Você viu um travesti da Transilvânia?

Junte um mordomo corcunda, uma groupie que faz sapateado, um cientista travesti com pernas de parar o trânsito e uma criação “à la Frankenstein” de cabelo louro, músculos e bronze de surfista. A receita harmonizou-se num musical que virou fenómeno de culto: The Rocky Horror Picture Show.


travesti transilvânia time warp

Time warp. Expressão em língua inglesa que pode significar: a) distorção de espaço-tempo; b) ilusão em que o tempo parece estar suspenso; c) uma festa e dança surreal com dois irmãos de um planeta distante, na casa de um travesti com um vistoso colar de pérolas e a sua criação de homem/monstro muito peculiar, baseada no mítico Frankenstein.

A última opção parece absurda, mas diz respeito ao filme que está há mais tempo em exibição na história do cinema e que é um clássico de Halloween nos Estados Unidos. Exacto: o musical The Rocky Horror Picture Show, enredo que surgiu no palco do Royal Court Theatre de Londres, em 1973, e cuja adaptação ao grande ecrã, dois anos depois, criou um sucesso sem precedentes.

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Time warp é uma das canções do musical e a mais reconhecível. Sem explicação, o tom rock’n’roll é acompanhado por uma das coreografias mais caricatas que possam ser pensadas. Mas a verdade é que ela desperta a vontade de imitar os movimentos loucos dos personagens estranhos que compõem a cena. Parece que Richard O'Brien, o criador da peça e actor tanto em palco como no filme, acertou em cheio quando idealizou esta história bizarra.

Mas afinal o que é o Rocky Horror Picture Show? Antes de mais, nenhuma palavra o vai preparar para a sequência tresloucada de eventos que surgirão no ecrã ou no musical em palco. O’Brien criou um argumento de homenagem aos filmes de ficção científica, muito na moda na década de 60 e 70, mas também aos filmes de horror de série B e à música rock’n’roll, que dá tom a todo o filme e ao nome da personagem principal: Frank’n’Further.

Aliás, só Frank’n’Further daria pano para muitas palavras. Apresentando-se desde o primeiro momento como “sweet transvestite from Transsexual Transylvania” (algo como “doce travesti da Transilvânia Transexual”), este personagem interpretado por Tim Curry, então no auge dos seus 29 anos, é provocador, ousado e uma verdadeira pedrada no charco dos bons costumes. No alto dos seus sapatos de plataforma, com corpete apertado e as melhores pernas masculinas em meias de liga que a sétima arte já conheceu, Frank’n’Further é a alma de Rocky Horror. E também o motivo pelo qual o movimento LGBT abraçou o filme. Afinal, Frank’n’Further é sinónimo de transexualidade, bissexualidade, loucura e… algo de tão sedutor que deixa tentado até o mais conservador de nós.

Frank’n’Further, além de ser o anfitrião perfeito, o cientista louco e o assassino cruel numa só personalidade, dá também cara ao mote “Don’t dream it, be it” (“não sonhes, sê”), repetido por diversas vezes na parte final do filme. O jargão, aliado às características de ousiders da maioria dos personagens, tornou Rocky Horror no filme das minorias, dos excluídos da sociedade que se quer perfeita e normativa, dos párias que não se revêem nos filmes tradicionais da mocinha e do mocinho de Hollywood.

Inconformados e “marginais”, os fãs fiéis de Rocky Horror têm lugar marcado nas sessões da meia-noite que tornaram a película lendária. Entre quatro paredes ou numa sessão ao ar livre, tudo é possível. A multidão canta em coro as músicas do filme, enquanto as cenas são representadas ao vivo em frente ao ecrã. Demasiado louco? Ainda não. Os espectadores levam também adereços especiais para tornarem toda a experiência lendária. Arroz para a cena do casamento, pistolas de água para a cena do temporal. Nada é feito por acaso.

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Passados 35 anos desde o seu lançamento, Rocky Horror instituiu-se como filme de culto. Um percurso impensável para uma película de baixo orçamento, cuja estreia foi um flop junto do público. À primeira vista, é difícil perceber o motivo do sucesso. Afinal, as vozes não são de topo, apesar de MeatLoaf (sim, o cantor de Paradise by the Dashboard Light) e de Tim Curry se destacarem.

A narrativa tem momentos de puro non-sense e as letras das músicas são, em alguns casos, sexualmente explícitas (Toucha Toucha Touch Me, cantado por uma jovem Susan Sarandon) e os personagens devem ter saído directamente dos sonhos de O’Brien. E talvez das nossos próprios devaneios oníricos. Mas quem sabe seja a junção de tudo isto que torna Rocky Horror inesquecível e irrepetível. Ou, por outro lado, talvez a explicação esteja apenas nos lábios carnudos de Frank’n’Further cantando I can make you a man.

Fontes as imagens: 1, 2, 3, 4.


Marisa

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