsche – um incontrolável assassino de deuses – já figurou em aparições hilárias. Freud também: durante uma sessão de psicanálise onde tinha Deus como paciente, perguntas sobre Sua infância foram feitas, o que rendeu a épica resposta “Eu não tive infância”. Darwin, Einsten, Niemeyer e, é claro, o Papa também estão no arquivo.

Carlos também brinca com entidades divinas de outras culturas. No “Boteco dos Deuses”, questões existenciais (e nem tão existenciais assim) são debatidas com o egípcio Íbis, o grego Zeus e o viking Odin. Iemanjá também já apareceu em meio a uma crise, chorando por não aguentar mais receber tantas flores.

Por se tratar de um assunto delicado, perguntamos ao autor se já havia recebido acusações de blasfêmia ou algo do tipo: “É um humor light, acho que não passa uma critica ofensiva e acredito ter sido esse o meu diferencial. Mas sempre há os extremistas... Com esses não tem jeito. Num todo, são poucos os casos. Recebo em média uma reclamação por mês, geralmente por e-mail, onde, além de ser mandado pro inferno, dizem que Deus irá se divertir me torturando. Fora isso, tudo na normalidade.”.

Carlos Ruas deus quadradinhos

E a produção não para: você pode conferir as 512 tiras publicadas até agora no site de Carlos Ruas. As postagens são diárias, exceto aos fins de semana, porque até Deus descansou no sétimo dia.


version 1/s/artes e ideias// @obvious, @obvioushp //sergio coletto