Emicida: a nova jóia do hip hop brasileiro

Com Emicida o rap brasileiro vai mudando de pele: sai a casca grossa dos tempos em que tudo era queixume e insatisfação e entra algo mais vibrante e positivo – é o hip hop procurando a poesia da vida.


emicida_2_eniocesar_cc.jpg Foto: Ênio Cesar, Creative Commons

Seu nome de batismo é Leandro Roque de Oliveira. Porém, após seqüenciais vitórias e prêmios acumulados nas batalhas de free style na capital paulista, Leandro Roque ganhou a curiosa alcunha de Emicida: nome que une MC (mestre cerimônia) com homicida. É que ele ficou conhecido por assassinar todos os MCs que o desafiaram nas batalhas. O apelido caiu bem.

A formação musical de Emicida é bastante curiosa. Ele costuma dizer que duas de suas maiores referências musicais surgiram ainda na infância com idas a terreiros de candomblé e a igrejas protestantes: a razão desta orientação ecumênica não vem do excesso de fé, como alguns podem presumir, mas sim do facto que em ambos os cultos religiosos a comida era farta e gratuita – quer algo mais atrativo para um menino pobre e esfomeado que já mordeu um cachorro por comida?

Do terreiro de candomblé, o batuque hipnótico dos tambores e atabaques lhe causou forte impressão rítmica; dos demorados cultos protestantes, a eloqüência e a retórica dos sermões dos pastores lhe despertaram o fascínio pela fala, pela posse do microfone e pelo raciocínio rápido. Não creio que exista uma escola melhor para um aspirante a rapper.

O rap de Emicida difere um pouco do que conhecemos até aqui como rap nacional (falo do rap brasileiro), conceito que gira em torno das obras dos Racionais MCs e de MV Bill. O que pode ser apontado como diferencial de Emicida em relação ao rap nacional tal qual o conhecemos não está apenas no seu impressionante talento para o improviso e para a rima – nestes quesitos, não sei se os veteranos Thaíde e Mano Brown ficam muito aquém da jovem revelação – mas sim numa nova postura para lidar com os tradicionais temas do rap brasileiro: os problemas sociais das periferias, a violência brutal que assola estes bairros, a criminalidade entre os jovens, o tráfico, etc..

Não precisa ouvir mais que três canções de Emicida para perceber qual é o tom que as move: apesar das calamidades sociais e existenciais que estão entranhadas nas periferias brasileiras, há também quem consiga, como ele, sentir esperança, nutrir sentimentos de compaixão pelos seus e de deslumbramento em relação à grandiosidade da vida.

emicida rap brasileiro brasil hip hop Foto: Ênio César, Creative Commons

Em “Só isso”, do seu mixtape de estreia (Pra quem mordeu um cachorro por dinheiro, até que eu cheguei longe – 2009) ele canta: “Vale a pena tá vivo/ nem que seja pra dizer/ que não vale a pena tá vivo/ mas vale a pena tá vivo”, e também: “Eu não caminho em vão/ vô passando uns perrê/ é aquela velha história/ de ver o copo meio cheio”.

Pois é isso. Vendo o copo sempre meio cheio, Emicida vai buscando conciliar a tragédia da vida dos subúrbios brasileiros com a poesia e a fome de viver desse povo. Muitos e muitos poetas populares como ele conseguiram extrair esta dose poética entre a tragédia e alegria das favelas, cada um a seu tempo e a seu modo. Hoje em dia, aos 25 anos, ainda com muito caminho pela frente, é a vez dele. Para nossa sorte.

Veja a página de Emicida no MySpace.


Ederval Fernandes

Ederval Fernandes é baiano de Feira de Santana.
Saiba como escrever na obvious.
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